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 Fernando A.
Moreira

“Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é
como a luz; o homem precisa habituar-se a ela pouco a pouco, do contrário
fica deslumbrado. (Allan Kardec)
Há possessos ? Existe a
possibilidade de dois Espíritos coabitarem num mesmo corpo
?
O mergulho cronológico nas obras da
Doutrina Espírita, nos leva ao seu berço, “O Livro dos Espíritos”: (1)
1857
Perg.473–Pode um Espírito tomar
temporariamente o invólucro corporal de uma pessoa viva, isto é introduzir-se
num corpo animado e obrar em lugar do outro que se acha encarnado nesse corpo
?
O Espírito não entra em um corpo
como entrais numa casa. Identifica-se com um Espírito encarnado, cujos defeitos
e qualidades sejam os mesmos que os seus, a fim de obrar conjuntamente com ele.
Mas, o encarnado é sempre quem atua, conforme quer, sobre a matéria de que se
acha revestido. Um Espírito não pode substituir-se ao que está encarnado, por
isso que este terá que permanecer ligado ao seu corpo até ao termo fixado para
sua existência material.
Kardec, retira suas conclusões,
prepara e formula a pergunta seguinte, e os Espíritos respondem:
(1)
Perg. 474_ Desde que não há
possessão propriamente dita, isto é coabitação de dois Espíritos no mesmo corpo,
pode a alma ficar na dependência de outro Espírito, de modo a se achar subjugada
ou obsidiada ao ponto de sua vontade vir a achar-se, de certa maneira,
paralisada ?
Sem dúvida e são esses os
verdadeiros possessos. Mas é preciso saibais que essa denominação não se efetua
nunca sem que aquele que sofre o consinta, que por sua fraqueza, quer por
deseja-la. Muitos epilépticos ou loucos, que mais necessitam de médico que de
exorcismos, têm sido tomados por possessos.
Os Espíritos aí, fazem uma nítida
distinção entre os verdadeiros e os falsos possessos.
Os verdadeiros são os subjugados
até ao ponto de sua vontade vir a achar-se, de certa maneira, paralisada; os
falsos são os que não correspondem aos casos de obsessão, necessitando
tratamento médico.
Comenta ainda Kardec, após a
resposta dos Espíritos:
O termo possesso só se deve
admitir como exprimindo a dependência absoluta em que uma alma pode achar-se a
Espíritos imperfeitos que a subjuguem.
1858
Se havia alguma dúvida sobre a
opinião do Codificador até aquele momento, ele a desfaz no texto da Revista
Espírita, por ele dirigida: (2)
Antigamente dava-se o nome de
possessão ao império exercido pelos maus Espíritos, quando sua influência ia até
a aberração das faculdades. Mas a ignorância e os preconceitos, muitas vezes,
tomaram como possessão, aquilo que não passava de um estado patológico. Para
nós, a possessão seria sinônimo de subjugação. Não adotamos esse termo (...)
porque ele implica igualmente a idéia de tomada de posse do corpo pelo Espírito
estranho, uma espécie de coabitação ao passo que existe apenas uma ligação. O
vocábulo subjugação da uma idéia perfeita. Assim, para nós, não há possessos, no
sentido vulgar da palavra; há simplesmente obsedados, subjugados e
fascinados.
Fica bastante claro que, para
ele, até aqui, não existia possessão.
1861
O texto acima é parecido com o
exarado no “O Livro dos Médiuns” (3), com uma diferença significativa no
parágrafo, qual seja, a troca da palavra “ligação”, por “constrangimento”.
1862
Momentaneamente, temos a
impressão de que estariam respondidas, as indagações formuladas na inicial, mas,
apesar dessas considerações, o termo possessão reaparece na Revista Espírita:
(4)
Ninguém ignora que quando o
Cristo, nosso muito amado mestre, encarnou-se na Judéia, sob os traços do
carpinteiro Jesus, aquela região havia sido invadida por legiões de maus
Espíritos que, pela possessão, como hoje, se apoderavam das classes sociais mais
ignorantes, dos Espíritos encarnados mais fracos e menos adiantados (...) é
preciso lembrar que os cientistas, os médicos do século de Augusto, trataram,
conforme os processos hipocráticos, os infelizes possessos da Palestina e que
toda sua ciência esbarrou ante esse poder desconhecido.
(Erasto)
Na mesma revista e no mesmo ano,
(5) Kardec, nos “Estudos sobre os Possessos de Morzine”, acrescenta a seguinte
consideração:
O paroxismo da subjugação é
geralmente chamado de possessão.
