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SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Carmem
Imbassahy
Se há um assunto que, até hoje é motivo de
muita celeugma é a existência do inferno, que, antigamente, era considerado um
dos destinos da alma do falecido e que, atualmente, é tido como um estágio de
vida após a dita morte.
No item 3 do capítulo IV - do livro O Céu e
o Inferno - Kardec faz referência a suplícios lendários como o tonel das
Danaides, referindo-se à tarefa confiada às 50 filhas de Danão ou Danos para
encher de água, um tonel sem fundo condenadas por terem destruído, no dia do
casamento, todos os participantes, menos um, a mando do pai, sobrando
Hipermnestro para contar a história. O outro suplício é o de Ixião, rei dos
lápidas, que tentou seduzir Hera; e Zeus, para iludi-lo, criou uma nuvem com a
imagem da deusa; pois ele uniu-se à imagem gerando os centauros; por isso, foi
condenado a ficar girando eternamente numa roda de fogo. O terceiro suplício é
o de Sísifo, rei lendário de Corinto que tentou enganar os deuses, por isso,
foi condenado a empurrar uma rocha morro acima, mas, quando chegava a seu topo,
novamente ela estava no sopé da montanha, para nova subida. Como se pode ver,
condenados eternamente ao sacrifício, nos três casos.
Aqui, fazendo referência aos suplícios, eles
passaram a se constituir num só lugar e não mais apresentavam a pitoresca prova
que cada qual sofria, evidentemente, satisfazendo à imaginação criativa do
autor que idealizara a lenda. Contudo, penas eternas.
Em nosso tempo, padroniza-se o lugar dos
suplícios. Não mais se diversificam as provas.
Vê-se, pois, a lógica do raciocínio antigo,
arcaico, por conseguinte: coloca-se o céu acima da Terra, nunca nos esquecendo
de que se tinha idéia de que vivíamos num plano e que o zimbório do firmamento
seria uma abóbada como redoma, cobrindo-nos e, abaixo do pseudoplano em que
viveríamos, a parte inferior de tudo, onde, pelos vulcões, a conclusão óbvia
era de que lá estaria o reino do fogo.
Por isso, o destino dos justos seria o
“alto”, acima de tudo; e para os ímpios restaria a parte inferior que, para
eles, não era interna, pois não tinham ainda a idéia de que nosso planeta fosse
um esferóide, verdade que só surgiu a partir das grandes navegações, quando os
observadores viam o navio afastar-se e sumir no horizonte, porque este obedecia
à curvatura da Terra.
Por isso é que se passou a supor que se
descia para os infernos, mesmo na época de Jesus, como diz Kardec,
provavelmente porque tenham herdado tal conceito.
E aí surgem os diversos nomes de deuses e
demônios, de acordo com cada idioma ou, mesmo, segundo os princípios
estabelecidos. O Olimpo, numa cordilheira definida pela letra “Eta” era o monte
mais alto da Grécia onde só as cabras monteses tinham condição de acesso. Nada
mais justo do que lá colocar os deuses superiores, no caso, com Zeus presidindo
aquele reino; jamais poderiam supor que num futuro, haveria alpinistas capazes
de escalar montes mais altos e desvendar seus domínios.
O Tártaro, aqui, não se refere ao povo
asiático, da nacionalidade de Gêngis Khan, mas, o nome dado pelos gregos à prisão
com requintes de inferno para onde Zeus enviava aqueles que o ofendiam e mais
tarde passou a ter o conceito de “lugar de expiação” para onde iam os
condenados após a morte e que acabou inspirando os romanos na idéia do inferno.
E ainda seria o sobrenome de Plutão, que lá reinava.
Daí a referência textual.
Fácil é de se supor, portanto, que os
latinos tenham colocado os ângelus no céu e transformado o inferno no domínio
de satanás.
E não nos esqueçamos de que o termo latino
que veio a dar o conceito de anjo advém do grego, aggelos, ou seja, mensageiro,
o que trás as boas notícias, tendo, então, sido aproveitado para simbolizar as
criaturas representadas por meninos com asas, única forma concebível, na
mentalidade antiga, de poder alçar-se aos céus e de lá, baixar-se à Terra.
Voando, evidentemente.
E assim, mais uma figura pagã é aproveitada
para simbolizar os enviados de Deus até nós, dentro dos conceitos religiosos.
Mostra, ainda, a História, que sua origem
provém de conceitos asiáticos assimilados, através do oriente médio, pelos
gregos. Da Índia teria surgido a classificação em três classes hierárquicas e
que, no Cristianismo se transformaram em: 1 – serafins, querubins, e tronos; 2
– domínio, virtude e poder; 3 – arcanjos e anjos, finalmente. Por sinal, Louis
Jacolliot nos garante que a estruturação da Igreja se baseou nesses estudos que
teriam sido elaborados por um autor oriental chamado Vyasa.
