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O Céu e o Inferno (Capítulo I)

 

SALA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Ensaio e Crítica de Carmem Imbassahy

 

Está sendo usada no presente estudo a tradução de João Teixeira de Paula, autor do Dicionário de Termos Parapsicológicos, Metapsíquicos e Espíritas para estudo na Sala "Filosofia Espírita" do PalTalk.

Amigo particular do Dr. Imbassahy, meu sogro, e do J. B. Lino, proprietário fundador da LAKE, à época, sem dúvida, pela sua erudição e fidelidade a Kardec, seria ele, Teixeira de Paula, o melhor indicado para verter as obras do codificador.

Doutor Imbassahy e Dona Maria, minha sogra tinham-no em alta conta.



O Céu e o Inferno (ou) A Justiça Divina Segundo o Espiritismo

Exame comparado das doutrinas acerca da passagem da vida corporal è vida espiritual, das penalidades e recompensas futuras, dos anjos e demônios e das penas eternas e que mais.

Seguido de numerosos exemplos acera da situação real da alma durante a morte e depois dela.

Capítulo I - DOUTRINA - O PORVIR E O NADA

1. Vivemos, pensamos e operamos - eis o que é positivo; morremos, eis o que não é menos certo.
Mas para onde vamos ao deixar a Terra? Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser é a alternativa. Para sempre ou para nunca mais; ou tudo ou nada. Viveremos eternamente ou tudo se aniquilará de vez? É uma tese essa que se impõe.

Todo homem experimenta a necessidade de viver, gozar, amar e ser feliz. Dizei àquele que sabe que vai morrer,, que ele viverá ainda; que a sua hora é retardada; dizei-lhe sobretudo que será mais feliz do que por ventura o tenha sido e o seu coração se encherá de júbilo. Mas, de que serviriam essas aspirações de felicidade se um sopro pudesse dissipá-las?

Haverá alguma coisa mais desesperadora do que esse pensamento de destruição absoluta? Afeições caras, inteligência, progresso e saber laboriosamente adquiridos, tudo despedaçado, tudo perdido! Que necessidade haveria em nos tornarmos melhores, em nos esforçarmos para sofrer as más paixões em nos afadigarmos para nos ilustrarmos, em nos devotarmos à causa do progresso, uma vez que amanhã, segundo o nosso pensamento predominante, nada disso valesse nada? Se assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior do que a do bruto, porque este vive inteiramente do presente, na satisfação dos apetites materiais, sem aspiração para o futuro. Uma secreta intuição, porém nos diz que isso não é possível.

2. Pela crença em o nada, o homem forçosamente concentra os seus pensamentos na vida presente; logicamente não se explicaria q preocupação com um futuro que não se espera.

A preocupação exclusiva com o presente conduz o homem, antes de mais nada, a pensar em si próprio; é pois o mais poderoso estímulo ao egoísmo e o incrédulo é conseqüente quando chega à seguinte conclusão: Gozemos enquanto aqui estamos; gozemos o mais possível, uma vez que conosco tudo se acaba; gozemos depressa, porque não sabemos quanto tempo existiremos.

Ainda conseqüente é esta outra conclusão, aliás, mais grave para a sociedade: Gozemos não obstante tudo; cada um por si; a felicidade neste mundo é do mais astuto.

Se o respeito humano é um freio para determinadas pessoas, que freio haverá para aqueles que nada temem? Acreditam estas que as leis humanas não atingem senão os ineptos e assim empregam todo o seu engenho no melhor meio de se esquivarem à ação delas.
Se há doutrina insensata e anti-social, é, seguramente, o niilismo que rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade em que se fundam as relações sociais.

Comentários:

Como todo verdadeiro espírita possui a coleção de Kardec, não nos percamos em transcrever o texto do livro; apenas, analisemos os itens 1 e 2, inicialmente, quando Kardec, estudando as diversas doutrinas da sua época, faz a seguinte indagação: - Mas, para onde vamos ao deixar a Terra?

