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O Céu e o Inferno (Capítulo II)

 

SALA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Ensaio e Crítica de Carmem Imbassahy

 

Está sendo usada no presente estudo a tradução de João Teixeira de Paula, autor do Dicionário de Termos Parapsicológicos, Metapsíquicos e Espíritas para estudo na Sala "Filosofia Espírita" do PalTalk.

Amigo particular do Dr. Imbassahy, meu sogro, e do J. B. Lino, proprietário fundador da LAKE, à época, sem dúvida, pela sua erudição e fidelidade a Kardec, seria ele, Teixeira de Paula, o melhor indicado para verter as obras do codificador.

Doutor Imbassahy e Dona Maria, minha sogra tinham-no em alta conta.



O Céu e o Inferno (ou) A Justiça Divina Segundo o Espiritismo

Exame comparado das doutrinas acerca da passagem da vida corporal è vida espiritual, das penalidades e recompensas futuras, dos anjos e demônios e das penas eternas e que mais.

Seguido de numerosos exemplos acera da situação real da alma durante a morte e depois dela.

Capítulo II - O TEMOR DA MORTE

Duzentos anos antes da codificação espírita a França, apesar da coroa, era governada praticamente pela Igreja, durante os reinados de Luís XIII e Luís IV, pois seus respectivos Primeiros Ministros eram os próprios Cardeais de França. Do primeiro, Richelieu, filho de família nobre, do duque de Plessis e que entrou para Igreja a fim de proteger os bens de herança; e, do segundo, Manzarino - que, nem francês era - seu sucessor, ambos com poderes discricionários no país de Gales.

A revolução francesa, chefiada por três facínoras, Danton, Marat e Robesbiere, derrubou este Poder; não conseguiu, contudo, extinguir a crença religiosa, motivo pelo qual imperava, pela classe intelectual, a negação absoluta das doutrinas espiritualistas e, por parte do povo, a fidelidade à Igreja e o timor domine como princípio de sabedoria.

Assim, para os religiosos predominantes, ou seja, o povo, temer a Deus era a base do respeito à Criação imposta pela religião, a fim de que sua alma fosse salva das penas eternas, contudo, ignorava-se, em verdade, o destino delas, independente do céu ou do inferno.

Quanto aos materialistas, para eles, a vida terminava ali, no momento da morte, motivo por que nada mais restava.

A primeira parte, portanto, do capítulo II - CAUSAS DO TEMOR DA MORTE - só pode ter sido inspirada nesse fato, ou seja, na concepção que tinham essas duas correntes predominantes relativamente ao destino da criatura após o término da vida corpórea.

Isto explica o que diz Kardec nos itens iniciais ao qual devemos ler.

E notemos, por excelência, que este livro não pauta pelo mesmo critério de outros em que Kardec fazia perguntas, colecionava as repostas que lhe eram enviadas de diversas fontes, dando a resposta padrão, baseada na universalidade e, na maioria das vezes, acrescida de seus comentários.

Aqui, na obra que ora estudamos, prevalece exclusivamente a opinião do codificador. A sua análise, observações próprias e comentários intimamente ligados ao momento intelectual por que passava a França. Este livro destrói, portanto, a hipótese de que o Espiritismo seja uma doutrina exclusiva dos Espíritos, como já não o era quando Kardec selecionava o material de que dispunha, oriundo de várias fontes, pois, cabia a ele a seleção das respostas, evidentemente, baseada, senão, na unanimidade, pelo menos, na grande maioria delas.

Vamos ao texto inicial.

1. O homem, seja qual for a escala social a que pertença, tem desde a selvageria o sentimento inato do futuro; diz-lhe a intuição que a morte não é a última fase da existência e que aqueles cuja perda lamentamos não estão irremissivelmente perdidos.
A crença do futuro é intuitiva e muito mais generalizada do que a do nada. Entretanto, a maior parte dos que crêem na imortalidade da alma se nos apresentam possuídos de grande amor às coisas terrenas e temerosos da morte! Por quê?

2. Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma consciência do instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto não se está suficientemente esclarecido acerca das condições da vida futura, como contrapeso à tendência que, sem esse freio nos levaria a deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento.

Assim é que, nos povos primitivos, o futuro é uma vaga intuição, mais tarde tornada simples esperança e finalmente uma certeza apenas atenuada por secreto apego à vida corporal.

