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SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Carmem
Imbassahy
Introdução
Primeiramente, vamos diferençar dois casos que se confundem com a
manifestação mediúnica do encarnado. O primeiro deles é a manifestação anímica,
onde a própria pessoa se libera do corpo, num fenômeno erroneamente conhecido como
"desdobramento" e se manifesta psicofonicamente como se fosse uma
Entidade distinta, usando os recursos do seu próprio aparelho orgânico.
O segundo caso é dito manifestação subconsciente porque a pessoa entra num
transe simples e ela mesma, sem perceber que está transmitindo idéias próprias,
manifesta-se como se fora um desencarnado.
Em nenhum desses dois casos há a presença de qualquer outra personalidade,
quer de pessoa encarnada, quer de desencarnado.
O que, de fato, se conhece como manifestação mediúnica do
encarnado é um fenômeno em que o médium em vez de servir como
"aparelho" para que, por seu intermédio, tenhamos a comunicação de um
Espírito qualquer, por ele, em condições semelhantes, quem se apresenta é
alguém vivendo como nós, na Terra, por algum processo de liberação do seu
corpo, encontrando meio, através da mediunidade desta pessoa para se comunicar
com os assistentes.
Classificação
Kardec aborda o assunto no Livro dos Médiuns, capítulo XIX e
Alexej Akzacof dedica um capítulo do seu livro Animismus und Spiritismus ao assunto,
relatando uma série de casos para análise. Todavia, foi Ernesto Bozzano que,
resumindo o assunto, fez a seguinte classificação deste fenômeno, num trabalho
intitulado Estudo dos Fenômenos Anímicos e Mediúnicos, dividindo-o nos
seguintes grupos:
1. Mensagens inconscientemente transmitidas ao médium;
1.1. - por pessoas durante o sono;
1.2. - por pessoas em estado de vigília;
1.3. - por pessoas em processo de bilocação;
2. - Mensagens obtidas por vontade exclusiva do médium, no caso,
com clarividência, clariaudiência, telemnésia e outros fenômenos simultâneos;
3. - Mensagens em que o manifestante expressa sua vontade;
4. - Manifestação do moribundo no momento agônico;
5. - Mensagens intervivos com interferência de uma Entidade
espiritual.
6. - Outros tipos não estudados.
Não se torna necessário destaque a cada caso, já que, pela sua
própria conceituação, ela diz o que cada um deles representa.
No Livro "Animisme ou Spiritisme" Bozzano já apresenta,
de forma um pouco resumida, o mesmo assunto o que nos leva a admitir que ele
tenha ampliado a matéria, incluindo casos de outros autores e citando
ocorrências diversas para exemplificar sua exposição. São seus destaques os
casos apresentados por William Thomas Stead onde fatos psicográficos denotam
que, na maioria dos acontecimentos, os manifestantes nem sempre estão
conscientes da manifestação e que,
posteriormente, comprova-se o fato por decorrência das informações prestadas.
Kardec abordando o assunto no capítulo XIX do Livro dos Médiuns,
pelo seu conteúdo, apresenta respostas que lhe foram dada e do que se poderia admitir
a priori é que estes fenômenos só ocorrem por psicofonia e psicografia, no
entanto, a resposta dada pela Entidade ao codificador esclarece que tal
manifestação ocorre como se o encarnado estivesse na condição de Espírito livre
e não por processos anímicos, como no caso da telepatia e na transmissão do
pensamento, o que nos leva a admitir que ele possa ocorrer em todos os casos
mediúnicos.
Um outro esclarecimento prestado pela Entidade dirime dúvida a
respeito dos que, ao interpretarem o fenômeno da comunicação mediúnica seja ela
meramente influência do próprio médium e que, no caso da comunicação de outrem
não haja o fenômeno por essa natureza, mas, como sendo puramente anímico, ou
seja, transmissão do pensamento emitido pelo manifestante e recebido pelo
aludido médium.
Então, os detratores da doutrina resolveram atribuir a fenômenos idênticos
toda e qualquer manifestação do morto, por isso, torna-se importante destacar o
presente estudo para que se tenha uma posição correta da fenomenologia em si.