Após lermos os itens 1 e 2, o que vemos, é um comentário do autor a respeito da primeira corrente filosófica negativista que se opunha ao espiritualismo e, principalmente, aos fundamentos inconseqüentes, segundo eles, das religiões que se impunham pelo dogma sem qualquer comprovação ou garantia da verdade.

Pois, primeiramente, façamos uma análise do que seja o niilismo de que nos fala Kardec nestes primeiro capítulo.

Nasceu na Rússia, em meados do século dezenove, um movimento materialista apoiado nas teorias de Ludwig Feuerbach (lê-se foierbak), filósofo alemão que se opôs a Hegel, seu professor de Teologia, escrevendo uma terrível crítica contra ele. Rebelou-se, ainda, contra a influência eclesiástica sobre o governo da Prússia, motivo por que passou a ser um terrível crítico ao feudalismo daquele país e à sua subserviência à Igreja.

O seu carro-chefe é uma obra intitulada "A Essência do Cristianismo" (1841) onde coloca Deus como um símbolo da Criação e imaginação do homem, negando a existência espiritual do ser.

A intelectualidade russa da época, liderada por Tchernichevisky encontrava ressonância por toda Europa, entre os "eruditos" e, na França, os intelectuais, não vislumbrando amparo nem explicação plausível que justificasse a posição religiosa a respeito da existência de Deus, aderiram ao movimento intelectual conhecido como Nihilismo - do latim: nihil = nada - ou seja, além da vida material palpável nada existia.

A negação absoluta. O que os religiosos pregavam era, apenas, a necessidade da crença para que o "espírito fraco" da humanidade não esmorecesse ante os percalços da existência humana.

A influência intelectual dos nihilistas repercutia nas massas e muitos já eram os adeptos daquela corrente.

Talvez isto tenha preocupado Kardec e o levado a escrever este livro tão desconhecido no meio espírita brasileiro, com intuito de apresentar, com lógica - e fora das Escrituras Sagradas - argumentos plausíveis e capazes de explicar que, em vez do céu e do inferno prometido pelos Evangelhos, onde os ímpios seriam condenados a penas eternas do averno de Dante e os fiéis seguidores da palavra do Deus pregado pela Bíblia se consagrariam ao paraíso do infinito após a morte e onde ficariam protegidos do sofrimento, adorando a Deus, seu Criador.

E provavelmente teria sido este o motivo que o levou a escrever tal livro, deixando de lado o aspecto místico do tema, com o fito de levar aos eruditos negativistas, representantes da intelectualidade européia, uma outra mensagem relativa à existência da alma após o desligamento do corpo e que não fosse ligada a dogmas religiosos nem se prendesse às ditas Escrituras Sagradas.

Passemos, agora, ao item 3 do mesmo capítulo, onde Kardec complementa sua análise referente à posição intelectual da sua época.

3. Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, um povo adquira a certeza de que em oito dias, num mês ou num ano será aniquilado; quase nem um só indivíduo lhe sobreviverá, como de sua experiência não sobreviverá nem um pela causa do seu progresso, da sua instrução? Entregar-se-á ao trabalho para viver? Respeitará os direitos, os bens, a vida do semelhante? Submeter-se-á a qualquer lei ou autoridade por mais legítima que seja, mesmo paterna?

Haverá, para ele, nessa emergência, qualquer dever? Seguramente não. Pois bem. O que não se dá coletivamente, a doutrina do niilismo realiza todos os dias isoladamente.

Se as conseqüências não são desastrosas tanto quanto poderiam ser, é, em primeiro lugar, porque, na maioria dos incrédulos há mais de fanfarronice do que de verdadeira incredulidade, mais de dúvida do que de convicção - possuindo eles mais medo do nada do que pretendem aparentar - o qualificativo de espíritos fortes lisonjeia-lhes o amor próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria e sentem a seu pesar os ascendentes da opinião contrária, mantidos por uma força material.