Comentários:

De fato, já a Psicologia registra este sentimento inato da sobrevivência após a morte, o que faz com que os materialistas justifiquem as crenças. Segundo eles, portanto, é a necessidade de se confirmar ou afirmar a sobrevivência da alma após a dita morte. Ninguém quer se acabar, ali, no derradeiro suspiro. Contudo, o apego à vida e às coisas terrenas ainda é um fato, justamente porque as ditas crenças não conseguem imbuir na criatura humana uma compreensão da vida, dando-lhe, apenas, a opção entre as penas eternas e as bem-aventuranças celestes.

3. À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda lhe o fim calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro rumo às idéias, outro objetivo ao trabalho; antes dela nada que se não prenda ao presente, porque sabe que aquele depende da boa ou má direção deste.
A certeza de reencontrar os amigos depois da more, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-lhe incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, tanto no presente como no futuro.


4. Para libertar-se do temor da morte é mister poder encará-la no seu verdadeiro ponto de vista, isto é, ter penetrado pelo pensamento no mundo espiritual, fazendo dele uma idéia tão exata quanto possível, o que denota da parte do Espírito encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria.

No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, esteja embora na alma a vida real; aniquilado aquele, tudo se lhe afigura perdido, desesperador.

Se, ao contrário concentrarmos o pensamento não no corpo, mas na alma, fonte da vida, ser real a tudo sobrevivente, lastimaremos menos a perda do corpo, antes, fonte de misérias e dores. Para isso, porém necessita o Espírito de uma força só adquirível na maturidade.

O temor da morte decorre, portanto da noção insuficiente da vida futura, embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total; igualmente o estimula secreto anseio pela sobrevivência da alma, velado, ainda, pela incerteza.

Este temor decresce à proporção que a certeza aumenta e desaparece quando esta se completa.
Eis aí o lado providencial da questão. Ao homem não suficientemente esclarecido cuja razão mal pudesse suportar a perspectiva muito positiva e sedutora de um futuro melhor, prudente seria não o deslumbrar com essa idéia, desde que por ela pudesse negligenciar o presente, necessário ao seu adiantamento material e intelectual.

Comentários:

Aqui, a doutrina reencarnacionista se destaca como fundamento de vida, principalmente porque dá uma nova conotação do futuro, não mais estático, porém, alternativo e seqüencial.

Ainda em nossos dias, o temor da morte é um fato, provavelmente porque não há compreensão geral a respeito dessa vida futura. E as considerações, aqui, são tão claras que se torna óbvio o que o texto contém.

Eis, pois, o grande destaque de Kardec: o Espiritismo traz uma nova compreensão a respeito da vida futura.

5. Esse estado de coisas é entretido e prolongado por causas puramente humanas, que o progresso fará desaparecer. A primeira é a feição com que se insinua a vida futura, feição que poderia contentar as inteligências pouco desenvolvidas, mas que se não conseguiria satisfazer à razão esclarecida dos pensadores refletidos. Assim dizem estes: "Desde que nos apresentam como verdades absolutas princípios contestados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que eles não são verdades". Daí a incredulidade de uns e a crença dúbia de um grande número.

A vida futura é para eles uma idéia vaga, antes uma probabilidade do que certeza absoluta; acreditam, desejariam que assim posse, mas, apesar disso, exclamam: "Se, todavia assim não for? O presente é positivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro por sua vez virá".

Acrescentam depois: que é em definitivo a alma? Um ponto, um átomo, uma faísca, uma chama? Como se sente, se vê ou se percebe ela? É que a alma não lhe parece uma realidade efetiva, mas uma abstração.
Os Entes que lhes são caros, reduzidos ao estado de átomos no seu modo de pensar, estão perdidos e não têm mais a seus olhos as qualidades pelas quais se lhes fizeram amados; não podem compreender o amor de uma faísca nem o que a ela possamos ter. Quanto a si mesmos, ficam mediocremente satisfeitos coma perspectiva de se transformarem em mônadas. Justifica-se assim a preferência ao positivismo da ida terrestre, que possui alguma coisa de mais substancial.
É considerável o número daquele que são dominados por esse pensamento.

Comentários:

Parece que o tradutor - João Teixeira de Paula - procurou dar uma versão atualizada de linguagem às referências do autor, quando fala em átomo, já que na época de Kardec ainda se tinha tal conceito arraigado, referente ao termo grego - indivisível - e não ao físico atual de componente da molécula.

