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O Santo Graal*

 

SALA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Carmem Imbassahy

 

Não há dúvida de que o meio espírita e seu movimento doutrinário sofrem terrível influência da mentalidade daqueles que o compõem, não ocorrendo o que normalmente acontece com as demais doutrinas onde suas bases fundamentais são obedecidas e acatadas por todos os seus respectivos fiéis.

O que se me afigura é que, sendo o Espiritismo uma doutrina com uma parte religiosa, correlata com o Estudo de Deus e sua Criação (capítulo I do LE e capítulo II de A Gênese), é que seus seguidores, influenciados pelas diversas correntes ligadas a religiões, com predominância para o Cristianismo, queiram fazer com que a codificação elaborada por Kardec se torne algo correlato com aquilo que eles aprenderam ou herdaram da sua sociedade.

Não entendem que o codificador fez sua mensagem enviada diretamente àqueles que, por não aceitarem tais conceitos de caráter religioso, jamais chegariam aos ensinamentos de Jesus senão pela lógica e pela razão que ele impôs ao seu elaborado trabalho.

E, ainda, orientados por mensagens mediúnicas de autoria de eclesiásticos ligados à Igreja, uma grande parte dos que compõem a sociedade considerada como sendo espírita, apaixonada por tais páginas, passou a ter conceitos muito mais ligados à Igreja do que àquilo que Kardec tentou difundir através de suas obras.

E estão querendo mudar a doutrina espírita.

Enquanto isso, porém, o mesmo deixou de ocorrer com os demais cristãos que, empolgados pela liberdade de pensar, com a queda da impostura da Igreja pela Santa Inquisição, começaram a analisar os demais documentos que não foram destruídos pelo grupo de trabalho constituído por Constantino, o Grande, no ano de 367, resultando na instituição da Igreja Apostólica Romana em 392, com a doutrina intitulada Cristianismo e que contrariam os escolhidos por tal comissão.

E um desses contestadores da Igreja é Dan Brown, escrevendo um livro que, na tradução portuguesa mereceu o título de Código Da Vinci, evidentemente, fazendo um estudo relativo àquele grande gênio do Renascentismo italiano.

Neste livro, os capítulos 55 e 56 são dedicados a um assunto inesperado pela sua apresentação e que merece uma análise profunda e radical, do seu conteúdo, para o que ele observa, ligado, evidentemente, ao quadro “A Última Ceia” e ao pseudocálice de Jesus que teria dado a seus discípulos para que fosse o símbolo da sua doutrina.

A lenda conhecida, de um modo geral, por nós, diz-nos que Jesus teria bebido o vinho no último cálice e que o servira para os demais, tendo Pedro tomado dele para se tornar o apostolo, pedra fundamental da sua doutrina.

Ledo engano, segundo a análise do autor, baseado em pesquisas sérias e comprovadas.

Todo o seu livro está devidamente documentado da origem de seus acervos.

Evidentemente, embora muitos tenham lido a obra, convém fazer um resumo do pensamento do autor expresso nesses dois capítulos, para que tenhamos uma idéia do que devamos observar.

O assunto é muito mais do que polêmico, porque derruba uma série de dogmas da Igreja que são seguidos no meio espírita pelos que aceitam as mensagens mediúnicas dos aludidos mensageiros do bem que nos têm passado uma filosofia puramente cristã, diversa da de Kardec. Inclusive o próprio conceito emanado pelas enciclopédias vigentes.

Os capítulos referem-se a um diálogo entre um analista chamado Teabing e Sophie, sua amiga. Eles apreciavam a obra prima de Da Vinci, representando Jesus numa ceia, no momento em que ele diria para seus apóstolos que, dentre eles ali haveria um que iria traí-lo.

Da Vinci, segundo vários autores, inclusive Dan Brown, teria estudado a fundo o Cristianismo para compor sua telas famosas a respeito da existência de Jesus em algumas de suas passagens mais notórias. E uma delas é a da “Santa Ceia”.

Após sérias considerações a respeito do mestre que foi o pintor da Monalisa, Teabing contesta a lenda aceita pela generalidade dos cristãos, mostrando, pelas imagens ali contidas, os terríveis erros de interpretação, a começar pelos cálices, afinal, na pintura não tem nenhum, ou não existe o único dito cujo onde Jesus teria tomado seu último gole da bebida de uva, pois todos os presentes dispunham de um copo, baixo, sem pé, o que, por si, já mostra que o dito Santo Graal não seria tal frasco. E, então, o que viria a ser?

O capítulo é soberbo e merece uma leitura de todos. Seu conteúdo reformula tudo aquilo que Constantino teria imposto como sendo a nova religião monoteísta do seu império romano e esclarece ainda que teria sido um golpe político a escolha do Cristianismo como religião do Império, pelo número de adeptos que o mesmo possuía, levando-se ainda, em conta, a diversificação de crenças entre os politeístas onde cada grupo adotava um deus distinto como preferência.

