REVISTA ESPÍRITA Jornal de Estudos
Psicológicos Publicada sob a direção de Allan
Kardec
novembro de 1858
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Várias vezes perguntaram-nos por que não respondemos, em
nosso jornal, aos ataques de certas folhas dirigidos contra o Espiritismo em
geral, contra seus partidários, e, algumas vezes mesmo, contra nós. Cremos que,
em certos casos, o silêncio é a melhor resposta. Aliás, há um gênero de polêmica
do qual fizemos uma lei nos abstermos, e é aquela que pode degenerar em
personalismo; não somente ela nos repugna, mas nos toma um tempo que podemos
empregar mais utilmente, e seria muito mais interessante para nossos leitores,
que assinam para se instruírem, e não para ouvirem diatribes, mais ou menos
espirituais; ora, uma vez iniciados nesse caminho, seria difícil dele sair, por
isso preferimos não entrar e pensamos que o Espiritismo, com isso, não pode
senão ganhar em dignidade. Não temos, até o presente, senão que nos aplaudir por
nossa moderação; dela não nos desviaremos, e não daremos jamais satisfação aos
amadores de escândalo.
Mas, há polêmica e polêmica; e há uma diante da qual não
recuaremos jamais, que é a discussão séria dos princípios que professamos.
Entretanto, aqui mesmo há uma distinção a fazer; se não se trata senão de
ataques gerais, dirigidos contra a Doutrina, sem outro fim determinado que o de
criticar, e da parte de pessoas que têm um propósito de rejeitar tudo o que não
compreendem, isso não merece que deles se ocupe; o terreno que o Espiritismo
ganha, cada dia, é uma resposta suficientemente peremptória, e que deve
provar-lhes que seus sarcasmos não produziram grande efeito; também notamos que
a seqüência ininterrupta de gracejos, dos quais os partidários da Doutrina eram
objeto recentemente, se apaga pouco a pouco; pergunta-se, quando se vêem tantas
pessoas eminentes adotarem essas idéias novas, se há do que se rir; alguns não
riem senão com desprezo e por hábito, muitos outros não riem mais de tudo e
esperam.
Notamos ainda que, entre os críticos, há muitas pessoas
que falam sem conhecer a coisa, sem terem se dado ao trabalho de aprofundá-la;
para responder-lhes seria preciso, sem cessar, recomeçar as explicações mais
elementares, e repetir o que escrevemos, coisa que cremos inútil. Não ocorre o
mesmo com aqueles que estudaram, e que não compreenderam tudo, aqueles que
querem seriamente se esclarecer, que levantam as objeções com conhecimento de
causa e de boa fé; sobre esse terreno aceitamos a controvérsia, sem nos gabar de
resolvermos todas as dificuldades, o que seria muita presunção. A ciência
espírita está no seu início, e ainda não nos disse todos os seus segredos, por
maravilhas que nos haja revelado. Qual é a ciência que não tem ainda fatos
misteriosos e inexplicados? Confessaremos, pois, sem nos envergonharmos, nossa
insuficiência sobre todos os pontos aos quais não nos for possível responder.
Assim, longe de repelir as objeções e as perguntas, nós as solicitamos, contanto
que não sejam ociosas e nos façam perder nosso tempo em futilidades, porque é um
meio de se esclarecer.
Aí está o que chamamos uma polêmica útil, e o será sempre
quando ocorrer entre duas pessoas sérias, que se respeitarem bastante para não
se afastarem das conveniências. Pode-se pensar diferentemente, e, com isso, não
se estimar menos. Que procuramos nós todos, em definitivo, nessa questão tão
palpitante e tão fecunda do Espiritismo? Esclarecer-nos; nós, primeiramente,
procuramos a luz, de qualquer parte que ela venha, e, se emitimos a nossa
maneira de ver, isso não é senão uma opinião individual que não pretendemos
impor a ninguém; nós a entregamos à discussão, e estamos prontos para
renunciá-la, se nos for demonstrado que estamos em erro. Essa polêmica, nós a
fazemos todos os dias em nossa Revista, pelas respostas ou refutações coletivas
que tivemos ocasião de fazer a propósito de tal ou tal artigo, e aqueles que nos
dão a honra de nos escreverem, ali encontram sempre a resposta ao que nos
perguntam, quando não nos é possível dá-la individualmente por escrito, o que o
tempo material nem sempre nos permite. Suas perguntas e suas objeções são
igualmente assuntos de estudos, que aproveitamos para nós mesmos, e os quais
ficamos felizes em fazer nossos leitores aproveitarem, tratando-os à medida que
as circunstâncias trazem os fatos que possam ter relação com eles. Igualmente
nos alegramos em dar verbalmente explicações que podem nos ser pedidas pelas
pessoas que nos honram com a sua visita, e nessas conferências, marcadas por uma
benevolência recíproca, nos esclarecemos mutuamente.