Não nos custa lembrar, ainda, que Sir Rutterford o idealizou após as descobertas experimentais de Joseph John Thomson (1897) relativas à existência do elétron. E quanto à mônada, é uma concepção fantasiosa de Gottfried W. Leibniz, matemático alemão que reformulou o cálculo com conceitos de infinitésimos e se deixou influenciar filosoficamente por Spinoza, mas, no caso, representa figurativamente a essência do ser divino. Não tem nada de científico e, pelo que dizem os físicos, também, nada de real. É mera fantasia, apesar de mensagens mediúnicas.

O que se percebe é que Leibnz misturou o conceito de infinitésimo, puramente matemático, com o de micro elemento fundamental da existência material, sem saber que a molécula era um emaranhado de átomos e estes, um conjunto de partículas e sub-partículas as mais elementares possíveis. Sem padrão. Não viveu para conhecer.

Cabe, ainda, lembrar que as referências de Allan Kardec ao Positivismo de Auguste Comte fizeram com que os fundadores da Federação Espírita Brasileira fossem adeptos desta doutrina segundo a qual toda atividade filosófica, como a científica, deve se basear na análise dos fatos observados experimentalmente. Depois, com a escolha do deputado Bezerra de Menezes para presidir aquela Casa, ela passou a ser docetista. Aí, o pensamento de Kardec deixou de existir.

A análise que se segue, a partir do item 6 refere-se ao apego às coisas materiais. Ainda uma vez o autor chama a atenção para o ensino religioso de sua época, embora, sem dúvida, não houvesse mais a imposição do Estado sobre a educação, contudo, a Igreja cristã influía consideravelmente na formação do adolescente. Como até hoje, mesmo, indiretamente.

Pelo que se pode depreender do texto, a formação intelectual da pessoa, provável freqüentadora do purgatório, seria a de que seus bens terrenos poderiam comprar o lugar no céu, mui evangelicamente instituído pelas bulas católicas.

Dia 23.jun.04

Resumindo o que foi dito anteriormente, a conclusão a que se pode chegar é que este livro foi escrito por Kardec visando às duas principais correntes de pensamento da sua época, ou seja, a dos intelectuais, materialistas por excelência e a do povo altamente influenciado pela Igreja.

E a doutrina espírita contraria a ambas, ou seja, nega o materialismo dos primeiros, negando a existência do Espírito e não aceita o destino que os religiosos queiram dar à alma, baseados nas palavras evangélicas, colocando-as em choque quando critica o temor propagado pelos sacerdotes cristãos.

Para prosseguirmos nos estudos da semana passada, passemos à leitura do item 6 do capítulo II:

6. Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente crêem na vida futura, é a impressão do ensino que relativamente a ela se lhes há dado desde a infância. Convenhamos que o quadro pela religião esboçado, sobre o assunto, é nada sedutor e ainda menos consolador.
De um lado,, contorções de condenados a expiarem em torturas e chamas eternas os erros de uma vida e não há para esses desgraçados sequer o lenitivo de uma esperança e, o que mais atroz é, não lhe aproveita o arrependimento; de outro lado, as almas combalidas e aflitas do purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar por elas, sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem.


As duas categorias compõem a maioria imensa da população de além túmulo. Acima delas, paira a limitada classe dos eleitos, por toda a eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade eterna, preferível, sem dúvida ao nada, não deixa de ser de uma fastidiosa monotonia. É por isso que se vê, nas figuras que retratam os bem-aventurados, figuras angélicas onde mais transparece o tédio que a verdadeira felicidade.


Este estado não satisfaz nem às aspirações nem a instintiva idéia de progresso, única que se afigura compatível com a felicidade absoluta. Custa crer que o selvagem ignorante, de senso moral obtuso, só por haver recebido o batismo esteja no mesmo nível do homem que atingiu o mais alto grau de ciência e moralidade práticas após longos anos de trabalho. Menos concebível ainda é que a criança falecida em tenra idade, antes de ter consciência de seus atos, goze dos mesmos privilégios somente por força de uma cerimônia na qual a sua vontade não tomou parte alguma. Estes raciocínios não deixam de preocupar os mais fervorosos crentes, por pouco que eles meditem.

Comentários:

De saída, neste item 6, mais uma vez encontramos uma terrível crítica à doutrina evangélica da qual serve a Igreja para pregar as bem-aventuranças eternas; evidentemente, de forma velada e sem citar os textos, ele comenta sutilmente que a moral evangélica destoa, neste ponto, das posições doutrinárias reencarnacionistas, pecando pelo absurdo de premiar os que sejam escolhidos pela crença e não pelos seus atos.