Lembra, ainda, como surgiu o conceito de herege, herético, além de garantir que a idéia de Jesus ser o Filho de Deus advém da figura de Mitras, um deus supremo dos ditos pagãos que era a Luz do Mundo, e que se transformaria na figura do Cristo. Enfim, nada de novo no reino da Dinamarca, como diz o popular.

O livro não é um “achismo” e tudo o que afirma seu autor está calcado em documentos e provas arrolados por ele, a fim de que não se tenha a obra como sendo mais um Cavalo de Tróia, porém, algo cuja análise, embora num sentido figurado e quase romanceado é o espelho da fidelidade das coisas, embora esta se choque com a doutrina cristã imposta pela Igreja de Constantino.

E diga-se que, de fato, este imperador romano não estava devidamente credenciado para impor uma doutrina a seu povo. Sua atitude, como desta o autor, foi meramente política, com a finalidade de fazer com que os seguidores de Pedro se curvassem ante uma doutrina cujo domínio estivesse em poder da coroa romana.

Evidentemente, a declaração de que não existe nenhum cálice representado no afresco do pintor italiano é o ápice do capítulo 55 e a preparação para o suspense revelado no capítulo seguinte. É tão pungente a narrativa que tive que procurar uma foto da pintura, a fim de analisá-la pela descrição que é feita pelo interlocutor de Sophie. Achei-a na Enciclopédia de Claude Auge editada pela Librarie Larousse, 17, Rue Montparnasse, 1905 – Paris.

De fato, todos os presentes no quadro têm seu pequeno copo, destes que hoje em dia completam a mesa de um refeitório, para uso específico de certas bebidas em dose restrita, pratos, pães e nenhuma garrafa ou botija de vinho embora alguns poucos copos estejam com uma porção escura de líquido no seu interior.

E mais, como descreve o capítulo, do lado direito de Jesus e esquerdo de quem olha para a tela está uma mulher, para o qual chama a atenção, o que elimina a hipótese de doze apóstolos homens. Eis o primeiro equívoco eclesiástico. E, segundo este autor, o artista da pintura teria pesquisado profundamente para fazer tal disposição.

Para Dan Brown, também, Da Vinci teria sido o maior pesquisador – senão um dos maiores – de todos os tempos acerca da existência de Jesus e o seu mais fiel intérprete, não podendo dar a lume seus estudos porque contrariavam, in totum a posição da Igreja. Aqui, interpretando o pensamento deste sábio, ele cita duas frases suas extraídas da obra La Storia di Leonardo e que mereceram a seguinte tradução: “Muitos fizeram comércio de ilusões e falsos milagres, enganando ignorantes” e a outra citação é “Cegante ignorância nos ilude. Ó miseráveis mortais, abri os olhos!” Evidentemente, conclamando as criaturas a verem a verdade além da crença e não aceitarem uma doutrina falsa imposta pelos seguidores da Igreja romana.

E segue-se às citações um comentário relativo à Bíblia que, evidentemente, é execrado por todos esses bispos atuais de seitas cristãs novas, dissidentes da Igreja, mas que, para quem entender, verá que se trata de terrível crítica ao procedimento dos seus sacerdotes, no engodo às criaturas que freqüentam seus templos.

Dos destaques, vem a pergunta de Sophie querendo saber quem escolhera os quatro evangelhos selecionados dentre oitenta e tantos outros e o porquê da escolha. É quando ele explica que Constantino teria sido um grande negociador, embora pagão e sem crer na nova doutrina que iria instituir como sendo a religião do império romano. Por isso, fizera escolher os quatro únicos coerentes entre si, mais convenientes a tal propósito.

Mas o que teria isto com o Santo Graal?

Primeiramente, lembra ele que, para acalentar os pagãos, transferira o descanso do sabá ou sabat judeu para o dia seguinte, dito dia do Sol – domingo, em nosso idioma -, em inglês, respeitando a tradição, passou a ser “sun day” a fim de que coincidisse com o dia sagrado à divindade dos pagãos – o Sol – e acusa Constantino de ter transformado Jesus na nova figura deste “deus Sol”, o filho da Criação, o mesmo que, no hinduísmo vem a ser Krishna de cujo nome, segundo Louis Jacolliot teriam tirado o do Cristo.

Até aí, realmente, embora dissidente, contrariando a posição dos evangélicos, inclusive a dos que militam no meio espírita, o autor, personificado na fala de Teabing, ainda se conserva na prudência das suas considerações, apenas, contestando a validade sagrada dos livros bíblicos cuja origem jamais teria sido divina senão obra dos interesses de Constantino para melhor governar seus fiéis seguidores.

Depois de todas essas considerações, abre-se o capítulo seguinte, de n° 56 com a estarrecedora revelação:

O Graal é uma pessoa e não um copo.

Mas quem?

Na verdade, uma mulher.