Evidentemente, através dos tempos e sob
influência dos literatos, filósofos e pensadores de um modo geral, o que era
simples no seu conceito elementar, foi-se transformando gradativamente em
conceitos mais sofisticados até chegar ao que, hoje se tem, mesmo como
simbólico ou figurativo.
Daí, Kardec conclui que, sem dúvida, ditos
conceitos cristãos tenham se inspirado nos símbolos pagãos, pois o inferno,
para estes, teria sido o local para onde os respectivos deuses superiores das
velhas doutrinas politeístas teriam encerrado os anjos rebeldes que não queriam
se sujeitar ao domínio do deus máximo.
Eis, portanto, o conceito dos anjos decaídos
e transformados em capetas. Evidentemente, há uma seqüência evolutiva no
pensamento que gradativamente vai-se transformando até tomar determinado corpo.
Isto ocorre em tudo o que o homem concebe e, evidentemente, não mudaria na
concepção do inferno.
No item 6 que se segue Kardec pontifica
confirmando esta idéia. Leiamos, pois.
A figura de Jesus, aqui, surge como sendo o
grande enviado que, apesar do seu grau de evolução, não podia destruir, de
repente, todo um acervo conceitual enraizado em seu povo pela tradição, assim
como hoje, ainda, não nos livramos dos dogmas impostos pela Igreja, contrários
às pesquisas científicas.
Este item contraria a posição dos que tenham
Jesus como sendo o guia do planeta Terra, não só porque Kardec teria perdido a
oportunidade de constatá-lo, como ainda, a figura descrita pelo codificador é a
de um grande missionários que não tinha poder para mudar a mentalidade humana,
motivo pelo qual, sem ser omisso, não apoiou nem sancionou os preconceitos enraizados
na mentalidade do seu povo, abstendo-se, pois, de ratificá-los. Palavras de
Kardec.
Em momento nenhum, por sinal, Kardec se
refere a Jesus como sendo o nosso Guia supremo, idéia esta surgida com
Roustaing que, para justificar sua posição, imaginou-o com um corpo etérico,
improvável e contrário às leis biológicas, daí, nascendo em nosso meio tal
conceito.
Preciso como era, na sua forma de se
expressar e mestre no estudo metodológico, se concordasse com a tese do seu
advogado J. B. Roustaing, aqui seria um dos momentos certos para fazer tal
referência, por exemplo, alegando que, mesmo sendo o guia do planeta, não teria
poderes para modificar a situação. E não disse. Nem fez qualquer referência que
pudesse induzir o leitor a tal conceito. Seu pronunciamento aqui desabona tal
hipótese.
Por isso é que Kardec admite que “a nova
revelação” (sic) é que tenha vindo com esta missão, ou seja, a de pôr termo em
tais crenças, imaginárias, figurativas que o homem só criou porque não podia
conceber nada além disso, de origem transcendental, que pudesse sugerir o
castigo divino.
E a sugestão ousada que faz é a de que, como
sugere a técnica arquitetônica, para se construir algo certo é preciso demolir
o errado; no caso, seria muito mais fácil induzir novas idéias e novos
conceitos, conduzidos pela doutrina reencarnacionista àqueles que em nada
crêem, do que conseguir mudar os princípios arraigados dos que possuam uma
idéia robusta, como diz, por mais absurda que seja.
Evidentemente, se tal doutrina pagã
assimilada pelo cristianismo tivesse recebido o aval de Jesus o que se poderia
aduzir é que o Mestre não estaria à altura de sua missão, pois que estaria
calcada na fantasia pagã e não nos preceitos divinos. Mas Jesus, embora
prudente, como afirma Kardec, se, por um lado, não desmentiu, jamais deu o seu
aval a tais conceitos.
Mais uma vez, de modo indireto, Kardec
insinua que a palavra dos Evangelhos não contém o pensamento de Jesus, pelos
menos, dentro desta idéia, motivo pelo qual, justamente, o codificador do
Espiritismo não conceituou esta doutrina como sendo cristã, evangélica, no
preâmbulo do livro “O Que é o Espiritismo” onde ele define conclusivamente o
que deveria ser sua obra inspirada pelos Espíritos. Este conceito foi trazido
por Roustaing e seus seguidores, já que a obra deste causídico é, apenas, uma
interpretação de textos bíblicos dos quatro Evangelhos, ditada através de uma
só médium e sem o critério universalista aceito pelo Espiritismo.
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