Visitante – Eu vos direi, senhor, que
minha razão se recusa a admitir a realidade dos fenômenos estranhos atribuídos
aos Espíritos e que, disso estou persuadido, não existem senão na imaginação.
Todavia, diante da evidência, seria preciso se inclinar, e é o que farei se eu
puder ter provas incontestáveis. Venho, pois, solicitar de vossa bondade a
permissão para assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser
indiscreto, a fim de me convencer, se for possível.
Allan Kardec – Desde o instante,
senhor, que vossa razão se recusa a admitir o que nós consideramos fatos
comprovados, é que vós a credes superior à de todas as pessoas que não
compartilham de vossa opinião. Eu não duvido do vosso mérito e não teria a
pretensão de colocar a minha inteligência acima da vossa. Admiti, pois, que eu
me engano, uma vez que é a razão que vos fala, e que esteja dito
tudo.
Visitante – Todavia, se vós chegásseis
a me convencer, eu que sou conhecido como um antagonista das vossas idéias, isso
seria um milagre eminentemente favorável à vossa causa.
A.K. – Eu o lamento, senhor, mas não
tenho o dom dos milagres. Pensais que uma ou duas sessões bastarão para vos
convencer? Isso seria, com efeito, um verdadeiro prodígio. Foi-me necessário
mais de um ano de trabalho para eu mesmo estar convencido, o que vos prova que,
se o sou, não o foi por leviandade. Aliás, senhor, eu não dou sessões e parece
que vos enganastes sobre o objetivo de nossas reuniões, já que nós não fazemos
experiências para satisfazer à curiosidade de quem quer que seja.
Visitante – Não desejais, pois, fazer
prosélitos?
A.K. – Por que eu desejaria fazer de
vós um prosélito se vós mesmo isso não o desejais? Eu não forço nenhuma
convicção. Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que
me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer, e um
dever, responder-lhes no limite dos meus conhecimentos. Quanto aos antagonistas
que, como vós, têm convicções firmadas, eu não faço uma tentativa para os
desviar, já que encontro bastante pessoas bem dispostas, sem perder meu tempo
com as que não o são. A convicção virá, cedo ou tarde, pela força das coisas, e
os mais incrédulos serão arrastados pela torrente. Alguns partidários a mais, ou
a menos, no momento, não pesam na balança. Por isso, não vereis jamais zangar-me
para conduzir às nossas idéias aqueles que têm tão boas razões como vós para
delas se distanciarem.
Visitante – Haveria, entretanto, no
meu convencimento mais interesse do que vós o credes. Quereis me permitir
explicar-me com franqueza e me prometer não vos ofender com minhas palavras? São
minhas idéias sobre o assunto e não sobre a pessoa à qual me dirijo; posso
respeitar a pessoa sem partilhar sua opinião.
A.K. – O Espiritismo me ensinou a dar pouco valor
às mesquinhas suscetibilidades do amor próprio, e a não me ofender com palavras.
Se vossas palavras saírem dos limites da urbanidade e das conveniências,
concluirei, com isso, que sois um homem mal educado, eis tudo. Quanto a mim,
prefiro deixar aos outros os erros, ao invés de os partilhar. Vedes, só por
isso, que o Espiritismo serve para alguma coisa.
Eu vos disse, senhor, não me empenho de nenhum
modo em vos fazer partilhar minha opinião; respeito a vossa, se ela é sincera,
como desejo que se respeite a minha. Uma vez que tratais o Espiritismo como um
sonho quimérico, vindo para mim, dizíeis a vós mesmo: eu vou ver um louco.
