|
SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Raimundo
de Moura Rêgo Filho
Irmãos e irmãs, nosso
tema de hoje é política. Conversaremos sobre ele, buscando fazer crescer a
importância do conhecimento da política no seio do movimento Espírita
brasileiro, sem nos afastarmos um milímetro das proposições doutrinárias
encontradas na Codificação e em "Obras Póstumas"
Política, a palavra, tem seu berço etimológico na Grécia antiga,
traduzindo a necessidade do Estado ou cidade (polis), em ter uma ciência que
estudasse os fenômenos referentes ao Estado ou cidade. Tal ciência iria ditar o
conjunto de objetivos que viriam a nortear a condução deste Estado.
Mas o que teria em comum a política com o espiritismo? Diria eu ...
Tudo !
Vejamos: No campo do evangelho, poder-se-ia afirmar que todas as
ações e ensinamentos de Jesus, foram obras de arquitetada política. Se nos
prendermos ao conjunto de ensinamentos morais contidos no decálogo, logo
veremos que ali, bem explicados estavam os objetivos que norteariam o Homem
(espírito encarnado), na condução de suas atitudes para com o meio ambiente e
para com a sociedade, logo, tais instruções, de valor incalculável, eram e o
são, políticas de boa vontade e progresso. Tais ações, preconizadas e
exemplificadas pelo Doce Rabi, modificaram totalmente a visão, entendimento,
moral e vida de muitos que as presenciaram. Seus doze apóstolos, delegados que
eram pelo Mestre, agiam
em favor da divulgação e implantação destas políticas, por onde quer que
fossem.
Entretanto, toda política nova, que modifique tanto e tão profundamente,
o que já se achava estabelecido, gerado castas e autoridades aristocráticas,
não poderia ser bem recebida pelo poder institucionalizado. Desta forma, o
incômodo surgido, haveria de ser debelado, e rapidamente... sobrevieram as complicações,
as perseguições, e por fim, o Mestre dos mestres, por outra atitude
política, desta
feita acionada por Poncio Pilatos, ao lavar suas mãos, entregou à crucificação,
entre ladrões, o filho do homem, talvez por isso, em sua onisciência, Jesus tivesse
sentenciado os acontecimentos vindouros ao afirmar: "Não creiais que venha
trazer a união, pois que trago a desunião; não creiais que venha trazer a paz,
pois que trago a Espada".
A espada e a desunião apregoadas por Jesus em suas palavras, eram exatamente as
decorrências que adviriam da implantação de suas políticas de amor e progresso.
Eram tempos de barbárie, tempos difíceis, aqueles. Mesmo hoje, encontramos sem
muito trabalho, a mesma barbárie e ignorância, no seio de nosso planeta... e
quanto já temos caminhado meus irmãos.
O que não se pode obstar, é que estas políticas, trouxeram uma nova visão a todos
quantos as experimentaram e com o correr do progresso, haurido por elas, pelo
óbolo da reencarnação, vieram por modificar também um contingente incomensurável
de espíritos que, a cada volta ao planeta de provas e expiações, traziam
consigo mais elementos de melhoria, continuando a espalhar as políticas de
antes, agora renovadas e melhoradas, durante os périplos pelos quais passavam.
Não é sem o justo conhecimento e estudo que o filósofo Duguit afirmou:
"O homem é um animal social"; de outra feita, como a corroborarem o
pensamento de Duguit, a espiritualidade superior afirmou: "o homem é um
ser gregário", ora, este ser, que se agrega em comunidades desde os
primórdios, sempre necessitou de formas de governo que lhes provessem o
sustento, a segurança e a continuidade da espécie e durantes os milênios vem
aperfeiçoando estes sistemas sociais de acordo com o intelecto e a moral que
hajam haurido. Sofrendo por isso a ação destas normas (políticas), "ad
seculum seculorum".
Na Roma antiga, mais intelectualizada, quando do período de mudanças no
Estado, os concorrentes aos cargos se vestiam de branco para mostrarem a
limpeza de seus atributos e a altivez de seus predicados, sendo por isso
chamados de cândidos, dando origem ao conhecido vocábulo; candidato. Mas se
perdiam em meio ao orgulho e vaidade, formulando leis (políticas), que visassem
não ao bem geral e sim aos seus próprios e suspeitos desejos. Mais de mil anos
se passaram e o quadro não mudou muito, estes cancros morais, são de tal sorte,
inebriantes para alguns que se cristalizam profundamente na psique profunda e
subvertem a estada da alma em sua passagem na terra.
O professor, Hypollité Leon Denizard Rivaill, o nosso Kardec, estudou
detalhadamente o assunto e em seu livro "Obras Póstumas", acostou um
vasto material de pesquisa, que hoje é tema de estudos em toda casa espírita
séria.
