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SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Carmen
Imbassahy
Inicialmente,
diz Dr. Imbassahy que o termo “purgatório” advém do latim, purgatio, onis = a purificação, em que Cícero se refere à
eliminação de maus humores e Plínio se ligava à alimpadura, como fazem os
jardineiros com as plantas podando-lhes os galhos secos, e até mesmo à
menstruação feminina. Desta forma, purgatório, como lugar onde se purga, seria
o local da limpeza das almas.
No
texto que acabamos de ver, pode-se confirmar que o conceito de “purgatório” não
existia anteriormente e que tenha sido um neologismo – purgatorium – criado pela própria Igreja, no século sexto para
definir este novo estágio transitório da alma e que, como tal, não teria
definição no idioma do velho Lácio e só seria usado no vocabulário
eclesiástico. Não há, pois, nenhum conceito real referente ao mesmo senão o
imposto pela dita Igreja. Jesus não poderia se referir a um conceito
inexistente.
Sem
dúvida, no texto lido, se há uma ponderação absoluta de Kardec é esta, a de que
o Purgatório em si seria algo bem mais racional do que as idéias de Céu e de
Inferno como lugares absolutos da criatura após seu trespasse.
Mas
curiosamente, esta não seria uma idéia evangélica senão introduzida
posteriormente pela Igreja para satisfazer a uma série de condições por ela
criada, no caso, destinando a criatura que, sem méritos eclesiásticos para
alçar ao reino de Deus também não possuía culpa condenatória que determinasse
um destino tão cruel como a ida para o inferno cristão.
Aqui,
Kardec aponta para o caso de um país que só tivesse a “pena de morte” –
admitindo-a, portanto –, para todos os crimes. Por isso, a instituição da existência
do purgatório teria se feito necessário para acolher, evidentemente, segundo
teorias não demonstradas, a alma do pecador para fugir das alternativas absolutas
de condenação ou absolvição, de acordo com sua conduta, aqui, religiosa.
Sobre
o verbo purgar, ainda, temos o substantivo “purgante” ou purgativo que acabou
entrando na farmacopéia como laxativo; sem dúvida, a idéia de purgar sempre
teve o conceito de “purificar”, até mesmo no caso da metalurgia primitiva e
finalmente vamos encontrar nos conceitos figurativos como sendo usado na condição
de expiar, pagar ou remir os pecados, mas, deve-se isto ao fato de que a
Igreja, ao introduzir este novo estado ou destino de almas em resgate, passou a
admitir a idéia de que a alma estaria se redimindo dos seus erros cometidos durante
sua existência terrena.
E
ainda poderíamos nos lembrar das tradicionais corredeiras do Purgatório, entre
Pará e Mato Grosso, nome esse dado porque as mesmas limpavam para o garimpo as
pepitas de ouro ali existentes no rio
dos Teles, famoso por esta riqueza.
Juntando
textos curiosos a respeito do Purgatório, podemos incluir os seguintes:
Camilo
Castelo Branco, em uma de suas peças teatrais, tem uma cena entre a criada de
quarto e o seu patrão, que ela conhecera desde os tempos de rapaz, antes de se
casar e o acompanhara, após o matrimônio. Nesta cena, a ama comenta com o
patrão a vida dele atual, de brigas e desavenças com a esposa; diz ela:
–
Antes de se casar, o senhor dizia que, ser noivo dela, era um “mar de rosas”...
–
Pois é, Maria – comenta, interrompendo-a – casando-me sou um “mar... ido”.
–
O senhor não devia se separar, pois vivia num céu aberto durante o noivado.
–
Por isso é que eu quero me separar rapidamente, enquanto estou nesse purgatório
que é meu casamento e dele possa sair, porque, do inferno ninguém escapa.
Uma
outra descrição pitoresca vamos encontrar em Stèphane Mallarmé, poeta
simbolista autor da famosa obra “L’après midi d’un faune” que inspirou Debussy. Em 1897, na
célebre coletânea “Divagações”, tecendo comentários acerca do purgatório, alega
que, ao fim de sua vida, seria o último lugar que pensaria em visitar, pela
incerteza de como sair de lá. Faleceu no ano seguinte.
Já
François Malherbe, poeta barroco do século XVI, teria escrito algo sobre o que
seria o purgatório, mas, de tão mau gosto, provavelmente, que disseram que “As
Lágrimas de São Pedro” – por ele escrito em 1587 – foram derramadas em
decorrência daquela descrição.
François
Marie Arouet, conhecido como Voltaire, na sua sátira à religião, conhecida como
“Epístola a Urânia” (1733) – uma das nove musas que presidem a Astronomia –
escreve-lhe carta comentando que a Igreja estaria re-impingindo a nova e
caliginosa região do seu domínio para lá se instalarem as infelizes almas que
não alçassem os céus, mas escapassem das penas eternas, criando uma rendosa
fonte de lucros para que seus ofícios sacramentassem tal escapadela. Era uma
crítica às novas missas dedicadas aos que pelo purgatório adejassem.