Confessai-o, francamente, isso não me melindrará. Todos os espíritas são loucos,
é coisa convencionada. Pois bem, senhor, uma vez que olhais isso como uma doença
mental, sentiria escrúpulo em vô-la comunicar, e eu me espanto que com um tal
pensamento vós procureis adquirir uma convicção que vos colocará entre os
loucos. Se estais antecipadamente persuadido de não poder ser convencido, vossa
tentativa é inútil, porque não tem por objetivo senão a curiosidade. Abreviemos,
pois, eu vos rogo, porque eu não teria tempo a perder em conversas sem
objetivo.
Visitante – Podemos nos enganar, iludir-nos, sem
por isso ser louco.
A.K. – Falai claramente: dizeis, como tantos
outros, que é um capricho que tem seu tempo; mas convireis que um capricho que
em alguns anos ganhou milhões de partidários em todos os países, que conta com
sábios de todas as ordens, que se propaga de preferência nas classes
esclarecidas, é uma singular mania que merece algum exame.
Visitante – Eu tenho minhas idéias sobre esse
assunto, é verdade. Elas, porém, não são tão absolutas que eu não consinta
sacrificá-las à evidência. Eu vos disse, pois, senhor, que tendes um certo
interesse em me convencer. Eu vos confessarei que devo publicar um livro onde me
proponho demonstrar ex-professo (sic) o que eu vejo como um erro, e como
esse livro deve ter um grande alcance e atacar vivamente os Espíritos, se eu
chegar a ser convencido, não o publicarei.
A.K. – Eu ficaria desolado, senhor, por vos
privar do benefício de um livro que deve ter um grande alcance. Eu não tenho, de
resto, nenhum interesse em vos impedir de fazê-lo, mas lhe desejo, ao contrário,
uma grande popularidade, já que isso nos servirá de prospectos e de anúncios.
Quando uma coisa é atacada, isso desperta a atenção; há muitas pessoas que
querem ver os prós e os contras, e a crítica a faz conhecida daqueles mesmos que
dela não sonhavam. É assim que a publicidade, freqüentemente, sem o querer,
aproveita àqueles aos quais se quer prejudicar. A questão dos Espíritos, aliás,
é tão palpitante de interesse e ela espicaça a curiosidade a um tal ponto, que
basta mencioná-la à atenção para dar o desejo de aprofundá-la. (1)
(1) Depois deste diálogo, escrito em 1859, a
experiência veio demonstrar largamente a justeza desta
proposição.
Visitante – Então, segundo vós, a crítica não
serve para nada, a opinião pública não conta para nada?
A. K. – Eu não considero a crítica como a
expressão da opinião pública, mas como uma opinião individual que pode se
enganar. Lede a História e vereis quantas obras-primas foram criticadas quando
apareceram, o que não as impediu de permanecerem obras-primas. Quando uma coisa
é má, todos os elogios possíveis não a tornarão boa. Se o Espiritismo é um
erro, ele cairá por si mesmo;se é uma verdade, todas as diatribes não
farão dele uma mentira. Vosso livro será uma apreciação pessoal sob o vosso
ponto de vista; a verdadeira opinião pública julgará se é correta. Por isso,
quererão ver e se, mais tarde, for reconhecido que vos enganastes, vosso livro
será ridículo como aquele que se publicou recentemente contra a teoria da
circulação do sangue, da vacina, etc.
Mas esqueci que vós deveis tratar a questão
ex-professo, o que quer dizer que a haveis estudado sob todas as faces,
que haveis visto tudo o que se poder ver, tudo o que se escreveu sobre a
matéria, analisado e comparado as diversas opiniões; que vos encontrastes nas
melhores condições para observar por vós mesmo; que vós lhe consagrastes vossas
vigílias, durante anos; em uma palavra, que não negligenciastes em nada para
atingir a constatação da verdade. Eu devo crer que assim o é, se sois um homem
sério, porque só aquele que fez tudo isso, tem o direito de dizer que fala com
conhecimento de causa.
Que pensaríeis de um homem que se erigisse em
censor de uma obra literária sem conhecer literatura? De um quadro sem ter
estudado pintura? É de uma lógica elementar que o crítico deva conhecer, não
superficialmente, mas a fundo, aquilo de que fala, sem o que sua opinião não tem
valor. Para combater um cálculo, é preciso opor-lhe outro cálculo mas, para
isso, é preciso saber calcular. O crítico não deve se limitar a dizer que tal
coisa é boa ou má; é preciso que ele justifique sua opinião por uma demonstração
clara e categórica, baseada sobre os próprios princípios da arte ou da ciência.