Se, um dia a incredulidade da maioria fosse absoluta, a sociedade entraria em dissolução e é a isso que leva a propagação da doutrina do niilismo (1).

(1) Um moço de dezoito anos, tomado de enfermidade do coração, foi declarado incurável. A Ciência dissera: pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos, mas não irá além. Sabendo disso, o moço para logo abandonou os estudos e entregou-se a excessos de todo o gênero.

Quando lhe ponderavam o perigo de uma vida desregrada, respondia: Que importa, se não tenho mais de dois anos de vida? De que me serviria fatigar o espírito? Gozo o pouco que me resta e quero divertir-me até o fim. Eis a conseqüência lógica do niilismo. Se o moço fosse espírita, teria dito: A morte só destruirá o corpo, que deixarei como fato usado, mas o meu Espírito viverá. Serei na vida futura aquilo que eu próprio houver feito de mim nesta vida; do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais, nada perderei, porque será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda a imperfeição de que me livrar será um passo a mais para a felicidade. A minha felicidade ou infelicidade depende da utilidade ou inutilidade da presente existência. É, portanto, de meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta e evitar tudo o que possa diminuir-me as forças.
Qual das dias doutrinas é preferível?

Fossem, porém quais fossem as suas conseqüências, uma vez que se impusesse como verdadeira, seria preciso aceitá-la e nem sistemas contrários, nem a idéia dos males resultantes poderiam obstar-lhe à existência. Forçoso é dizer que, a despeito dos melhores esforços da religião, o ceticismo, a dúvida, a indiferença ganham terreno dia a dia.

Mas se a religião se mostra impotente contra a credulidade, é porque lhe falta qualquer coisa para combatê-la. Se, por outro lado a religião se condenasse à imobilidade, estaria, em dado tempo, dissolvida. O que falta a ela neste século de positivismo, em que se procura compreender antes de crer, é a sanção de suas doutrinas com os dados positivos, assim como a concordância. Dizendo ela ser branco o que os fatos dizem ser preto, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.

4. É nestas circunstâncias que o Espiritismo vem opor um dique à difusão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando visíveis e tangíveis a alma e a vida futura.

Somos livres na escolha das nossas crenças; podemos crer em alguma coisa ou em nada crer, mas aqueles que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, da juventude principalmente, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade do seu saber e no ascendente da sua posição, semeiam na sociedade germes de perturbação e dissolução incorrendo em grande responsabilidade.

5. Há uma doutrina que se defenda da pecha de materialista porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria: é a da absorção no Todo Universal.

Segundo essa doutrina, cada indivíduo assimila ao nascer uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e dá-lhe vida inteligente e sentimento. Pela morte, essa alma volta ao foco comum e perde-se no infinito como uma gota d'água no oceano.
Incontestavelmente, essa doutrina é um passo adiantado com relação ao puro materialismo, visto como admite alguma coisa, quando este nada admite. As conseqüências, porem, são exatamente as mesmas.
Ser o homem imerso em o nada ou no reservatório comum, é para ele a mesma coisa; aniquilado ou perdendo a sua individualidade, é como se não existisse; s relações sociais nem por isso deixam de romper-se e para sempre. O que lhe é essencial é a conservação do seu eu; sem este, que lhe importa ou não subsistir? O futuro afigura-se-lhe sempre nulo e a vida presente é a única coisa que o interessa e preocupa.
Sob o ponto de vista das conseqüências morais, essa doutrina é, pois, tão insensata, tão desesperadora, tão subversiva como o materialismo propriamente dito.

6. Pode-se, além disso, fazer a seguinte objeção: todas as gotas d'água tomadas ao oceano se assemelham e possuem idênticas propriedades como partes de um mesmo todo; por que pois, as almas tomadas ao grande oceano da inteligência universal tão pouco se assemelham? Por que o gênio e a estupidez, as mais sublimes virtudes e os vícios mais ignóbeis? Por que a bondade, a doçura, a mansuetude ao lado da malícia, da crueldade, da barbárie? Como podem ser tão diferentes entre si as partes de um mesmo todo homogêneo? Neste caso, donde vêm as qualidades inatas, as inteligências precoces, os bons e maus instintos independentes de toda a educação e tantas vezes em desarmonia com o meio em que se desenvolvem?

