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SALA
FILOSOFIA ESPÍRITA
Carmem
Imbassahy
Se há algo que eternamente perturbou a
literatura em relação a escritas estrangeiras, foi, sem dúvida, a sua tradução.
Não se pode deixar de dar razão ao dito popular italiano “tradutore, traditore”
ou seja, tradutor, traidor.
Geralmente, os que se metem à empreitada de
transcrever para seu idioma textos de outra língua, primam pelo estilo próprio
e, como tal, procuram dar às suas versões o estilo com o qual escreveriam
aquele pensamento, daí, nem sempre serem fiéis ao original. O que é uma
lástima. E, assim, nem sempre são fiéis ao pensamento do autor, isto, sem supor
que queiram adulterar seu pensamento, como ocorre com certas obras doutrinárias
onde o responsável pela tradução defende pontos de vista próprios que não podem
ser modificados, segundo eles, motivo pelo qual, até mesmo em livros de Kardec,
algumas traduções modificam e chegam a suprimir textos inteiros contrários a
seus pontos de vista.
Mas se muitos pensam que isto seja
privilégio do Espiritismo, ledo engano, porque já os povos asiáticos se
queixavam dessa mesma falha quando os anciãos pensadores de suas tradições eram
atualizados, nem sempre isto ocorria com a fidelidade do seu conteúdo e muito
pensamento de Confúcio, Lao Tséu e outros tiveram seu sentido modificado para
que a teoria governamental do país não fosse contrariada.
Na parte das Escrituras Sagradas do
Cristianismo, sabe-se que a proibição papal não permitia que os originais da
Bíblia aprovada pelo clero fosse vertida para outro idioma, motivo pelo qual se
tornava obrigatório o uso da Vulgata Latina, nome dado à tradução da Bíblia
feita por são Jerônimo, no ano de 382, por ordem do papa Damaso I (e único).
Pelo que consta, todavia, só o Velho
Testamento é que teria sido traduzido do texto hebraico primitivo, enquanto que
O Novo Testamento teria sido adaptado da Vetus Latina, trabalho organizado
pelos sábios do tempo de Constantino e que atualmente é tida como sendo uma
montagem feita dos textos originais segundo as conveniências da Igreja para que
os seus livros componentes apresentassem uma homogeneidade de conceitos, sendo
eliminados, principalmente, os Evangelhos considerados apócrifos e divergentes
dos princípios fundamentais eclesiásticos.
Por esse motivo, apenas quatro evangelhos
foram aceitos e, assim mesmo, com adulterações e enxertos, sendo rejeitados em
torno de noventa outros existentes e estudados pela elite dos sábios que
realizaram tal tarefa.
E ainda Jacolliot nos diz que eles se
basearam nas obras do Hinduísmo, escritas por Vyasa, na língua sânscrita, de
onde tiraram, não só os nomes de Jesus e Cristo (Yésu – filho da criação – e
Krishna – o guia supremo) como várias outras lendas, incluindo a da manjedoura
já que na Índia é um lugar sagrado, ideal para que nasça um enviado de Deus,
enquanto que na Palestina não passava de imundo bostal onde jamais os judeus
permitiriam que qualquer mulher fosse parir, ato sagrado para eles.
Portanto, sem dúvida, se, sequer se possa
dar crédito a textos considerados sacros, que dirá a obras comuns traduzidas de
escrituras antiqüíssimas que se perderam no tempo!?
De qualquer forma, a tradição da Igreja
mandava que se usasse como livro oficial a Bíblia de são Jerônimo, tido como
fiel aos princípios canônicos da Teologia em si.
Porém, por volta de 1514, Don Francisco
Jiménez de Cisneros, natural de Castela, e cardeal de Espanha, arcebispo de
Toledo, ao fundar a Universidad de Alcalá – Henares – ordenou que, a partir dos
textos gregos e hebreus, respectivamente, fossem feitas as referidas traduções
para o espanhol dos originais da Santa Escritura a fim de que o povo tivesse
acesso às “palavras de Deus” e que mereceu o nome de Complutensis, já que
Alcalá era conhecida como Compluto, cidade da “Hispânia tarraconense”.
Esta obra foi publicada em 1520 e não deve
ter sido bem vista pela Igreja já que entrava em choque nalguns pontos com a
obra de São Jerônimo.
Estava aberta a temporada de caça: a partir
daí outras traduções começaram a se fazer.
Tudo indica que a Igreja não teve força para
condenar a obra porque este Cardeal era um dos máximos expoentes da Igreja, com
poderes totais, na península ibérica, onde imperava, já que era confessor
particular da própria rainha Isabel, a redentora que o nomeou grão-inquisidor
da corte e regente de Castela e tinha como acervo a conversão dos mouros de
Granada ao catolicismo. Sabe-se lá como o fez, mas, o fato, é que conseguiu
transformá-los em cristãos.
Hoje em dia, cada igreja evangélica tem sua
tradução própria, pouco importando a origem e a fidelidade dos textos que são
interpretados segundo a filosofia da crença adotada pela seita, motivo pelo
qual tem-se absoluta certeza de que não sejam traduções reais, mas adaptações
vulgares das Bíblias já existentes anteriormente.
Assim também são alguns livros de Kardec traduzidos
para o nosso idioma: não passam de adaptações feitas de outras traduções, com
seus erros acrescidos da transformação de frases do novo e pseudo versor. Ou
conversor.
Mas, quem pensa que, apenas, no ocidente
ocorrem tais problemas, engana-se redondamente, porque, recentemente, a mídia
deu conta de um fato histórico onde, na China, renegando o xintoísmo, o regime
comunista resolveu “modificar” – eis a palavra certa – a doutrina antiga,
reencarnacionista, dos chins, numa obra cuja tradução se adaptasse ao sistema
socialista adotado como regime de governo para o país, instituindo, assim, a
sua provável reforma religiosa.
Para o Espiritismo, porém, felizmente, as
obras de Allan Kardec foram escritas num francês contemporâneo que qualquer
conhecedor dessa língua é capaz de traduzir e desmascarar as falsas versões, o
mesmo não acontecendo com as velhas escrituras asiáticas e os textos hebraicos
da época de Jesus, cuja transformação do idioma é notória e que, ainda por
cima, mereceu uma tradução para o grego arcaico, também considerado como texto
fundamental de origem das escrituras que acabaram se tornando o grande acervo
cristão conhecido como “palavra de Deus”.
Para felicidade dos estudiosos, a
paleontologia, por vezes, conduzida por pesquisadores neutros, tem conseguido
restabelecer a verdade a respeito das crenças antigas, mostrando que, se, por
um lado, elas se tornaram o esteio das considerações atuais, pelo outro, muita
coisa foi convenientemente adaptada para que seus textos pudessem se
transformar no pensamento da cultura contemporânea e que, sem dúvida, diverge
radicalmente das eras antepassadas da antiguidade de nossas civilizações.
A conclusão final é a de que, em busca da
verdade, devemos nos preocupar mais com as descobertas futuras do que com as
redescobertas do passado, afinal, enquanto estas remotas formas de conhecimento
foram calcadas numa cultura ainda precária de saber, o futuro nos promete novas
conquistas e novas descobertas que gradativamente irão nos dando a verdadeira
revelação do conhecimento acerca das coisas divinas.
A evolução, pois, é o futuro, enquanto que o
passado, apenas, simboliza a tradição e o exemplo do que nos deva servir de
esteio para caminharmos em busca do progresso universal do qual, embora,
menores que os grãos de areia, não deixamos de fazer parte.
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