Como poderá fazê-lo se ignora esses princípios? Poderíeis apreciar as qualidades
ou os defeitos de uma máquina se vós não conheceis a mecânica? Não, pois bem!
vosso julgamento sobre o Espiritismo, que não conheceis, não teria mais valor do
que o que faríeis sobre essa máquina. Seríeis a cada instante preso em flagrante
delito de ignorância, porque aqueles que o estudaram, verão, conseqüentemente,
que estais fora da questão; de onde se concluirá ou que não sois um homem sério
ou que não sois de boa fé; em um e outro caso vos exporeis a receber desmentidos
pouco lisonjeiros para vosso amor-próprio.
Visitante – É precisamente para evitar esse
escolho que vim vos pedir permissão para assistir a algumas
experiências.
A.K. – E pensais que isso vos bastaria para falar
do Espiritismo ex-professo? Mas como poderíeis compreender essas
experiências, e com mais forte razão julgá-las, se não haveis estudado os
princípios que lhes servem de base? Como poderíeis apreciar o resultado,
satisfatório ou não, de experiências metalúrgicas, por exemplo, se não conheceis
a fundo a metalurgia? Permiti-me dizer-vos, senhor, que vosso projeto é
absolutamente como se, não sabendo nem matemática, nem astronomia, fosseis dizer
a um desses senhores do Observatório: Senhor, eu quero escrever um livro sobre
astronomia, e além disso provar que vosso sistema é falso; mas como disso eu não
sei nem a primeira palavra, deixai-me olhar uma ou duas vezes através de vossas
lunetas. Isso me bastará para conhecê-la tanto quanto vós.
Não é senão por extensão que a palavra
criticar é sinônimo de censurar. Em seu significado próprio, e
segundo sua etmologia, ela significa julgar, apreciar. A crítica pode,
pois, ser aproveitada ou desaproveitada. Fazer crítica de um livro não é
necessariamente condená-lo. Aquele que empreende essa tarefa deve fazê-la sem
idéias preconcebidas. Mas, se antes de abrir o livro já o condenou em seu
pensamento, seu exame não pode ser imparcial.
Tal é o caso da maioria daqueles que têm falado
do Espiritismo. Apenas sobre o nome formaram uma opinião e fizeram como um juiz
que pronunciou uma sentença sem se dar ao trabalho de examinar o processo. Disso
resultou que seu julgamento ficou sem razão e, ao invés de persuadir, provocou
riso. Quanto àqueles que estudaram seriamente a questão, a maioria mudou de
opinião e mais de um adversário dela tornou-se partidário, quando viu que se
tratava de coisa diversa daquela em que ele acreditava.
Visitante – Falais do exame dos livros em geral.
Credes que seja materialmente possível a um jornalista, ler e estudar todos os
que lhe passam pelas mãos, sobretudo quando se trata de teorias novas que lhe
seria preciso aprofundar e verificar? Igualmente exigirias de um impressor que
lesse todas as obras que saem das suas impressoras.
A.K. – A um raciocínio tão judicioso eu não tenho
nada a responder, senão que, quando não se tem tempo de fazer conscientemente
uma coisa, não se deve envolver-se com ela, e que é melhor não fazer senão uma
coisa bem, do que fazer dez mal.
Visitante – Não creais, senhor, que minha opinião
esteja formada levianamente. Eu vi mesas girarem e baterem; pessoas que estavam
supostamente escrevendo sob a influência de Espíritos; mas eu estou convencido
de que havia charlatanismo.
A.K. – Quanto pagastes para ver isso?
Visitante – Nada, seguramente.
A.K. – Então eis charlatães de uma espécie
singular, e que vão reabilitar a palavra. Até o presente não se viu ainda
charlatães desinteressados. Se algum brincalhão maldoso quis se divertir uma vez
por acaso, segue-se que as outras pessoas sejam cúmplices da fraude? Aliás, com
que objetivo se tornariam cúmplices de uma mistificação? Para divertir a
sociedade, direis. Eu aceito que uma vez alguém se preste a um gracejo; mas
quando um gracejo dura meses e anos, é, eu creio, o mistificador que está
mistificado. É provável que, pelo único prazer de fazer crer em uma coisa que se
sabe ser falsa, espera-se aborrecidamente horas inteiras sobre uma mesa? O
prazer não valeria o trabalho.