Não resta dúvida de que a educação modifica as qualidades intelectuais e morais da alma; mas aqui ocorre uma outra dificuldade: Quem dá a ela educação para fazê-la aprogredir? Outras almas que, por sua origem comum não devem ser mais adiantadas. Além disso, reentrendo a alma no Todo Universal donde saiu, e havendo progredido durante a vida, leva-lhe um elemento mais perfeito. Daí se infere que esse Todo se encontraria, pela continuação, profundamente modificado e melhorado. Assim, como se explica saírem incessantemente desse Todo almas ignorantes e perversas?

Comentário:

Veja-se que, aqui, Kardec analisava uma outra corrente também contrária à religião, que vigia na França e que tentava conciliar os princípios da vida com a existência da alma, só que, negando a Criação Divina, já que as religiões, de um modo geral, não apresentavam nenhuma prova convincente do que afirmavam: era crer para não ser considerado ímpio e condenado pelos sacerdotes da época às penas eternas prometidas pelo Evangelho aceito. Ainda, supunha, apenas, que o princípio de vida emanava de um "Todo universal" e para lá voltava, como retorno natural, após o trespasse carnal.

As referências são mínimas a respeito desta hipótese e nela nenhum filósofo de renome pontificou, motivo pelo qual não se teve nenhuma referência a seu respeito.

Muitos "intelectuais" anônimos a adotavam e davam a este "repositório universal" o poder de dotar as criaturas de seus predicados, o que, posteriormente foi usado por adversários do Espiritismo - ler o livro "À Luz da Razão" contestado pelo Dr. Imbassahy no livro "O Espiritismo à Luz dos Fatos" - para explicar certos fenômenos de natureza mediúnica que não encontravam justificativa nos conhecimentos humanos da Ciência daquela época.

Nada se sabe a respeito dessa corrente de pensadores. Apenas, que eles atribuíam ao tal repositório o manancial e conhecimentos que as criaturas mais bem dotadas teriam acesso, o que explicaria estes seus dotes paranormais.

Os padres usaram destes conceitos para contestar os fenômenos de Hydersville e todo e qualquer outro correlato com o mediunismo, onde a presença do "morto" se fazia óbvia. Alegavam que o dito "médium" teria assimilado deste "repositório" as informações ali prestadas, negando, com isso, a presença do desencarnado.

Voltemos ao item 7 deste primeiro capítulo:

7. Nessa doutrina, a fonte universal de inteligência que abastece as almas humanas é independente da Divindade; não é precisamente o panteísmo.
O panteísmo propriamente dito considera o princípio universal de vida e de inteligência como constituidor da Divindade. Deus é a um só tempo Espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da Natureza compõem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos constitutivos; Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é Deus ele próprio; nenhum ser superior e independente rege o conjunto; o Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada qual é chefe com poder absoluto.

8. A esses sistemas podem opor-se inúmeras objeções, das quais são as principais: não se podendo conceber divindades sem infinita perfeição, pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas, tendo necessidade de progredir? Devendo cada parte ser submetida à lei do progresso, forçoso é convir que o próprio Deus deve progredir; e se ele progride constantemente, deveria ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito.

Como pôde um ser imperfeito, formado de idéias e vontades tão divergentes, conceber leis tão harmônicas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e previdência como as que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram para as leis da natureza; como sucede pois que elas murmurem sem cessar contra essas leis que são obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão com a cláusula de satisfazer a razão e dar conta verdadeira senão com a cláusula de satisfazer a razão e dar conta de todos os fatos que abrange; se um só fato lhe trouxer um desmentido, é que não contém a verdade absoluta.