Ao caso, lembremo-nos de que, na França, a influência de outras crenças não cristãs era inteiramente desprezível, para que pudesse pesar na sua formação. Não se preocupavam, sequer, com as opiniões de seus vizinhos, quanto mais com o que ocorria em países distantes e tudo indica que Kardec, ao fazer suas análises, só se ativesse a esta condição.

Destaque-se, ainda, no texto lido a ênfase que ele dá para as despedidas na beira do túmulo, com lamentos à sorte do falecido, em perder a vida e os bens que, evidentemente, não pôde levar. E é o que ainda acontece em nossos dias. "Cerimônias lúgubres" culminando no fato de que, como afirma Paulo aos Hebreus, as almas não mais poderão ser invocadas e, como tal, os seus entes queridos ficam sem saber se irão encontrá-los após o desencarne. E que destino terão, motivo pelo qual, da mesma forma, tornam-se temerosos de que o mesmo lhes ocorra, em face do que se pareça óbvio. A lei é a mesma para os que vão e os que ficam, mas que também irão um dia, para a outra vida.

Evidentemente, em nosso meio, muitos, ainda arraigados aos princípios da Igreja, insistem em manter tais conceitos de forma indireta, motivo por que seria de suma importância que todos nós meditássemos a respeito do conteúdo deste capítulo. Só que a doutrina evangélica como é posta, não prevê o reencarnacionismo, embora muitos exegetas procurem interpretar este ou aquele versículo perdido a favor desta tese, o fato é que, os textos são favoráveis à doutrina eclesiástica da salvação pela crença e pela fé. Afinal, como o próprio Kardec comenta, para eles, o destino da alma será o céu, o inferno ou o purgatório, sem precisar que se citem tais nomes.

Sigamos com a leitura:

7. Não dependendo a felicidade futura do trabalho progressivo na Terra, a facilidade com que se acredita adquirir essa felicidade por meio de algumas práticas exteriores, a possibilidade, até, de comprar a dinheiro sem regeneração de caráter e costumes, dão aos gozos do mundo o melhor valor.
Mais de um crente considera, em seu foro íntimo, que, assegurado o seu futuro pelo preenchimento de certas fórmulas ou por dádivas póstumas, que, de nada o privam, seria supérfluo impor-se sacrifícios ou quaisquer incômodos por outrem, uma vez que se consegue a salvação trabalhando cada qual por si.
Seguramente nem todos pensam assim, havendo mesmo muitas e honrosas exceções; mas não se poderia contestar que assim pensa o maior número, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a idéia que fazem das condições de felicidade no outro mundo não entretenha o apego aos bens deste, acoroçoando o egoísmo.


8. Acrescentemos ainda a circunstância de tudo nas usanças concorrer para lamentar a vida terrestre em sua perda e temer a passagem da Terra ao céu. A morte é rodeada de cerimônias lúgubres, mais próprias a infundirem terror do que a provocarem a esperança. Se descrevem a more, é sempre com aspecto repelente e nunca como sono de transição; tos os seus emblemas lembram a destruição do corpo e o mostram hediondo e descarnado; nenhum simboliza a alma desembaraçando-se radiosa dos grilhões terrestres.
A partir para esse mundo mais feliz só se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgraça atingira os que partem; dizem-lhe eternos adeuses como se jamais devessem revê-los. Lastima-se por eles a perda dos gozos mundanos, como se não fossem encontrar maiores gozos no além-túmulo. Que desgraça, dizem, morrer tão jovem, rico e feliz, tendo a perspectiva de um futuro melhor apenas toca de leva o pensamento, por que não tem nele raízes. Tudo concorre assim para inspirar o terror da morte em vez de infundir esperança.
Sem dúvida que muito tempo será preciso para o homem se desfazer desses preconceitos, o que não quer dizer que isto não suceda, à medida que sua fé se for firmando, a ponto de conceber uma idéia mais sensata da vida espiritual.

Comentários:

Tudo indica que quase nada mudou, neste período, porque as palavras a respeito do apego às coisas terrenas fazem com que criaturas se corrompam, abusando da confiança que lhes seja dada, cometendo, até, crimes para se apossarem de bens que não vão conseguir usufruir durante uma existência.