Antes de concluir pela fraude é preciso primeiro
se perguntar qual interesse se pode ter em enganar; ora, concordareis que há
posições que excluem toda suspeita de fraude; pessoas das quais só o caráter é
uma garantia de probidade.
Outra coisa seria se se tratasse de uma
especulação, porque a atração do lucro é uma péssima conselheira. Mas,
admitindo-se mesmo que, neste último caso, um fato de manobra fraudulenta seja
positivamente constatado, isso não provaria nada contra a realidade do
princípio, já que se pode abusar de tudo. Do fato de que há pessoas que vendem
vinhos adulterados, não se segue daí que não haveria vinho puro. O Espiritismo
não é mais responsável pelos que abusam desse nome e o exploram, do que a
ciência médica não o é pelos charlatães que vendem suas drogas, nem a religião
pelos sacerdotes que abusam do seu ministério.
O Espiritismo, pela sua novidade e pela sua
própria natureza, devia prestar-se a abuso; mas ele dá os meios de os
reconhecer, definindo claramente seu verdadeiro caráter e recusando qualquer
solidariedade com aqueles que o exploram ou o desviam de seu objetivo
exclusivamente moral para fazer dele um ofício, um instrumento de adivinhação ou
de procuras fúteis.
Desde que o próprio Espiritismo traça os limites
nos quais ele se contém, precisa o que ele diz e o que não diz, o que ele pode e
o que não pode, o que está ou não está em suas atribuições, o que ele aceita e o
que repudia, o erro está naqueles que, não se dando ao trabalho de o estudar,
julgam-no sobre as aparências; que, porque encontram saltimbancos usando o nome
de Espíritas, para atrair os que passam, dirão gravemente: Eis o que é o
Espiritismo. Sobre o que, em definitivo, recai o ridículo? Não é sobre o
saltimbanco que faz o seu trabalho, nem sobre o Espiritismo cuja doutrina
escrita desmente semelhantes assertivas, mas sobre os críticos convictos de
falarem daquilo que não sabem, ou de alterarem conscientemente a verdade.
Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que está contra sua própria essência, o
fazem, ou por ignorância ou deliberadamente. No primeiro caso é por leviandade,
no segundo é por má fé. Neste último caso, eles se assemelham a certos
historiadores que alteram os fatos históricos no interesse de um partido ou de
uma opinião. Um partido se desacredita sempre pelo emprego de semelhantes meios,
e falta ao seu objetivo.
Notai bem, senhor, que eu não pretendo que a
crítica deva necessariamente aprovar nossas idéias, mesmo depois de as ter
estudado; não censuramos de modo algum aqueles que não pensam como nós. O que é
evidente para nós, pode não o ser para todo o mundo. Cada um julga as coisas
pelo seu ponto de vista, e do fato mais positivo todo o mundo não tira as mesmas
conseqüências. Se um pintor, por exemplo, coloca em seu quadro um cavalo branco,
qualquer um poderá dizer que esse cavalo faz um mau efeito e que um preto
conviria melhor: mas seu erro será dizer que o cavalo é branco se ele é preto. É
o que faz a maioria dos nossos adversários.
Em resumo, senhor, cada um é perfeitamente livre
para aprovar ou criticar os princípios do Espiritismo, para deduzir deles tais
conseqüências boas ou más, como lhe agrade, mas a consciência impõe um dever a
todo crítico sério de não dizer ao contrário do que é; ora, por isso, a primeira
condição é de não falar daquilo que não se sabe.
Visitante – Retornemos, eu vos peço, às mesas
moventes e falantes. Não poderia ocorrer que elas estivessem
preparadas?
A.K. – É sempre a questão da boa fé à qual já
respondi. Quando a fraude estiver provada eu vô-la entrego; se vós assinalardes
fatos confirmados de fraude, de charlatanismo, de exploração, ou de abuso
de confiança, eu os entrego à vossa fustigação, vos declarando de antemão que
não lhes tomarei a defesa, porque, o Espiritismo sério é o primeiro a
repudiá-los, e mencionar os abusos é ajudar a preveni-los e prestar-lhe serviço.