9. Sob o ponto de vista moral, as conseqüências são igualmente ilógicas. Em primeiro lugar é para as almas, como no sistema precedente, a absorção num todo e a perda de individualidade. Desde que se admita, conforme a opinião de alguns panteístas, que as almas conservem a individualidade, Deus deixaria de ter vontade única para ser um composto de miríades de vontades divergentes.

Além disso, sendo cada alma parte integrante da Divindade, deixa de ser dominada por um poder superior; não incorre em responsabilidade, por seus atos bons ou maus; soberana, não tendo interesse algum na prática do bem, ela pode praticar o mal impunemente.

Comentários:

Aqui, Kardec se preocupa com outra corrente de pensadores.

Embora, em se falando de Panteísmo, o primeiro nome que surge seja o de Baruc Spinoza, filósofo holandês de família lusitana, porque ele teria sido o grande pensador que desenterrou do passado tais conceitos, na verdade, ela é uma doutrina implícita no conceito dos que julgam que Deus, onipotente, seja a causa de tudo, evidentemente, incluindo os males.

Na verdade, esta é uma doutrina que pontificou na antiga civilização grega, com origem na Índia, tendo como fundamento a grandiosidade divina, identificando Deus com o mundo. É o oposto do Niilismo.

Entre os gregos, vamos encontrar os fundamentos panteístas no estoicismo e o neoplatonismo que exerceu enorme influência sobre Spinoza, para o qual Deus é a única substância, necessária, una e infinita, eterna, independente, simples e indivisível. Seus atributos são o pensamento e o entendimento onde Deus é determinado por um senso único e irrevogável. Pontifica pelo determinismo universal.

Maior exposição sobre o Panteísmo vamos encontrar no livro "...E Deus, Existe?", do Carlos.

Johann Gottlieg Fichte e Georg Willelm Friedrich Hegel pregaram-no com a configuração monoteísta, daí a grande aceitação na França e a preocupação de Kardec a seu respeito, tal a sua influência na "razão do ser", incluindo-o entre as três formas que poderiam se opor aos fundamentos espíritas reencarnacionistas e à fenomenologia mediúnica como prova da pós-existência da alma, independente do conceito panteísta, de forma pura e sutil, imortal e sobrevivente ao ato do trespasse.

Nesta análise sóbria de Kardec pode-se, perfeitamente, antever o conteúdo de análise que a obra contém.

Do item 10 em diante, os argumentos apresentados, por si só se explicam.

10. Ademais, esses sistemas não satisfazem nem à razão nem à aspiração humanas; deles decorrem dificuldades insuperáveis, pois são impotentes para resolver todas as questões de fatos que suscitam. O homem tem, pois três alternativas: o nada, a absorção ou a individualidade da alma antes da morte e depois dela.
É para esta última crença que a lógica nos impele irresistivelmente, crença que tem formado a base do todas as religiões desde que o mundo é mundo.
Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, também nos aponta outra conseqüência: o destino de cada alma deve depender das suas qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem, como a do homem perverso, estivesse no nível da do sábio, do homem de bem. Segundo os princípios de justiça, as almas devem ter a responsabilidade, preciso é que elas sejam livres na escolha do bem e do mal; sem o livre arbítrio há fatalidade e com a fatalidade não coexistiria a responsabilidade.

11. Todas as religiões admitiram igualmente o princípio da felicidade ou infelicidade da alma após a morte, ou por outra as penas e gozos futuros, que se resumem na doutrina do céu e inferno encontrada em toda parte.
No que elas diferem essencialmente e quanto à natureza dessas penas e gozos, principalmente sobre as condições determinantes de uma e de outras.
Daí os pontos de fé contrários dando origem a cultos diferentes e os deveres impostos por estes, consecutivamente, para honrar a Deus e alcançar por esse meio o céu, evitando o inferno.