O estudo que juntos faremos agora se baseia tanto nesta obra quanto em
outra de admirável valor e qualidade: "O Livro dos Espíritos".
Kardec, ao escrever sobre as aristocracias assim começava:
"aristocracia vem do grego */_aristos_/* (melhor) e */_kratos _/*(poder);
Na acepção literária significa: O Poder dos Melhores. Hão de concordar que este
significado tenha sido, muitas vezes deturpado. Vamos apreciar a influência que
o Espiritismo pode exercer sobre esta concepção e os seus resultados ..."
O mestre de Lião, tomou tais assertivas como ponto de partida e
prosseguiu seu estudo através dos tempos, para no final, deduzir do todo, suas
conseqüências.
Desde o começo dos tempos, nenhum povo ou nação desprezou chefes, mesmo
ainda no período de selvageria. Isto porque devido a diversidade de caracteres
e aptidões, havia sempre entre a raça humana, os incapazes que necessitariam de
ser dirigidos, fracos que reclamavam proteção, paixões a combater; denotando,
daí, a necessidade de uma autoridade.
Tal autoridade, no início, era mister dos chefes de família (*/_PAETER
FAMILIAE_/*), dos anciãos, dos patriarcas. Esta a primeira forma de
aristocracia. Com o crescimento das sociedades, tornou-se, em certos casos, impotente
esta expressão aristocrática, as questões entre povos vizinhos e as guerras
inerentes a tais questões, reclamavam por homens fortes e inteligentes, na
esperança de garantia contra os ataques inimigos. Surgia a aristocracia
militar. Muitos destes, porém, apossaram-se do poder, valendo-se de sua
posição. Os vencedores fizeram dos vencidos seus escravos, instituindo a
autoridade da força bruta, esta a segunda expressão aristocrática.
Com a transferência de poder aos filhos assim se perpetuava a
aristocracia, o poder e a fortuna impingiam aos fracos e pobres a autoridade
herdada e estes não ousavam resistir. Acreditavam os primeiros como herdeiros
dos direitos conquistados por seus pais.
Surgiam as primeiras divisões de classes. Originariamente a dos que dominavam
a dos que eram comandados. Eram os albôres da Aristocracia do nascimento,
que viria a se tornar tão forte e preponderante como a da Força bruta.
Ora, não podendo aquela aristocracia sustentar as classes comandadas, estas
procuraram sustento no trabalho comum, e a necessidade de alargarem seus horizontes
de trabalho, impôs-lhes as viagens por outras terras. Com estas viagens sobre
veio a maior inteligência dos fracos e pobres que em se sabendo superiores
numericamente aos da classe dominante, vieram por derrogar as leis anteriormente
feitas em favor dos interesses daqueles que os dominavam. Não estaria aí a
presença da mão da providência, pergunta Kardec.
Elevava-se o novo poder: O Poder do Ouro. Este dispunha sobre coisas e pessoas...
mas tal período encontraria seu declínio quando os herdeiros deste se mostraram
mais hábeis no gastar do que no arregimentar maiores fortunas. Conseqüentemente
nascia a nova aristocracia; a da Inteligência, diante da qual o rico não
aviltaria o pobre nem o forte ao fraco.
Neste ponto Kardec faz nova pergunta: "Seria esta a última? A maior
expressão da humanidade civilizada?" a resposta chega enfática:
"Não!" e explica, logo a seguir: "a inteligência sem o penhor da
moralidade faz com que o homem, por vezes, use mal de suas faculdades. Por
outro lado, a simples moralidade pode não ter capacidade. Sendo pois necessária
à união da inteligência e da moralidade para haver a legítima preponderância, a
que a massa se submeterá, confiada em suas luzes e justiça."
É nosso concluir, tal como o fez Kardec, que venha a ser esta, a última das
aristocracias, sinal do advento do Reino do Bem sobre a terra. Kardec concluía
que esta viria naturalmente, pela força dos acontecimentos e quando os homens
de categoria fossem tão numerosos que viessem a constituir maioria, a massa popular
lhes confiaria, então, os próprios interesses.
Neste ponto, pensamos ser necessário um mergulho nos ensinamentos encontrados
em "O Livro dos Espíritos", no capítulo VII, "Lei da
Sociedade", para que investiguemos juntos, alguns pontos.
Questão 766 - a vida social está em a sociedade?
R - "Certamente. Deus fez os homens para viver em sociedade. Não lhes
daria inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de
relação."
Nosso comentário estende-se em acordo com o expresso na resposta acima. Deus,
objetivando o bem e o Progresso da raça humana, não lhe poria nas mãos
faculdades tão importantes se não os tivesse criado para a vida em sociedade.