Mas generalizar essas acusações, derramar sobre uma massa de pessoas honradas a
reprovação que merecem alguns indivíduos isolados, é um abuso de um outro
gênero: o da calúnia.
Admitindo, como vós o dizeis, que as mesas
estivessem preparadas, seria preciso um mecanismo bem engenhoso para fazer
executar movimentos e ruídos tão variados. Como não se conhece, ainda, o nome do
hábil fabricante que as confecciona? No entanto, ele deveria ter uma enorme
celebridade, uma vez que seus aparelhos estão espalhados nas cinco partes do
mundo. É preciso convir, também, que seu procedimento é bem sutil, uma vez que
se pode adaptar à primeira mesa encontrada, sem nenhum sinal exterior. Por que
desde Tertuliano que, ele também, falou das mesas girantes e falantes, até o
presente ninguém pôde ver o mecanismo, nem descrevê-lo?
Visitante – Eis o que vos engana. Um célebre
cirurgião reconheceu que certas pessoas podem, pela contração de um músculo da
perna, produzir um ruído parecido com o que vós atribuís à mesa, de onde ele
concluiu que vossos médiuns se divertem às custas da credulidade.
A.K. – Então, se é um estalido do músculo, não é
a mesa que está preparada. Uma vez que cada um explica essa pretendida fraude à
sua maneira, isso é prova, a mais evidente, de que nem uns nem outros conhecem a
verdadeira causa.
Eu respeito a ciência desse sábio cirurgião,
somente que surgem algumas dificuldades na aplicação dos fatos que ele assinala
às mesas falantes. A primeira, que é singular que essa faculdade, até o presente
excepcional, e olhada como um caso patológico, tenha de repente se tornado tão
comum. A segunda, que é preciso ter uma bem robusta vontade de mistificar para
fazer estalar seu músculo durante duas ou três horas seguidas, quando isso não
produz nada além da fadiga e da dor. A terceira é que não entendo como esse
músculo se corresponde com as portas e paredes nas quais as pancadas se fazem
ouvir. A quarta, enfim, que é preciso a esse músculo estalante uma propriedade
bem maravilhosa, para fazer mover uma pesada mesa, levantá-la, abri-la,
fechá-la, mantê-la suspensa sem ponto de apoio e, finalmente, quebrá-la na
queda. Não se desconfiava que esse músculo tivesse tanta virtude. (Revista
Espírita, junho de 1859, página 141: O músculo estalador).
O célebre cirurgião do qual falastes, estudou o
fenômeno da tiptologia naqueles que o produzem? Não; ele constatou um efeito
fisiológico anormal entre alguns indivíduos que jamais se ocuparam com as mesas
batedoras, tendo uma certa analogia com aquele que se produz nas mesas, e, sem
um exame mais amplo, concluiu, com toda a autoridade da sua ciência, que todos
aqueles que fazem as mesas falarem devem ter a propriedade de fazer estalar seu
músculo curto peroneiro, e que não são senão enganadores, sejam eles príncipes
ou operários, façam-se pagar ou não. Ao menos estudou o fenômeno da tiptologia
em todas as suas fases?
Verificou se, com a ajuda desse estalido
muscular, poder-se-ia produzir todos os efeitos tiptológicos? Nada mais, sem
isso estaria convencido da insuficiência do seu processo; o que não impediu de
proclamar sua descoberta em pleno Instituto. Não há aqui, para um sábio, um
julgamento bem sério? O que restou dele hoje? Eu vos confesso que, se tivesse
que sofrer uma intervenção cirúrgica, hesitaria muito em me confiar a esse
profissional, porque temeria que ele não julgasse meu mal com mais
perspicácia.
Uma vez que esse julgamento é de umas das
autoridades sobre as quais pareceis dever vos apoiar para abrir uma brecha no
Espiritismo, isso me tranqüiliza completamente sobre a força dos outros
argumentos que apresentareis, se vós não os tomardes de fontes mais
autênticas.
Visitante – Todavia, vedes que a moda das mesas
girantes já passou; durante um tempo foi um furor, hoje, dela não se ocupam
mais. Por que isso, se é uma coisa séria?