Talvez, se a sociedade compreendesse melhor o destino das criaturas, estas pessoas tivessem como freio o respeito à vida futura, sabendo que o resgate é inevitável.

E é, justamente o que falta aos ensinamentos evangélicos: alertar para o fato de que todo ato cometido nesta vida não terá perdão senão pelo resgate dos seus atos maléficos. E que Jesus nada pode fazer contra esta lei porque é divina e ele próprio disse não viria para derrogá-las. Evidentemente, seria bem mais cômodo esperar que Jesus nos redimisse e que, assim, fiquemos impunes, do que saber que o resgate virá, pelos atos cometidos, motivo pelo qual há esta aceitação tácita da "salvação" e que, se orarmos e seguirmos em palavras, sem que nossos atos correspondam às máximas religiosas, estaríamos livres do aludido resgate.

Diz Sigmund Freud que a insistência num determinado ponto de vista que se queira fazê-lo verdadeiro, jaz na esperança de que, se a maioria se convencer disso, o fato se tornará real.

Mas Kardec, com sua sabedoria, vaticina, ao fim do item, garantindo que "muito tempo será preciso para que o homem se desfaça de tais preconceitos. E o que ainda hoje vemos é a tradição superando a razão.

Continuemos:

9.
Ademais, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao pensamento onde se tornam de alguma maneira estranha aos vivos; a própria igreja põe entre umas e outras uma barreira intransponível, declarando rotas todas as relações e impossível qualquer comunicação. Se as almas estão o inferno, perdida é toda esperança de as rever, a menos que lá se vá ter também; se estiverem entre os eleitos, vivem completamente absortas em contemplativa beatitude. Tudo isso interpõe entre mortos e vivos uma distância tamanha que fez supor eterna separação, e é por isso que muitos preferem ter junto de si, embora sofrendo, os entes caros, antes que vê-los partir ainda mesmo que para o céu.
E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo, por exemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?

RAZÃO POR QUE OS ESPÍRITAS NÃO TEMEM A MORTE

Comentários:

Aqui, Kardec é tácito, citando a Igreja e sua crença a respeito de inferno, sem meio de remissão, pelas barreiras intransponíveis lá existentes, tal é a justiça de Deus em Paulo aos romanos, cap. 2 e seqüente.

Termina Kardec, exatamente, comentando algo peculiar, ou seja, entre os mortos, aqueles que estiverem gozando a bem-aventurança dos céus, como se sentirão, ao verem seus parentes também desencarnados que não tiverem o mesmo direito e que possam estar penando as agruras eternas, ardendo na dor?

Tudo isso, de fato, cria algo insipiente para a criatura que se tem como mortal e humana, ignorando seu verdadeiro destino.

Em lugar da ressurreição pregada por Paulo na Epístola I aos Coríntios, cap. 15, onde só aquele que serviu aos seus desígnios é salvo para o reino de Deus, Kardec acena com a reencarnação para que cada qual possa se redimir de seus erros, motivo pelo qual nada dessas cenas prováveis de criaturas no Além vendo entes queridos sofrer no fogo eterno se torna verdadeira.

Dia 30.jun.2004

Depois de vermos Kardec fazer um terrível comparativo entre as duas antagônicas doutrinas de sua época - o materialismo e o cristianismo - que imperavam na França, falando do destino das almas, ambos incompatíveis com o reencarnacionismo, passemos à conclusão deste capítulo, onde o codificador dá sua posição, bem mais alentadora a respeito do destino da alma que, para os materialistas, deveria se findar com o corpo.

RAZÃO POR QUE OS ESPÍRITAS NÃO TEMEM A MORTE

10. A Doutrina Espírita muda inteiramente a maneira de se encarar o futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade; o estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergue-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da ida de além-túmulo.

Eis aí porque os espíritas encaram a morte calmamente e se revestem de serenidade nos seus últimos momentos na Terra. Já não é só a esperança, mas a certeza que nos conforta; sabem que a vida futura é a continuação da vida terrena em melhores condições e a aguardam com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem outrossim dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e a bondade de Deus, correspondendo às íntimas aspirações da Humanidade.

Para os espíritas, a alma não é uma abstração; ela tem um corpo etéreo que a define ao pensamento, o que muito é para fixar as idéias sobre a sua individualidade, aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre alguma coisa de real. Não se nos apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao pensamento, porém sob uma forma concreta que antes no-los mostra como seres viventes. Além disso, em vez de perdidos nas profundezas do Espaço, estão ao redor de nós; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações, assistindo-se mutuamente.