1863
A retomada do termo, tinha uma
razão, e Kardec é bem incisivo na sua opinião na Revista Espírita, sobre os
mesmos Possessos de Morzine, que certamente o impressionaram e influíram na
mudança de sua conceituação sobre possessão, e valeram doze citações no índice
remissivo da Revista Espírita ( 1862, 63, 64, 65 e 68), além de outros estudos,
na mesma revista, como, por exemplo, quando analisa “Um Caso de Possessão”. (6)
(7) Senão vejamos:
Temos dito que não havia
possessos, no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Voltamos a esta
asserção absoluta, porque agora nos é demostrado, que pode haver verdadeira
possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito errante a um
encarnado.(...) Não vendo senão o efeito, e não remontando à causa, eis porque
todos os obsedados, subjugados e possessos passam por loucos (...). Eis um
primeiro fato, que o prova, e apresenta o fenômeno em toda a sua
simplicidade.(...)
(O Sr. Charles) Declarou que,
querendo conversar com seu velho amigo, aproveitava o momento em que o Espírito
da Sra. A..., a sonâmbula, estava afastado do corpo, para tomar-lhe o lugar.
(....). Eis algumas de suas respostas.
- Já que tomastes posse do corpo
da Sra.A... poderieis nele ficar ?
- Não; mas vontade não me
falta.
-Por que não podeis
?
-Porque seu Espírito está sempre
ligado ao seu corpo. Ah! Se eu pudesse romper esse laço eu pregaria uma
peça.
- Que faz durante este tempo o
Espírito da Sra. A....
- Está aqui ao meu lado; olha-me
e ri, vendo-me em suas vestes.
O Sr. Charles(...) era pouco
adiantado como Espírito, mas naturalmente bom e benevolente. Apoderando-se do
corpo da Sra. A... não tinha qualquer intenção má; assim aquela Sra. nada sofria
com a situação, a que se prestava de boa vontade.
Aqui a possessão é evidente e
ressalta ainda melhor dos detalhes, que seria longo enumerar. Mas é uma
possessão inocente e sem inconvenientes.
Na mesma página, no entanto,
Kardec descreve um caso de possessão da Sra. Júlia, agora dirigida por um
Espírito malévolo e mal intencionado.
Há cerca de seis meses tornou-se
presa de crises de um caráter estranho, que sempre corriam no estado
sonambúlico, que, de certo modo, se tornara seu estado normal. Torcia-se, rolava
pelo chão, como se se debatesse, em luta com alguém que a quisesse estrangular
e, com efeito, apresentava todos os sintomas de estrangulamento.
Acabava vencendo esse ser
fantástico, tomava-o pelos cabelos, derrubava-o a supapos, com injúrias e
imprecacões, apostrofando-o incessantemente com o nome de Fredegunda, infame
regente, rainha impúdica, criatura vil e manchada por todos os crimes, etc.
Pisoteava como se acalcasse aos
pés com raiva, arrancando-lhe as vestes. Coisa bizarra, tomando-se ela própria
por Fredegunda, dando em si própria redobrados golpes nos braços, no peito, no
rosto, dizendo: “Toma! Toma! É bastante, infame Fredegunda? Queres me sufocar,
mas não o conseguirás; queres meter-se em minha caixa, mas eu te expulsarei.”
Minha caixa era o termo que se servia para designar o próprio
corpo.(...)
Um dia para livrar-se de sua
adversária, tomou de uma faca e vibrou contra si mesma, mas foi socorrida a
tempo de evitar-se um acidente.
Vemos aí, a luta de dois
Espíritos pelo mesmo corpo.
Este Espírito, Fredegunda, foi
posteriormente evocado em sessões mediúnicas e convertido ao bem.
(8)
Mas, voltando aos Possessos de
Morzine, (9) diz Kardec referindo-se ao
perispírito:
Pela natureza fluídica e
expansiva do perispírito, o Espírito atinge o indivíduo sobre o qual quer agir,
rodeia-o, envolve-o, penetra-o e o magnetiza.(...) Como se vê, isto é
inteiramente independente da faculdade mediúnica
(...)
Estes últimos, sobretudo (os
possessos do tempo de Cristo), apresentam notável analogia com os de
Morzine.
Na mesma revista e no mesmo ano,
selecionamos e pinçamos, para dimensionarmos a extensão daquela possessão
coletiva: (10)
Os primeiros casos da epidemia
de Morzine se declararam em março de 1857(...) e em 1861 atingiram o máximo de
120. (...)