A.K. – Porque das mesas girantes saiu uma coisa
mais séria ainda; delas saiu toda uma ciência, toda uma doutrina filosófica,
muito mais interessante para os homens que refletem. Quando estes não tinham
mais nada para aprender vendo rodar uma mesa, dela não se ocuparam mais. Para as
pessoas fúteis que não se aprofundam em nada, era um passatempo, um brinquedo e
o tiveram bastante; essas pessoas não são consideradas em ciência. O período de
curiosidade teve seu tempo: o da observação lhe sucedeu. O Espiritismo, então,
entrou para o domínio das pessoas sérias, que não se divertem com ele, mas que
se instruem. Também as pessoas que fazem dele uma coisa séria não se prestam
para nenhuma experiência de curiosidade, e menos ainda para aqueles que nela
viriam com pensamentos hostis. Como elas próprias não se divertem, não procuram
divertir os outros; e eu sou desse número.
Visitante – Não há, todavia, senão a experiência
para convencer, mesmo não tendo, no início, senão um objetivo de curiosidade. Se
vós não operais senão em presença de pessoas convencidas, permiti-me dizer-vos
que pregais aos convertidos.
A.K. – Uma coisa é estar convencido, outra é
estar disposto a se convencer. É a estes últimos que eu me dirijo, e não àqueles
que crêem humilhar sua razão vindo escutar aquilo que chamam de fantasia. Com
estes eu me preocupo o menos possível. Quanto àqueles que dizem ter o desejo
sincero de se esclarecer, a melhor maneira de o provar é mostrando perseverança.
Se os conhece por outros sinais além do desejo de ver uma ou duas experiências:
estes querem trabalhar seriamente.
A convicção não se forma senão com o tempo, por
uma contínua observação feita com um cuidado particular. Os fenômenos espíritas
diferem essencialmente daqueles que se apresentam nas ciências exatas: eles não
se produzem à vontade. É preciso compreendê-los quando ocorrem. É vendo-os muito
e por longo tempo, que se descobre uma multidão de provas que escapam ao
primeiro olhar, sobretudo, quando não se está familiarizado com as condições nas
quais eles podem se produzir, e ainda mais quando se leva um espírito de
prevenção. Para o observador assíduo e refletido, as provas são bastante: para
ele uma palavra, um fato aparentemente insignificante, pode ser um sinal de luz,
uma confirmação. Para o observador superficial e de passagem, para o simples
curioso, elas nada são. Eis porque eu não me presto para experiências sem
resultado provável.
Visitante – Mas, enfim, é preciso um começo para
tudo. O iniciante, que é uma tábula rasa, que não viu nada, mas que quer se
esclarecer, como pode fazê-lo se vós, para isso, não lhe dais os
meios?
A.K. – Eu faço uma grande diferença entre o
incrédulo por ignorância e o incrédulo sistemático. Quando vejo em alguém
disposições favoráveis, nada me custa esclarecê-lo. Mas há pessoas em que o
desejo de se instruir não é senão uma aparência: com estes perde-se tempo,
porque se eles não encontram imediatamente o que têm o ar de procurar, e que
talvez os descontentariam encontrar, o pouco que vêem é insuficiente para
destruir suas prevenções. É inútil lhes fornecer oportunidade porque elas a
julgam mal e a fazem objeto de zombaria.
Àquele que deseja se instruir, direi: "Não se
pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de física
ou de química, já que não se é jamais senhor para produzir os fenômenos à
vontade, e que as inteligências que lhes são agentes, frustram freqüentemente
todas as nossas previsões. O que vós poderíeis ver acidentalmente, não
apresentando nenhuma continuidade, nenhuma ligação necessária, seria pouco
inteligível para vós. Instruí-vos, primeiro, pela teoria; lede e meditai os
livros que tratam dessa ciência; ali aprendereis seus princípios, encontrareis a
descrição de todos os fenômenos, compreendereis sua possibilidade pela
explicação que é dada, e pela narração de uma multidão de fatos espontâneos, dos
quais podeis ter sido testemunhas sem o saber e que vos tornarão à memória. Vós
vos edificareis sobre todas as dificuldades que podem se apresentar e formareis,
assim, uma primeira convicção moral. Então, quando se apresentarem as
circunstâncias de ver e de operar por vós mesmos, compreendereis, qualquer que
seja a ordem pela qual os fatos se apresentem, porque nada vos será
estranho."
Eis, senhor, o que aconselho a quem diz querer se
instruir, e, pela sua resposta, é fácil de se ver se tem outra coisa além da
curiosidade.