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O Tempo e o Tombo

 

 SALA FILOSOFIA ESPÍRITA

 

Raimundo de Moura Rêgo Filho

 

Seria bom que esta historinha pudesse começar com o clássico “Era uma vez”, mas não pode, é caso real, acontecido por estes dias...

Em nome da ética e da amizade, vamos modificar os nomes, local e situação, para deixar somente o exemplo que a história contém.

Em certa cidade, José e Mauro viviam. Os dois espíritas, os dois divulgadores da Doutrina Espírita...

José, dirigente espírita, com muitas atividades no movimento espírita, vivia sossegadamente, até que pela Internet, vislumbrou um novo nicho de comunicação e divulgação daquela que se tornara a fonte de seu trabalho: A divulgação da Doutrina.

Apresou-se em baixar um programa que lhe ia facilitar tal trabalho e começou sua jornada.

De outra ponta do Estado, Mauro também descobria na Internet o mesmo potencial de divulgação e esclarecimento doutrinário e também baixava o mesmo programa, para também continuar sua jornada.

Dessa forma, os dois caminhavam por estrada mesma, com o mesmo fito, com a mesma vontade, fazer crescer a informação doutrinária, de modo consistente e correto.

Nossa história começa depois de algum tempo de convívio e trabalho destes dois personagens, já com suas salas de estudos abertas, e com assistentes nelas distribuídos.

Acontece que como ninguém pensa igual, mesmo que queira igualmente algo, em matéria doutrinária a coisa segue, por vezes, rumos diferentes, uns se projetam a divulgar o cerne, a base, as obras básicas, outros, por querências e vontades próprias, se arvoram em fazer de suas pequenas verdades A Verdade, dessa maneira, pelo cinzel da palavra, esculpem suas obras diferentemente.

“O tempo não para” cantava Cazuza, e um dia, pelas ondas da Internet, os dois se encontram, sabendo um e outro do trabalho que ambos faziam, começam a se visitarem alternadamente, participando dos estudos etc.

Na sala de Mauro, impera debate livre de amarras, consciencialmente dentro do campo das idéias, rigorosamente dentro do que o codificador instituíra como razão de estudo mais eficaz, afinal, diz Herculano Pires na página “Falta de Formação Doutrinária”, “Kardec debatia com os Espíritos, tal a liberdade que estes lhe davam.” Mas o mesmo não acontecia no “Reino” de José, ali o “imperium” era o da sua palavra, ele mesmo afirmava que ali não era local de debates, de outra feita, José era partidário do pensamento de que mensagens de quaisquer Espíritos, sem o crivo do consenso dos espíritos, sem o caráter da Revelação Espírita, completassem, melhorassem e mesmo atualizassem o legado do codificador, maneira que ao entendimento de Mauro, se afastava dos ditames doutrinários, induzindo a erros de compreensão ao novato na doutrina, chegou mesmo Mauro, a ter algumas conversas com José mostrando-lhe o que compreendia ser o correto, diante da Doutrina dos Espíritos, mas José, encastelado em seus muitos serviços prestados não o ouvia. Mesmo assim, Mauro continuava a tentar, por meio de lições tiradas das obras básicas, recolocar ou ao menos tentar recolocar, o pensamento sob a égide dos ensinos validados pelo controle universal do ensino dos espíritos, conforme preceito doutrinário vigente, mas a tal ponto chegavam certas pessoas, que não querendo o estudo como forma correta de aprendizado, tornavam-se apóstolos, não de Kardec mas de José, e mesmo agrediam a pessoa daquele que se mostrasse contrário, quando ao invés daquilo poderiam trazer, sob suas palavras a fundamentação doutrinária, que lhes validasse a contradita. Talvez, acho eu, por ser mais fácil o achaque ou o acicate, do que um tempo grande de estudo é eu partissem para o “tudo ou nada” nas palavras ferinas.

Mauro tentou por mais tempo ainda, mas ao cabo de muitos meses não se viu mais capacitado a continuar em luta tão inglória, terminando por não mais participar daquelas palestras.

Não posso aquilatar se Mauro agiu correta ou erradamente ao abandonar aos erros, os que ele sabia pouco conhecer da doutrina, por outro lado, o mote que Mauro elegera como norte era o da divulgação correta da doutrina, não a tônica do estar a destoar sempre ao tentar reconduzir ao cenário de doutrina as opiniões divorciadas dela, Mauro tinha também o seu trabalho do qual não poderia se distanciar e este lhe tomava muito do pouco tempo que dispunha e se fazia importante que ele não o desconsiderasse.

Como toda história tem uma moral, esta não se furtaria a este não é mesmo?

A moral desta história é visão a que chega todo e qualquer espírita que levante alto o estandarte doutrinário, o entristecimento de ver pessoas encastelarem-se na vaidade e orgulho, deixando o campo de batalha para se homiziarem em palavras doidivanas e destituídas de conhecimento doutrinário, induzindo tantos a erros que depois de se instalarem serão tão difíceis de serem retirados. Esquecendo-se que a Lei de Causa e Efeito, não deixa de viger e age inexoravelmente para todos, que o caminho a que rumam todos os que não se consagram senão ao trabalho certo é o tombo e tombo feio, pois para o vaidoso qualquer escorregão denigre mais que a queda.

É triste, mas é a verdade que os fatos não deixam que seja escondida atrás do véu da cumplicidade...

Moral da história: Onde imperem a vaidade e o orgulho, todo o conhecimento fica deslustrado.

Por certo o Espírito Verdade asseverou: “Espíritas, amai-vos uns aos outros, este o primeiro mandamento”, mas não se esqueceu de acostar: “Instruí-vos, este o segundo.”.

 

 

 

 

Pensamento

 

O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

* * *

 

Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier

 

 

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