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SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Carmem
Imbassahy
Depois de apresentar seus primeiros estudos
acerca da doutrina espírita, Allan Kardec foi assolado por uma série de
pessoas, algumas para contestá-lo e outras, efetivamente, indagando-lhe a respeito
de seus novos estudos.
Não nos esqueçamos de que, apesar do seu
pseudônimo, sabia-se perfeitamente que, atrás dos estudos relativos à doutrina
dita dos Espíritos estava uma intelectualidade da metodologia do ensino em
França que revolucionara a técnica pedagógica com seus novos processos trazidos
da Escola de Pestalozzi, na Suíça, onde estudara.
Por esse motivo, Kardec resolveu escrever um
livro exclusivamente dedicado a atender às mais sérias indagações que lhe
haviam feito e que, posteriormente, classificou como sendo aquele que devesse
ser lido primeiro pelo neófito que estivesse desejoso de conhecer o
Espiritismo.
Portanto, embora não contenha os fundamentos
que encerram “O Livro dos Espíritos” esta obra, é sem dúvida, aquela que define
a linha doutrinária de toda sua codificação e que, como tal, deve servir de
esteio como definição a cerca do que, de fato, venha a ser o trabalho do
mestre.
Por isso, talvez, seja repudiado por muitos
que querem fazer do Espiritismo uma doutrina à sua moda e que chegam, até a excluir
da relação das obras básicas o nome deste livro.
Sem dúvida, é-lhes muito inconveniente que
leiam as respostas de Kardec dadas para as principais indagações que lhe foram
feitas à época e que continuam pairando entre os incipientes.
A começar pela definição apresentada, logo
no preâmbulo do livro, quando Kardec diz que pode resumir o conceito
doutrinário no seguinte conceito:
O Espiritismo é, ao mesmo tempo, Ciência
Experimental e doutrina Filosófica.
Como ciência prática tem sua essência nas
relações que se podem estabelecer com os espíritos.
Como filosofia, compreende todas as
conseqüências morais decorrentes dessas relações.
Pode ser definido assim:
O Espiritismo é uma ciência que trata da
natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corporal. (Trad. Wallace Leal V. Rodrigues).
Sem dúvida, não o classifica como sendo uma
doutrina cristã, como querem aqueles que ainda não se libertaram do ranço da
Igreja. Embora, evidentemente, tenha em Jesus o exemplo a seguir.
Talvez, até, por isso, existam traduções
facciosas que suprimam alguns pequenos tópicos das respostas de Kardec porque,
em sua clareza, ele dá ao Espiritismo uma independência absoluta com relação a
qualquer outro conceito religioso e moral existente em nossa sociedade,
chegando, mesmo, a fazer, no livro “O Céu e o Inferno” um paralelo entre a
doutrina cristã e o paganismo que imperavam em seu tempo, na sociedade
francesa, mostrando que o Espiritismo vem para suprimir as deficiências de
ambas as doutrinas. Kardec é contundente, aí.
No terceiro diálogo do livro “O Que é o
Espiritismo” (Troisiéme Entretien – Le Petre), justamente um dos mais
prejudicados por certas traduções tendenciosas, ele chega a dizer ao Padre que
esta doutrina tanto atende ao cristão como a qualquer outro religioso e a uma
pergunta deste padre: – ... se eu não tivesse religião e desejasse escolher uma
... Kardec responde: – “... A melhor, pois, de todas as religiões, é aquela que
só ensina o que está conforme a bondade de Deus e Sua Justiça, a que dele
oferece idéia maior, a mais sublime e não o rebaixa, atribuindo-lhe
mesquinharias e paixões humanas; a que torna os homens bons e virtuosos e lhes
ensina a amarem uns aos outros, como irmãos; a que condena toda a maldade
dirigida ao próximo; a que não autoriza a injustiça sob quaisquer pretextos; a
que não prescreve nada contrário às leis imutáveis da natureza, pois Deus não
se contradiz; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, caridade
e moralidade; a que mais tende a combater o egoísmo e menos a alimentar o
orgulho e a vaidade dos homens; aquela enfim em cujo meio menos mal se cometa,
pois que uma boa religião não pode ser pretexto de nenhum mal, tão pouco
deixar-lhe portas abertas, diretamente ou por interpretação. Veja, julgue e escolha”.