Estudo geral
Akzacof intitula de "escrita automática" a psicografia
em si e apresenta casos diversos em que o comunicante seja um encarnado,
mostrando a diferença entre este que outro fenômeno, onde, no caso do "morto"
pode-se identificar sua personalidade, tal como no da manifestação de um
encarnado, contudo, usando a sua individualidade terrena que possuía antes do
seu desenlace.
Então, trata-se, pois, da identificação em ambos os casos,
evidenciando que se trata de um ou de outro caso segundo as evidências.
Kardec ainda nos dá referência em artigos a depoimentos prestados
pelo Dr. Maximillien Perty, suíço seu contemporâneo, possivelmente ex-colega da
Escola Pestalozzi, segundo o qual ele evidencia a comunicação de uma sua conhecida
que, através da médium, escreve sua mensagem usando sua letra e não a da médium.
Ele testou, comprovando o fato.
A médium era uma professora conhecida de Perty e a comunicante
fora sua aluna (ou ainda o era, na época) e que alega que ainda não fizera o
trabalho escolar de casa, àquela hora.
A médium estava esperando mensagem do seu falecido marido e, em
vez dela, veio a da aluna. Ela própria duvidara da comunicação, atribuindo-a a alguma
Entidade brincalhona, por isso, junto com o Dr. Perty, resolvera apurar a
veracidade do fato. Naquele momento, a aluna comunicante participava de uma
festa que se prolongara até tarde e, de fato, ela estava muito preocupada por
não ter feito ainda a lição. Pelo seu depoimento, ela se recolhera para cumprir
o seu dever e, de repente, depara-se com a imagem da professora e lhe transmite
o fato, só não entendia porque a professora escrevera o que ela lhe dizia.
Este é um caso típico de comunicação em estado de vigília, embora
muitos pensem que tal não seja possível.
Olympio Campos, que fazia as vezes de meu irmão, de uma feita, caminhava
pela rua e seu viu cercado por alguns colegas, em outro lugar distinto, falando
com eles. Posteriormente soube que, naquele local, de fato, o grupo se reunia
e, de repente, um médium dá passividade permitindo que ele se comunique, confirmando
aquilo que vira e, inclusive, o que houvera dito ao grupo. Olympio só não
percebera que sua comunicação ocorria pelo processo psicofônico através de um
médium. Sua sensação era a de que estava falando diretamente para a turma.
Há, ainda, um caso curioso de telemnésia, contado por Hyslop.
Como todos sabem, mnésia quer dizer "memória" em grego,
daí, o termo "amnésia" definir o esquecimento dos arquivos da
memória. E "tele" à distância. Segundo Hyslop. Esta memória pode ser
transmitida e lida por terceiros, sem ser por telepatia que é idêntico ao
radar. Na telemnésia a leitura se dá sem que o emissor esteja pensando no
assunto para que o telepata possa ler.
O caso contado relata um médium que, por vontade própria, resolve
ler o pensamento de um dos presentes e, em vez de ter contacto com o
conhecimento do que o presente estava imaginando, entra em transe tipo
mediúnico e transmite um assunto que o outro estava estudando, incluindo as
hipóteses que este formulou, mas, que, no momento, não estava presente em sua
mente.
Aqui, todavia, embora seja um dos casos estudados por Bozzano,
eu, particularmente, classifica-lo-ia como anímico, pois não me parece ter havido
o processo da manifestação do outro que estaria presente à reunião e, para seu
espanto, o médium transmite algo que ele não estava pensando, todavia, que
estava em seu consciente, porque era assunto de estudo.
No caso William Stead, inglês de Embleton, pode-se dizer que,
durante muito tempo, dedicou-se a pesquisas correlatas com manifestações de encarnados
e ele próprio, vindo a falecer no acidente de afundamento do Titanic em abril
de 1912, teria vindo comunicar a seus familiares, no momento agônico, que
estava embarcado no navio e que este havia sofrido sério acidente que o estava
levando ao afundamento. Conta cenas do que estava ocorrendo a sua volta e
pressente que seja seu fim. De repente, o médium entra em convulsão e seu guia
se manifesta explicando que o comunicante acabara de passar para a vida
espiritual, motivo por que perdera o contacto com o médium.