Sabia-o de antemão, que estas populações de almas (espíritos encarnados), haveria
de se agregarem comunidades, estas cresceriam envolvendo-se em coletividades
maiores, inter-relacionando-se socialmente e estando todas elas sob a égide da
Lei Natural, o seu progresso intelecto-moral só chegaria por meio da execução
de políticas necessárias ao desenvolvimento e adequação de tais sociedades pela
inter-relação entre massa e poder. Sendo o poder, exercido por homens de
qualidade, saber justiça e bondade, a marcha inexorável do tempo os
levaria a patamares superiores tanto materialmente quanto espiritualmente.
Esta uma das razões preponderantes da estada de Jesus entre nós; o ensino das
boas políticas, da boa Doutrina. Neste mister, a Doutrina codificada por Allan
Kardec, traz em seus ensinamentos, hauridos da espiritualidade de Escol, todo
um espectro de conhecimentos que objetivam a vida em sociedade. Não uma sociedade
sabidamente eivada dos maiores vícios, mas de uma sociedade regenerado sob a
luz do evangelho, responsável por seus próprios atos, melhorada interiormente,
efetivamente participativa no trabalho no Bem e na ajuda ao próximo, fazendo
soar em cântico exaltado as palavras do Mestre "amai-vos uns aos
outros." A sociedade dos Homens de Bem. Estes, não necessariamente seriam
espíritas, pois que em a base, toda religião é boa e tendente a levar o homem a
pórticos mais alteados, mas que se pautassem pelas mesmas ações e atitudes
exemplificadas pelo Rabi da Galiléia.
Questão 768 - procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a
um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objetivo de
ordem mais geral?
R - "O homem tem que progredir. Insulado não lhe é isso possível, por não
poder dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens.
No insulamento ele embrutece e estiola."
Meus irmãos, é necessidade primeira, é imposição da Lei do progresso a vida em
sociedade. Sem ela o homem estiola e embrutece. Neste sentido, o Espiritismo
forja homens melhorados, perseverantes no Bem.
Mas que utilidade traria a Doutrina se o uso deste saber permanecesse enclausurado
entre as paredes das Casas Espíritas? Seríamos todos nós, a meu entender,
somente um punhado de "gatos pingados", incrivelmente egoístas, que
nem mesmo levaríamos em conta as palavras do Mestre quando nos avisava:
"Daí de graça o que de graça recebeste." Estaríamos enclausurados
entre as paredes de pedra da Casa Espírita, discutindo o que somente a nós
poderia interessar como se fossemos o centro do mundo, sem a ação do trabalho,
a vontade de melhorar o todo, o globo, sem a visão de participar da verdadeira
globalização: a "Globalização Moral." Neste caso, o Espiritismo seria
Doutrina Nati-morta, árvore estéril, que
não daria bons frutos.
Todavia, quando abordamos a política como tema de debate e estudo dentro da
Casa Espírita, há que se estar com a mente aberta para os postulados morais que
serão, como sempre o foram, o divisor de águas, no rumo de uma sociedade mais
justa e igualitária. Cidadania, política e espiritismo, hão de se transformar
em dias vindouros no tríplice pedestal que suportará a base da sociedade dos
Homens de Bem
A questão 793 de "O Livro dos Espíritos",cai como luva ao
encerramento de nossa conversa de hoje...
- Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?
R- "Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Credes que estais muito
adiantados , por terdes feitos grandes descobertas e obtido maravilhosas
invenções; porque vos alojais e vestis melhor que os selvagens, todavia, não
tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados senão quando de vossa
sociedade houverdes banido os vícios que a desonrem e quando viverdes como
irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos evoluídos,
que hão percorrido a primeira fase da civilização."
Nada há se objetar na afirmativa acima, não é mesmo?
Meus amigos, quando se trata de política em moldes
espíritas, não se quer fazer da Casa Espírita local de contendas político -
partidária, nada disso, o Espírita, pelo cabedal de conhecimentos haurido tanto
de estudos como da intermediação entre os dois mundos, material e espiritual,
concentra em sua mente toda uma proposta de vida regenerada, melhorada em
moldes morais e intelectuais e estes são o alimento indispensável ao
crescimento sadio da recém - nascida sociedade justa.
Não se quer sacudir bandeirinhas ou santinhos deste ou
daquele candidato nas janelas das Casas Espíritas, quer-se antes de tudo que
este conhecimento seja utilizado em prol da melhoria do todo, que em primeiro
plano se origina em nós próprios, para depois contaminar beneficamente,
municípios, cidades, estados e País, quiçá o globo inteiro !
|