E aí o autor descreve exatamente a fisionomia que nós, leitores estarrecidos, sem dúvida, estamos fazendo ante tal revelação, como se estivesse sendo espelhada na de Sophie, porque, de fato, ante suas palavras, quem, pela primeira vez atenta para tal observação, deve passar alguns segundos de choque antes de refletir no fato em si.

Evidentemente, como qualquer um de nós, ela cobra explicação.

– Mas que mulher?

E aí, ante a revelação, todas as tradições da Igreja vão por terra. Sendo uma alegoria considerar o graal um cálice para proteger sua verdadeira natureza e, principalmente, por causa dos princípios da Igreja, passou-se a usá-lo como metáfora para algo muito mais importante.

Ei-la, pois, ao lado de Jesus na tela da Ceia de Da Vinci.

E aí os comentários antecipando a grande revelação, que passamos a transcrever:

“O graal é literalmente o símbolo antigo da feminilidade, e o santo graal representa o sagrado feminino e a deusa, o que, naturalmente se perdeu nos dias de hoje, praticamente eliminado pela Igreja. O poder da mulher e sua capacidade de gerar vida já foi muito sagrado, mas ameaçava a ascensão da Igreja católica predominantemente masculina de forma que o sagrado feminino foi demonisado e considerado impuro. Foi o homem  não Deus, que criou o conceito de “pecado original”, mediante o qual Eva provara da maçã causando a queda da raça humana. A mulher que antes era sagrada, porque dava a vida, agora era o inimigo”.(sic)

Estas palavras do autor são essenciais para que se entenda o desfecho de toda essa história eternamente mal contada pelos evangélicos, até mesmo no meio espírita.

O autor segue em considerações pessoais com referência à Gênese adâmica e as correlações errôneas que daí surgiram para criar os dogmas cristãos.

Depois de tanta consideração, vem o ápice da história, porque, após os esclarecimentos, Sophie se confunde e comenta:

– Pensei que estava querendo dizer que o graal era uma pessoa.

– E é – responde-lhe de pronto seu interlocutor.

Mas quem seria? Indagamos nós, antes de ler o desfecho, ante a nova pergunta da observadora:

– E essa mulher é bem conhecida na História?

Como não pretendo transcrever o livro todo e como as explicações essenciais ao fato já foram aqui transcritas, entremos no mérito da questão e pasmemo-nos ante a revelação advinda de Leonardo Da Vinci:

Quem seria o Santo Graal e por que Pedro teria ficado com o cetro da Igreja?

Repetindo o que todos sabem, nesta última ceia Jesus revela que seria traído e que ali estava seu destino, findando a sua missão na Terra. Para que ela não se tornasse em vão, deixaria o cálice – no sentido figurado – da responsabilidade com aquela que era sua companheira e esposa e com a qual tivera filhos: Maria Magdalena.

A mesma que a Igreja e os Evangelhos adotados por ela transformaram em prostituta a fim de justificar a existência dos filhos que, segundo Da Vinci, na interpretação de Don Brown, seriam os verdadeiros herdeiros da grande missão do mestre, mas que, pelo machismo reinante já descrito, não se podia admitir que tal ocorresse, além de que Jesus é tido pela Igreja como sendo “puro”, um conceito biologicamente errôneo de que pureza seja sinônimo de castidade e, como tal, jamais se juntaria em união carnal com uma mulher, tida, então, pela Igreja como impura sucessora da tentação de Eva, instigada pela serpente do mal.

Pedro, então, usurpa esse direito, que também, aparece simbolizado na pintura de Da Vinci, ameaçando Maria Magdalena como um facão e tomando seu lugar perante a Igreja, o que, sem dúvida, não é nada alvissareiro para seus adeptos e que têm nele a pedra fundamental do Cristianismo.

E a pobre esposa e companheira do Mestre Jesus passou a ser considerada reles mulher da vida dissoluta, quando, na realidade, teria sido a fiel amiga de todos os momentos daquele que nos legou os maiores ensinamentos do conhecimento superior emanado de Deus.

Evidentemente, seja onde estiver a verdade, nos evangelhos deturparam tudo e ainda querem impingi-lo no meio espírita como se fora este o fundamento da obra de Kardec que, sequer, em nenhum de seus trabalhos, dá-lhe o destaque que se imporia para definir o Espiritismo como sendo mais uma seita cristã nos moldes do Novo Testamento.

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(*) Graal ou Santo Graal (O) – (Grande Enciclopédia Larousse Cultural) – Vaso que teria servido a Jesus Cristo na Ceia, e no qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue que lhe corria do flanco trespassado pelo centurião. Nos séculos XII e XIII, muitos romances de cavalaria narravam a busca do Graal pelos cavaleiros da Távola Redonda, companheiros do rei Artur. As obras mais conhecidas são as de Chrétien de Troyes, Robert de Boron e Wolfram Von Eschenbach; esta última inspirou Wagner na ópera Parsifal

 

Apresentado no dia 4/set na Sala Filosofia Espírita

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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