Há um caso atribuído a Akzacof, mas que não está incluído em seu
livro e que exemplifica a influência dos guias espirituais na manifestação mediúnica
de um encarnado que precisava prestar esclarecimentos acerca de determinado
assunto.
A narrativa nos dá conta de uma pessoa que, estando muito mal,
vítima de um acidente num local sem socorro, libera-se momentaneamente do corpo
e é trazida a uma sessão mediúnica para se manifestar por psicofonia, dando o local
do acidente e do seu estado de semiconsciência. Ele era alpinista e resolvera
ir buscar um material que esquecera em determinado lugar, onde fora com
colegas, a passeio. Sozinho, todavia, despencou-se do barranco e ninguém sabia
que ele houvera ido para lá. E lá ficaria para sempre.
Evidentemente, os que receberam esta comunicação prepararam uma
equipe de socorro e encontraram o comunicante tal como houvera informado. Mas,
como
a vítima não dominava a técnica da intercomunicação, seus amigos espirituais resolveram
ajudá-lo para que ele pudesse ser socorrido. Ainda havia muito que viver.
A descrição dá o nome das pessoas envolvidas e o relato é
complementado por uma série de conclusões a respeito do fenômeno, tido inédito
pelos participantes.
Do grupo estudado por William Crookes, destacamos os casos
descritos por Florence Marryat, sua amiga pessoal que relata os fenômenos de
Katie King através da médium Florence Cook, no livro There is no Death onde ela
própria declara que fora sujet dos fenômenos mediúnicos mais estranhos, onde os
comunicantes não eram desencarnados, pelo contrário, eram pessoas
"vivas" suas conhecidas que, vinham, através dela, dar as mais inusitadas
comunicações.
No seu relato ainda constam casos de pessoas estranhas que lhe
vinham dar informações as quais ela passava para o grupo de pesquisa a fim de comprová-las,
chegando à conclusão de que, de fato, os encarnados também podem se comunicar
mediunicamente com outras pessoas.
O curioso da sua narrativa é que, aqui, as comunicações eram
dadas através de tiptologia; ela segurava um pequeno bastão que ia batendo e
outra pessoa ia contando as batidas correspondendo cada uma à ordem alfabética
das letras. Onde parasse, a letra era assinalada por uma outra pessoa e a seqüência
delas formava palavras inesperadas e frases perfeitas.
Pelos seus depoimentos, fica evidenciado que o encarnado pode se comunicar
mediunicamente por diversos processos, não estando restrito ao psicofônico nem
ao psicográfico.
No caso de bilocação, há exemplos históricos, como o de Antonio
de Pádua, em que o dito santo deixa seu corpo em Assis - Itália - e aparece a fiéis
em outros locais. Um exemplo típico de materialização do espírito de um
encarnado, mais uma vez levando-nos a admitir que o fenômeno pode ocorrer em
todas as gamas do mediunismo.
Neste caso, o que se presume é que haja um médium de efeitos
físicos cedendo energia ectoplásmica - senão o próprio transportado - para que
a aparição possa ocorrer porque, em se
tratando de visão geral, não se explica que seja caso de vidência mediúnica
porque esta só acontece para os que tenham este tipo de mediunidade.
Análise física do fenômeno
Evidentemente, nada ocorre na dita natureza sem obedecer às leis universais
imutáveis.
No caso da manifestação mediúnica do "morto" é que se
tenha em vista que o Espírito atue em nosso meio sob os diversos aspectos
devidamente estudados por Kardec, quer nos fenômenos personalísticos, quer nos ectoplásmicos.
Quanto a manifestações de encarnados, evidentemente, embora, sob aspecto
mediúnico, o fenômeno seja o mesmo, pelo aspecto físico ele é bem diferente,
senão, vejamos:
Primeiramente, o Espírito encarnado tem que possuir uma
propriedade de desvinculamento do corpo sem ruptura do dito laço prateado, hoje
considerado como sendo o duplo energético de acoplamento do campo biofísico com
o campo perispiritual. Coisa à qual o desencarnado não está sujeito.