Tudo
indica que, de etapas em etapas, gradativamente, a Igreja reacendia a vivência
nada paradisíaca do purgatório, para lá enviando o maior número possível de
almas penadas, a fim de que seus amigos e parentes mandassem rezar tais missas
que mereceram do codificador tamanha crítica.
Deixando
tais considerações de lado, no texto, Kardec lembra que cada encarnação é uma
oportunidade de progresso, mas, como se pode ver, nem sempre é aproveitada pelo
infeliz que, na sua ilusão efêmera, pensa, apenas em usufruir benefícios, mesmo
em detrimento de outros ou até em prejuízos graves para os atingidos. E lembra
que seria através delas que “purgaria” seus débitos, ou seja, redimir-se-ia das
faltas cometidas pelo resgate das mesmas, obedecendo rigorosamente à lei de
equilíbrio do Universo. A mesma que, segundo os físicos, determina que a
eletricidade emitida por um dos pólos de uma pilha a ela retorne pelo outro,
sendo absorvida em idêntica quantidade.
E
este resgate ocorre com maior ou menor brevidade de acordo com o próprio
“penitente” (entre aspas) e sua vontade de se livrar de tal peso, motivo pelo
qual não há prazo estabelecido para que isso ocorra. São sucessivas as encarnações,
porém, em número necessário, apenas, para cumprir com o ressarcimento das
faltas, a partir do quê, as que se seguirem serão para cumprir missões sublimes,
de acordo com seu grau evolutivo, o que explica a participação terrena de
criaturas cuja vida só vem a ser dedicada para estudos em benefício da humanidade.
Citemos Fleming – como exemplo – com a penicilina, abrindo a porta para o
tratamento de doenças até então incuráveis.
Também
se incluem neste rol os grandes missionários, desde Confúcio, Buda, até Gandhi,
na Ásia; Jesus, para nós, enfim, luminares capazes de mostrar que a vida não se
resume apenas nas glórias terrenas, mas que o reflexo delas se dá no esplendor
da existência espiritual.
A
título de curiosidade, lembra-nos um caso ocorrido por volta de 1885:
Os
irmãos Émile e Georges Moreau, sobrinhos de um dos fundadores da Librarie Larousse & Boyer, haviam
assumido cargos de direção na famosa editora dos mais renomados dicionários de
França e, talvez, por inexperiência, não estavam dando conta do recado. Disso,
teria gerado um diálogo entre eles. O primeiro reclama:
–
Isto aqui era um paraíso no tempo do nosso tio; agora, virou um purgatório do
qual não sabemos como sair. Seria melhor acabarmos com a livraria enquanto ela
não se torna em um verdadeiro inferno, porque, caso contrário, não teremos como nos livrar depois que
mergulharmos nele.
Ao que o outro teria retrucado:
–
Em ambos os casos, teremos que recorrer à Igreja – e, ante a surpresa do outro,
conclui: – porque, se foi a Igreja que instituiu o purgatório, só ela poderá
fechá-lo; e, para sairmos do purgatório, também, só depois que satisfizermos às
suas exigências, porque ela é a única que dispõe de recursos para liberar seus
penitentes.
Se
é verdade ou não, este fato, a Larousse
continua firme em suas edições, para felicidade dos que a consultam.
A
título de curiosidade, lembra-nos um caso ocorrido por volta de 1885:
Os
irmãos Émile e Georges Moreau, sobrinhos de um dos fundadores da Librarie Larousse & Boyer, haviam
assumido cargos de direção na famosa editora dos mais renomados dicionários de
França e, talvez, por inexperiência, não estavam dando conta do recado. Disso,
teria gerado um diálogo entre eles. O primeiro reclama:
–
Isto aqui era um paraíso no tempo do nosso tio; agora, virou um purgatório do
qual não sabemos como sair. Seria melhor acabarmos com a livraria enquanto ela
não se torna em um verdadeiro inferno, porque, caso contrário, não teremos como nos livrar depois que
mergulharmos nele.
Ao que o outro teria retrucado:
–
Em ambos os casos, teremos que recorrer à Igreja – e, ante a surpresa do outro,
conclui: – porque, se foi a Igreja que instituiu o purgatório, só ela poderá
fechá-lo; e, para sairmos do purgatório, também, só depois que satisfizermos às
suas exigências, porque ela é a única que dispõe de recursos para liberar seus
penitentes.
Se
é verdade ou não, este fato, a Larousse
continua firme em suas edições, para felicidade dos que a consultam.
A
título de curiosidade, lembra-nos um caso ocorrido por volta de 1885:
Os
irmãos Émile e Georges Moreau, sobrinhos de um dos fundadores da Librarie Larousse & Boyer, haviam
assumido cargos de direção na famosa editora dos mais renomados dicionários de
França e, talvez, por inexperiência, não estavam dando conta do recado. Disso,
teria gerado um diálogo entre eles. O primeiro reclama:
–
Isto aqui era um paraíso no tempo do nosso tio; agora, virou um purgatório do
qual não sabemos como sair. Seria melhor acabarmos com a livraria enquanto ela
não se torna em um verdadeiro inferno, porque, caso contrário, não teremos como nos livrar depois que
mergulharmos nele.