(...) o caráter dominante destes
momentos terríveis é o ódio a Deus e a tudo quanto a ele se
refere.
1864
Ainda sobre a possessão da Sra.
Júlia(12), refere-se Kardec na Rev. Espírita, (11):
No artigo anterior (1863)
descrevemos a triste situação dessa moça e as circunstâncias que provavam uma
verdadeira possessão.
O grau de intensidade das
possessões e sua reatividade a tentativa de exorcização, vai bem descrita na
Revista Espírita: (12)
“ Desde que o bispo pisou em
terras de Morzine”, diz uma testemunha ocular, “sentindo que ele se aproximava,
os possessos foram tomados de convulsões as mais violentas; e, (...) soltavam
gritos e urros, que nada tinham de humano. (...)
As possessas, cerca de setenta,
com um único rapaz, juravam, rugiam, saltavam em todos os sentidos. (...) A
última resistiu a todos os esforços; vencido de fadiga e de emoção, ele (o
bispo) teve que renunciar a lhe impor as mãos; saiu da igreja trêmulo,
desequilibrado, as pernas cheias de contusões recebidas das possessas, enquanto
estas se agitavam sob suas benções.” (...)
Encontramos no “Evangelho,
Segundo o Espiritismo,(13) a seguinte referência sobre possessão e reforma
íntima:
(...) para isenta-lo da
obsessão, é preciso fortificar a alma, pelo que necessário se torna que o
obsidiado trabalhe pela sua própria melhoria, o que as mais das vezes basta para
se livrar do obsessor, sem recorrer a terceiros. O auxílio destes se faz
indispensável, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque
aí não raro o paciente perde a vontade e o livre arbítrio.
No mesmo livro, (14), há
considerações sobre as causas da possessão:
O Espírito mau, espera que o
outro, a quem ele quer mal, esteja preso ao seu corpo e assim, menos livre, para
mais facilmente o atormentar, ferir nos seus interesses, ou nas suas mais caras
afeições.
Nesse fato reside a causa da
maioria dos casos de obsessão, sobretudo dos que apresentam certa gravidade,
quais os de subjugação e possessão.
1867
Ainda na Revista Espírita, (15)
encontramos informações de como é esta perda do livre arbítrio e como
impedi-la:
Objetar-me-eis, talvez, que nos
casos de obsessão, de possessão, o aniquilamento do livre arbítrio parece ser
completo. Haveria muito a dizer sobre esta questão porque a ação aniquiladora se
faz mais sobre as forças vitais materiais do que sobre o Espírito, que pode
achar-se paralisado, dominado e impotente para resistir, mas cujo pensamento
jamais é aniquilado, como foi possível constatar em muitas ocasiões.(...)
Procedeis em relação aos
Espíritos obsessores ou inferiores que desejais moralizar (...)algumas vezes
conscientemente, quando estabeleceis, em torno deles uma toalha fluídica, que
eles não podem penetrar sem vossa permissão, e agis sobre eles pela força moral,
que não é outra coisa senão uma ação magnética
quintessenciada.
1868
Na “A Gênese”, (16) Kardec
disserta sobre domicílio Espiritual, típico caso de coabitação, ou como agora
quer Hermínio Miranda, “condomínio espiritual, com síndico e
convenção.”
Na possessão, em vez de agir
exteriormente, o Espírito atuante se substitui, por assim dizer, ao Espírito
encarnado, tomando-lhe o corpo por domicílio, sem que este, no entanto, seja
abandonado por seu dono, pois que isso só se pode dar pela morte. A possessão,
conseguintemente, é sempre temporária e intermitente, porque um Espírito
desencarnado não pode tomar definitivamente o lugar de um encarnado, pela razão
que a união molecular do perispírito e do corpo só se pode operar no momento da
concepção.
De posse momentânea do corpo do
encarnado, o Espírito serve-se dele como se seu próprio fora: fala pela sua
boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços conforme o faria se estivesse
vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala
transmitindo pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o
último que fala e obra (...)
Na obsessão há sempre um Espírito
malfeitor. Na possessão pode tratar-se de um Espírito bom que queira falar e
que, para causar maior impressão nos ouvintes, toma do corpo de um encarnado,
que voluntariamente lho empresta, como emprestaria seu fato a outro
encarnado.
Quando é mau o Espírito
possessor, (...) ele não toma moderadamente o corpo do encarnado, arrebata-o
(...)