Além disso, torna-se essencial que o encarnado possa se deslocar,
livre do corpo, como no caso que comum e impropriamente se chama de "desdobramento"
à falta de termo específico, e se manifestar no outro ambiente para o qual vá.
O desencarnado, não tendo vínculo com nenhum corpo material, volita livremente
por qualquer ambiente, já o encarnado está sujeito a uma série de fatores de
deslocamento, inclusive de atrito dito viscoso, pois ele possui, além do
perispírito - que é livre para o desencarnado - o lastro bioenergético do seu
campo vital orgânico, coisa que os antigos observadores jamais imaginaram ou
supuseram, mas que, sem dúvida, acontece, porque o encarnado tem uma estrutura
corpórea que lhe vincula a parte perispiritual manifesta ao somático.
A coisa não é assim tão fácil de se imaginar e se pensar, supondo
que o Espírito possa sair do seu corpo sem romper seus ligamentos ou liames corpóreos
com a mesma facilidade em que o passageiro desembarca de uma condução.
À falta de qualquer estudo neste campo, ouso sugerir uma série de
coisas plausíveis, para que, quando se formar alguma equipe de pesquisa que queira
averiguar o fenômeno com uso de aparelhos espectrográficos, tenha uma referência
de caráter científico.
A dificuldade toda, porém, é a de que o fenômeno sempre ocorre
fora dos controles de pesquisa: nunca se está presente ou se supõe que alguém
esteja se liberando do corpo (e não se desdobrando, feito folha de papel), no momento
em que tal ocorre, salvo nos casos de condicionamento. Mas, nestes casos, geralmente,
o sensitivo é induzido pelo condicionador e obedece a seu comando. Por outro
lado, seria preciso que este condicionador possuísse um médium à sua disposição
para tentar que o sensitivo liberado de seu corpo pudesse se manifestar através
dele.
Aí, complica tudo, mas, já seria um início.
Uma outra observação importante é o fato de que, para toda esta ocorrência
haverá um consumo de energia. Sabe-se, por informação prestada a W. Crookes de
uma Entidade que se materializava através do médium Dunglas Home que a energia
que os Espíritos usam a fim de que possam se manifestar no domínio físico de
nossa existência é retirado do ectoplasma celular orgânico através da presença
de um médium que permita sua "catálise" através dele, embora não
tenha explicado como isso ocorra.
Admitindo-se o fato como verdade, temos que levar em conta, primeiramente,
a parte em que a alma encarnada se emancipa do seu corpo; neste caso, ela pode
usar seus próprios recursos comuns ao fenômeno vulgarmente dito "desdobramento".
Faria parte das funções orgânicas e só ocorre no sensitivo que tenha tal
propriedade.
A partir desse momento, o deslocamento desta alma é rigorosamente
idêntico a todos os casos; a etapa seguinte é que nos traria a indagação: que
recursos tal criatura usaria para se manifestar?
Talvez, usando certas informações, possamos entender que, embora vinculada
a um corpo, nesta fase, a alma é um Espírito como outro qualquer e, neste caso,
ao apresentar mediunicamente através de um sujet, use os mesmos recursos do
desencarnado, consumindo energia do próprio médium que é mensurável por aparelhos
espectrográficos, não só capazes de caracterizar a presença do campo espiritual
do manifestante, como, ainda medir-lhe a intensidade.
Uma coisa, porém, é certa: este fenômeno consome tais energias,
sem o que jamais se realizaria.
É preciso que nós, espíritas, comecemos a nos habituar com essas
idéias e passarmos a nos dedicar a tais estudos, porque não será evangelizando ninguém
que conseguiremos fazer chegar aos cientistas e pesquisadores de um modo geral
os conhecimentos doutrinários da codificação e os ensinamentos de Jesus defendidos
por Kardec.
A evangelização simples já existe há quase dois mil anos e só
conseguiu afastar a Ciência da verdade em nosso campo e causar guerras
fratricidas.
Apresentado no dia 9/set na Sala Filosofia Espírita
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