Ao que o outro teria retrucado:
–
Em ambos os casos, teremos que recorrer à Igreja – e, ante a surpresa do outro,
conclui: – porque, se foi a Igreja que instituiu o purgatório, só ela poderá
fechá-lo; e, para sairmos do purgatório, também, só depois que satisfizermos às
suas exigências, porque ela é a única que dispõe de recursos para liberar seus
penitentes.
Se
é verdade ou não, este fato, a Larousse
continua firme em suas edições, para felicidade dos que a consultam.
A
título de curiosidade, lembra-nos um caso ocorrido por volta de 1885:
Os
irmãos Émile e Georges Moreau, sobrinhos de um dos fundadores da Librarie Larousse & Boyer, haviam
assumido cargos de direção na famosa editora dos mais renomados dicionários de
França e, talvez, por inexperiência, não estavam dando conta do recado. Disso,
teria gerado um diálogo entre eles. O primeiro reclama:
–
Isto aqui era um paraíso no tempo do nosso tio; agora, virou um purgatório do
qual não sabemos como sair. Seria melhor acabarmos com a livraria enquanto ela
não se torna em um verdadeiro inferno, porque, caso contrário, não teremos como nos livrar depois que
mergulharmos nele.
Ao que o outro teria retrucado:
–
Em ambos os casos, teremos que recorrer à Igreja – e, ante a surpresa do outro,
conclui: – porque, se foi a Igreja que instituiu o purgatório, só ela poderá
fechá-lo; e, para sairmos do purgatório, também, só depois que satisfizermos às
suas exigências, porque ela é a única que dispõe de recursos para liberar seus
penitentes.
Se
é verdade ou não, este fato, a Larousse
continua firme em suas edições, para felicidade dos que a consultam.
Curiosamente,
no item 9, o texto insiste em lembrar que a punição é temporária, correlata com
a culpa e a recompensa que ocorre segundo o mérito de cada um. Tal insistência
denota o cuidado que teve o codificador de persistir nesses conceitos
combatendo os já arraigados na sociedade, em decorrência da sua formação
religiosa através dos tempos e que, podemos dizer, dura, sem dúvida, até o
presente.
Aqui,
ainda, faz-nos lembrar o ocorrido com Pierre Corneille, (1606-1684), poeta e
teatrólogo francês protegido de Richelieu que, após diversas peças teatrais
culminando com Le Cid, contrariando
as regras da tragicomédia francesa, sofreu uma terrível reação da crítica,
pelas suas inovações e pelos desfechos que contrariavam a tradição, acabou se
recolhendo à meditação e retornou à cena com peças de cunho tradicionalista.
Após
essa ocorrência, ele teria declarado: consegui sair do purgatório em que me
meteram os críticos.
Evidentemente,
só saiu porque era um “purgatório”. Comenta o irônico crítico de um jornal
parisiense.
E,
sem dúvida, calha bem o exemplo, porque sugere aquilo que Kardec nos traz, ou
seja, as penas e os sofrimentos nos são impostos pelas circunstâncias de nossos
atos e delas só nos livramos quando atentamos para o fato de que temos, nós
mesmos, pelos próprios esforços, corrigir nossos erros a fim de que nos resgatemos
de nossas faltas e não voltemos a cometê-las.
Quando
isto acontecer, como diz Kardec no texto, “a Terra deixará, então, de ser um
mundo expiatório e os homens não sofrerão mais as misérias decorrentes das suas
imperfeições”. Mas, para isso, é preciso que toda coletividade compreenda a lei
e cada qual cumpra sua parte referente a ela.
Da
mesma forma, naquela época de Kardec não se conhecia o conceito de energia,
motivo pelo qual, os sábios desse século referem-se ao fluido elétrico e tudo
mais. O mesmo ocorrera com todos aqueles que viveram antes de a Igreja
instituir o purgatório a seu bel prazer, a ponto de Giovanni Boltraffio, aluno
de Leonardo da Vinci, indagar do mestre porque ele não teria idealizado, criado
e pintado um purgatório e este lhe dizer ou responder que não tinha a astúcia
da Igreja para fazê-lo.
Parece,
pois, que Kardec interpreta as palavras de Jesus referindo-se ao inferno como
sendo as inspiradoras na “criação” (entre aspas) do purgatório católico, muito
posterior a ele, pois, Jesus, de fato, não poderia jamais se referir a penas
eternas, em sua sabedoria profunda. E nem poderia falar de um conceito que só
surgiria três séculos após sua existência.
Mas,
pela prudência, Kardec prefere fazer uma colocação mais figurada do que
simbólica, ou mesmo patente a respeito dessa opinião, deixando aos seus
leitores a conclusão da idéia.
E
ainda lembra, sob forma interrogatória, que nosso Mestre o foi também, idêntico
em atitude, com outras questões.
E
assim, encerra o presente capítulo.
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