Seguindo ainda, no mesmo livro:
Parece que ao tempo de Jesus,
eram em grande número, na Judéia, os obsidiados e os possessos (...) Sem dúvida,
os Espíritos maus haviam invadido aquele país e causado uma epidemia de
possessões. (17)
Com as curas, as libertações do
possessos figuram entre os mais numerosos atos de Jesus.(...) “Se eu expulso os
demônios pelo Espírito de Deus, é que o reino de Deus veio até vós.” (S. Mateus,
cap. XII, 22 e 23) (18)
Deduzimos com base no exposto
que, para que exista possessão, é preciso que o Espírito obsessor identifique-se
com o Espírito encarnado; aquele, atinge o indivíduo sobre o qual quer agir,
rodeia-o, envolve-o, penetra-o e o magnetiza; o aniquilamento do livre arbítrio,
parece ser completo, porque a ação aniquiladora se faz mais sobre as forças
vitais materiais do que sobre o Espírito, que pode achar-se paralisado, dominado
e impotente para resistir, mas cujo pensamento jamais é aniquilado, pois o
encarnado é que atua conforme quer, sobre a matéria de que se acha revestido e
portanto aquela dominação não se efetua nunca sem que aquele que a sofre o
consinta, quer por sua fraqueza, quer por deseja-la; em vez de agir
exteriormente ao Espírito encarnado, toma-lhe o corpo por domicílio, sem que
este, no entanto, seja abandonado por seu dono, pois isso só se pode dar pela
morte, por isso, a possessão é sempre momentânea, temporária e intermitente.
Para se libertar da possessão, é preciso fortificar a alma, pelo que necessário
se torna que o obsediado trabalhe para sua própria melhoria, estabelecendo em
torno de si, uma toalha fluídica, que eles não possam penetrar sem sua
permissão, agindo sobre eles pela força moral, por uma ação magnética
quintessenciada. Na possessão isto só é possível, com a ajuda indispensável de
terceiros.
Portanto, respondendo às
indagações iniciais deste trabalho, podemos dizer que Kardec, analisou todas as
facetas e prismas da possessão e concluiu que; existe possessão e também
coabitação.
Uma obra, como a da Codificação
Espírita, é indivisível e portanto deve ser analisada como um todo, jamais
devendo ser fragmentada ou dividida, na análise de seu conteúdo; existem vários
temas, nas obras básicas (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O
Evangelho Segundo O Espiritismo, A Gênese, O Céu e o Inferno) e na Revista
Espírita, em que as verdades foram estudadas à luz dos conhecimentos adquiridos
no dia a dia e suas opiniões, às vezes alteradas, sem que correspondessem a uma
mudança de idéia, mas sim, a uma evolução de verdade em verdade, degrau a degrau
na escada ascensional do conhecimento, como convém a um cientista sábio, astuto,
inteligente, honesto e antes de tudo, humilde, coisa rara,
aliás.
A fé raciocinada sobre a égide
desta humildade, aconselhada e praticada pelo mestre lionês, levou-o na busca
incessante da verdade, que sempre caracterizou suas ações, a correta elucidação
conceptual de possessão, incitando-nos também a libertarmo-nos de duas outras; a
dos dogmas e a do fanatismo.
Tenhamos igual têmpera e nos
deixemos contaminar pela sua lição e pelo seu exemplo; a lição inclina, o
exemplo arrasta.
BIBLIOGRAFIA
(1) KARDEC, Allan . O Livro dos Espíritos, ed.
FEB, 1987, perg. 473, pg.
250. (2) Revista Espírita ,
1858, pg. 278. (3) KARDEC, Allan . O
Livro dos Médiuns, ed. FEB,
1982 , item 240, pg. 300. (4) Revista
Espírita, 1862, pg. 109. (5) Idem , 1862, pg. 359 (6) Idem , 1863, pg.
373. (7) KARDEC, Allan .
Obsessão, ed. “O Clarim”, 1993, pg.
225. (8) Idem , pg. 229. (9) Revista Espírita, 1863 pg. 01. (10) Idem,
1863, pg. 103. (11) Idem, 1864, pg. 11. (12) Idem, 1864, pg.225. (13) KARDEC, Allan .
O Evangelho Segundo o Espiritismo, ed.
FEB, 1995, pg. 432. (14) Idem, pg. 171. (15) Revista Espírita, 1867, pg. 192. (16) KARDEC,
Allan . A Gênese, ed. FEB, 1980, pg.
306. (17) Idem, pg. 330. (18) Idem, pg. 329.
(Artigo originalmente
publicado pela Casa Editora O Clarim na
edição de setembro de 2001 da Revista Internacional de
Espiritismo)
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