(Trad. Idem Wallace Leal)
Kardec poderia ter dito, sem dúvida, que era
a cristã, ou a que seguisse os evangelhos e perdeu esta excelente oportunidade
de o fazer. Por que? Se lermos com acuidade o texto em causa, a conclusão a que
chegamos é a de que – pelo contrário –, ele critica veementemente certos textos
evangélicos, quando fala a respeito de Deus e do que, evidentemente, atribuam a
Ele¸como Criador. No caso, uma crítica inespecífica aos Evangelhos, por
excelência.
E, em outro ponto, Kardec ainda esclarece ao
padre o motivo pelo qual cometeu o conceito de que “fora da caridade não há
salvação” esclarecendo textualmente que o fizera para que não se tivesse em
mente que, para os Espíritos, a salvação estivesse no Espiritismo, ou, como diz
o clero: “Fora da Igreja não há salvação”.
Um outro problema crucial que existe no meio
espírita é afirmar que este livro é anterior ao L’Evangille Selon le
Spiritisme, mas, estou aqui, diante da tradução do Wallace e deparo-me com um
texto em que, falando sobre os demônios, a reencarnação e a metempsicose,
Kardec responde ao mesmo padre que ele encontrará amplo desenvolvimento do
assunto no “Livro dos Espíritos” e em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Ora, pois, se este livro é considerado como
tendo sido escrito anteriormente ao dito ESE, como, então, poderia Kardec fazer
tal citação?
Deparo-me, nos arquivos do Dr. Imbassahy,
uma nota curiosa atribuída ao Dr. Canuto Abreu, onde se afirma que Kardec teria
feito um comentário preliminar intitulado “L’Evangille d’après le Spiritisme”,
título que consta, até, de dicionário (*), onde as críticas aos textos bíblicos
eram bem mais contundentes do que as que estão no livro “L’Evangille selon le
Spiritisme”.
Portanto, onde Kardec cita este livro (O que
é o Espiritismo) como fundamental ao estudo do principiante espírita, omitindo
o Evangelho [LM, cap. III, item 35], evidentemente, ele o faz de plena
consciência, porque, sem dúvida, os dois já coexistiam. Querem adulterá-lo e,
infelizmente, em algumas traduções, já conseguiram fazê-lo.
A verdade é que Kardec, ao analisar as
mensagens espirituais, teve o enorme cuidado de separar aquelas que traziam um
conteúdo capaz de abalar os alicerces da sociedade francesa, tanto no que tange
à corrente materialista existente como a religiosa, o que fica patente no seu
livro “O Céu e o Inferno” tentando, através da razão, levar aos materialistas a
mensagem que até então as Igrejas cristãs e as demais religiões não houveram
alcançado.
E tudo indica que é isso que querem acabar:
o Espiritismo como nova mensagem de Jesus, através da razão e dos fatos,
mostrando a realidade das vidas sucessivas como sendo o desígnio de Deus para o
progresso da humanidade.
Afinal, se for para ser mais uma corrente
evangélica como as demais, para quê teriam os Espíritos perdido tempo em
escolher Kardec e fazer dele o codificador e porta-voz de uma doutrina de reforma
individual, onde cada qual responde por seus atos perante as leis da Criação,
sem que haja outra forma de resgatar seus erros cometidos e males praticados?
Por isso é que, como Kardec afirma, o
Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino do Espírito
complementando seu pensamento fazendo com que sua definição se encerre
afirmando que também trata das relações espirituais com o mundo corporal.
Só pode se dizer espírita aquele que segue
Kardec e não o que deturpa, até mesmo em traduções, os ensinamentos do
codificador, ou que, por orientação de outras mensagens mediúnicas, siga a
mesma trilha que até então imperou sob a tutela evangélica da Igreja.
(*) Enciclopédia Larousse Cultural editada
pelo jornal O Globo
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