Não mais permissível sendo a dúvida acerca do futuro, desaparece o temor da morte; encerra-se a sua aproximação a sangue frio, como quem aguarda a liberação pela porta da vida e não pela do nada.

Comentários:

Mais explícito não poderia ser Kardec, todavia, estava entre a cruz (da Igreja) e a dita "caldeirinha" da intelectualidade.

Em seu tempo, os eruditos de Paris deixavam-se ainda influir fortemente pelas opiniões de Jean Le Rond D'Alembert, matemático e filósofo, filho natural da senhora Claudine Alexandrine Guérin de Tencin, de família ilustre que seguira a vida religiosa, mas que, por este motivo, tivera que abandoná-la, deixando o filho na Igreja de Saint Jean Le Rond para ser criado por uma família de vidraceiros.

Assim mesmo, Claudine custeou os estudos do filho, que o levou a se tornar matemático ilustre e um dos enciclopedistas famosos. Eleito para a Academia de Ciências de Paris, renegou a mãe verdadeira e julgou que o convento só lhe servira para o erro, daí ser um terrível contestador da Igreja. Pelas suas equações, negava a existência de Deus, por não encontrar "morada" para Ele, no Universo que conhecia e também alegava que a alma, como sopro divino, só podia, de fato, gerar criaturas humanas imperfeitas.

A elite da intelectualidade francesa seguia-lhe os passos a ponto de a Senhora de Staël, francesa de Paris, nascida Germaine Necker declarar que, "se tudo ocorrer como prevê D'Alembert, a Criação sem Criador, a humanidade sem destino, sem dúvida, o caos do princípio do mundo será o seu próprio fim e não o começo".

A senhora de Staël - baronesa da corte sueca por ter desposado o barão de Staël-Hostein, expulsa de seu país pelo seu relacionamento dito tempestuoso, para época, com o nosso Benjamin Constant - veio a falecer em 1817, mas era uma das participantes do grupo da casa da senhora Recamier, famosa pelos estudos correlatos com a palingênese.

Mas, a sociedade de elite francesa primava, como très chic seguir este pensador.

Pois, se, por um lado, Kardec enfrentava a sabedoria da época, em oposição ao espiritualismo reencarnacionista que ele pregava, tendo que provar as suas teses com argumentos fundamentados na razão, pelo outro, encontrava forte resistência da religião que, com os Evangelhos em punho, classificavam-no como herege, acusando-o de ser, exatamente, o Anti-Cristo anunciado pelo apóstolo Paulo em sua Epístola aos Tessalonicenses.

Sem dúvida, os comentários deste capitulo levaram em conta estes dois paradigmas de pensamento, opostos e conflitantes, ambos contrários ao Espiritismo.

Vale a pena meditarmos em tudo o que acabamos de ler e analisar.

Contudo, só há uma coisa que oferece à criatura algo mais do que o verdadeiro Espiritismo aqui contido, que é o atual movimento evangelista que invadiu nossas fronteiras, oferecendo tudo isso que Kardec mostra e mais a ajuda de Jesus, o Cristo, para nos libertar de nossos erros, sem o respectivo resgate retornando aos injustos conceitos do Cristianismo que pune os considerados hereges e premia os fiéis à sua crença sem levar em conta o mérito de cada um.

Talvez, por isso, tal movimento tenha uma aceitação bem maior, como ainda, o conhecimento do presente livro se torna desnecessário a eles.

E, então, onde estaria a justiça de Deus? E o mérito de cada um?

Certamente, na atualidade, Kardec teria sido muito mais veemente nas suas afirmações já contundentes, pois ele não podia supor que seus estudos pudessem ser acrescidos do beneplácito que se ofereceria aos fies, de juntar uma outra vida além da morte e o perdão de suas faltas pela crença em Jesus.

Dia 07.jul

No presente capítulo vamos encontrar um Kardec sóbrio, sensato, com opiniões próprias criticando as duas posições, como já dissemos, que imperavam em sua época, ou seja, a dos eruditos, materialistas, negando a existência da vida espiritual e de toda sua manifestação anímica e a religiosa, no caso, a Igreja, ainda arcaica àquela época, pregando teorias evangélicas a respeito de um paraíso celestial e de um inferno demoníaco para os considerados hereges.

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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