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Uma Historinha Piegas

 

 SALA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Raimundo de Moura Rêgo Filho

 

 Eu poderia começar esta história de várias maneiras... Começo-a então, parafraseando a letra de antiga canção do Roberto Carlos:

Essa é uma das muitas histórias que acontecem comigo...

E foi mesmo!

Garoto criado entre os bairros do Leme e Copacabana, no Rio de Janeiro, dava-me eu, com muita gente. Pessoas de todas as crenças, todos os aspectos.

Dois deles, entretanto, tornaram-se mais do que simples amigos, fizeram-se pessoas da família: Pedro e Antonio.

Dois irmãos, gêmeos univitelíneos, esses dois ponteavam as histórias de minha vida, em quase todas as páginas, mas como é de acontecer em tudo, um dia desapareceram, sumiram.

Eu continuei os meus dias, transformando-me do beatnik de antes no Espírita de hoje, atrás deixando a coisa material que antes era a minha praia.

Um dia, entretanto, na casa espírita em que trabalho me aparece o Antonio.

Tal como em mim, também nele o tempo mostrava sua obra. O branco dos cabelos, a forma mais tranqüila de falar etc. Era o meu mano Antonio, quanta saudade, quantas lembranças... Que cheguei a lembrar o Roberto de novo, em frase muito repetida: “Muitas emoções, bicho!” E as foram muitas, mesmo!

Desde quando me reconheceu, Antonio experimentou mudança muito acentuada. Do rosto soturno e perdido, aos olhos que cintilavam, num misto de alegria e esperança.

- Moura, Mourinha, é você?

- Sou eu mesmo Antonio, em barba, barriga e careca! Seu mano Moura Rêgo!

Após os trabalhos, reunímo-nos outra vez e então comecei a entender as modificações que notara no amigo de sempre.

- Rapaz, que coisa! Eu desapareço, ando no mundo e depois de tanto tempo a vida te coloca na minha frente... E logo agora!

Depois de algum tempo, Antonio começa a me contar sua história. Houvera rumado por todas as vielas da vida, sempre acompanhado por seu irmão Pedro, até que também se separaram, tendo Pedro viajado para fora do país.

Contou Antonio, que após algum tempo distanciado de Pedro, ele começara a ver se repetir em seu quarto, na sala, pela casa, a mesma cena, que ele associava a um comercial de TV muito veiculado naqueles dias, disse que lhe aparecia uma figura, um vulto, o qual ele não identificara, e lhe dizia: “Eu sou você amanhã”, e sumia.

- Mas quem era essa figura, Antonio?

- Cara, sei lá, nunca me disse o nome, pensei mesmo ter sido o Pedro, quando vim, a saber, de sua morte, nas Malvinas...

Meu velho amigo, segue contando do traslado e enterro do corpo de seu irmão Pedro, da condecoração recebida “post morten” por ato de bravura e instado por mim a falar mais do vulto, apenas reafirmou o de antes, como lhe aparecera, continuava, apenas um vulto, apenas uma frase: “Eu sou você amanhã”.

Como reapareceu, meu mano Antonio voltou a sumir, e os anos se passaram...

Uns seis anos mais tarde, em uma das muitas idas e vindas minhas, ao fórum do Rio de Janeiro, numa esquina sinto ser tocado, de leve, ao ombro, viro-me...

Era Antonio. Pareceu-me mais forte, mais tranqüilo, melhor em todos os sentidos. Convidei-o para uma Coca-Cola, ele sorriu aceitando, mas não a bebia...

Pediu-me que o escutasse com atenção e me relatou os seus últimos anos, mostrou-me o seu crescimento espiritual em todas as palavras. Não sei dizer, se o que eu sentia era só felicidade, ou se também, lá no fundo, era o bichinho da inveja que me mordia... Afinal, o Espírita da história era eu, lembram-se?

Pois...

Antonio tornara-se, não um Espírita de palavras, mas um Espírita de Espírito. A tudo resplandecia sua modificação.

Após uma hora de narrativa, meu bom amigo abraçando-me afetuosamente se despediu dizendo: “Mourinha, esta é a última vez que nos vamos ver”.

- Para com isso Antonio, pombas, logo agora?

- Pois é meu irmão, fomos de tudo em nossa jornada não? A tua meu amigo, prossegue, continua, para frente e para o alto, como tu me repetiste tantas vezes. A minha se encerou... Estou feliz, estou bem!

Sabe, se te digo isso é porque sei que acreditas em mim, e sabes que minha certeza é a realidade do meu hoje.

Aquela figura de antes, aquele vulto, hoje eu o conheço... E quando o vi por inteiro, pela primeira vez, soube quem era logo de cara. Ele apenas reafirmou minha certeza quando, avisando de minha partida para casa me disse:

“Eu sou você”.

 

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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