12. Todas as religiões houveram de ser em sua origem relativas ao grau de adiantamento moral e intelectual dos homens; estes assaz materializados para compreenderem o mérito das coisas puramente espiritualizadas fizeram consistir a maior parte dos deveres religiosos no cumprimento de fórmulas exteriores.
Por muito tempo essas fórmulas lhes satisfizeram à razão; porém mais tarde, porque se fizesse a luz em seu Espírito, sentindo o vácuo dessas fórmulas, uma vez eu a religião não o preenchia, a abandonaram e se tornaram filósofos.

13. Se a religião apropriada, em começo, aos conhecimentos limitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais.
O homem quer saber de onde veio e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que não corresponde às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, tampouco aos dados que lhe fornece a Ciência, impondo-se-lhe a mais para atingir o seu desiderato condições cuja utilidade sua razão contesta, ele tudo rejeita; o materialismo e o panteísmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos se raciocina e se discute, falsamente embora. E há razão porque antes raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente.
Apresente-se-lhe, porém um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro íntimo, e que aceitará à falta de melhor crença.
O Espiritismo dá coisa melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida por aqueles que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos e é por isso que inutilmente o têm combatido.

14. Por instinto tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que deram causa à diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro - não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista - congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou hesitantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão.

Comentários:

A impressão que se tem é a de que Kardec, com muita cautela, procura demonstrar que o problema religioso se prende no fato de que se estabelece em dogmas que não se alteram, motivo pelo qual ele afirma sempre que o Espiritismo deva caminhar com os novos conhecimentos científicos já que a Ciência não se preocupa com os assuntos da vida psíquica.

Leiamos, pois, com atenção, o texto que se segue, porque nele é este lado religioso que merece destaque. Só que, parece que a criatura humana prefere manter suas tradições, motivo pelo qual nem sempre seguem as recomendações de Kardec e muitos são os que insistem em fincar pé nos seus preceitos arraigados pela tradição dogmatizada pela fé e pela crença, não se podemos discutir o assunto.

Leiamo-nos, pois, para encerrar o capítulo e o estudo de hoje.

O que se pode concluir, portanto, é que Kardec estava muito preocupado com a elite da cultura, porque tudo indica que ele a julgava esclarecedora de opiniões, contudo, neste primeiro capítulo, não abandona a idéia de que isto ocorria por falta de estrutura de base e de lógica nas posturas religiosas em geral. Evidentemente, dentro da França, mais propriamente dita, tida como o berço do Renascentismo.

Não se refere especificamente a nenhuma religião em si, mas, como se sabe, o predomínio na Europa era e é a das diversas seitas cristãs que seguem e têm por norma os textos evangélicos, de modo que seu principal alvo seria este. Embora, tanto nos itens 11 como no 12 ele fale de "todas as religiões", as seitas asiáticas quase nenhuma influência tinham na sociedade francesa. Se é que as conheciam.

Mas, destaque-se, com muita propriedade, o comentário no item 12 referindo-se ao dato de que todas as religiões nasceram do adiantamento moral e intelectual dos homens. Evidentemente, da sociedade que eles compunham.

Fica bem patente que o intuito do Espiritismo é o de levar novos conhecimentos aos estudiosos a fim de que eles tenham outra compreensão de Deus, porque, logo a seguir, refere-se ao fato de que, "se a religião tivesse acompanhado sempre o espírito progressivo humano não haveria incrédulos" e que, no caso, seriam os homens de letra.

Portanto, entende-se assim, que o Espiritismo nascera para dar um novo conteúdo religioso a seus seguidores, saindo dos fundamentos evangélicos que muitos insistem em impor novamente, quando diz: "O Espiritismo dá coisa melhor".

E tudo indica, portanto, que, quando Kardec escreveu o presente livro, com seus conceitos próprios, seu maior objetivo foi impor novos conceitos religiosos e novos princípios de fé. Não percamos, portanto, esta oportunidade de avançarmos com seus estudos em vez de retroagirmos para os velhos costumes.

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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