Paltalk: Jesus e a Doutrina dos Espíritos ( 03/03/08)
@Zach
BOA OU MÁ VONTADE DOS ESPÍRITOS PARA CONVENCEREM
Visitante – Os
Espíritos devem ter interesse em fazer prosélitos. Por que não consentem, mais
do que o fazem, nos meios para convencer certas pessoas, cuja opinião seria de
uma grande influência?
A.K. – É que,
aparentemente, no momento, eles não têm interesse em convencer certas pessoas,
cuja importância não medem como elas mesmas o fazem. É pouco lisonjeiro, eu
convenho, mas nós não comandamos suas opiniões, pois os Espíritos têm um modo de
julgar as coisas que não é sempre o nosso. Eles vêem, pensam e agem segundo
outros elementos; enquanto nossa visão está circunscrita pela matéria, limitada
pelo círculo estreito
no meio do qual nos encontramos, eles abarcam o conjunto. O tempo, que nos
parece tão longo, para eles é um instante, assim como a distância, que não é
senão um passo; certos detalhes, que nos parecem de uma importância extrema,
para eles são pueris; em compensação, acham importantes, coisas das quais não
compreendemos a importância. Para compreendê-los, é preciso se elevar pelo
pensamento acima do nosso horizonte material e moral, e nos colocar em sua
posição; não cabe a eles descerem até nós, mas cabe a nós nos elevarmos até
eles, e é a isso que nos conduz o estudo e a observação.
Os Espíritos
apreciam os observadores assíduos e conscienciosos, para os quais multiplicam as
fontes de luz; o que os afasta não é a dúvida que nasce da ignorância, mas a
fatuidade desses pretensos observadores que, nada tendo observado, pretendem
colocá-los na berlinda e manobrá-los como a marionetes; é sobretudo o sentimento
de hostilidade e de difamação que carregam consigo e que está em seu pensamento,
se não está em suas palavras. Para estes, os Espíritos nada fazem e se inquietam
muito pouco com aquilo que eles possam falar ou pensar, porque sua vez chegará.
Por isso eu disse que o necessário não é a fé, mas a boa-fé.
ORIGEM DAS IDÉIAS ESPÍRITAS MODERNAS
Visitante – Uma
coisa que eu desejaria saber, senhor, é o ponto de partida das idéias espíritas
modernas; elas são o resultado de uma revelação espontânea dos Espíritos ou o
resultado de uma crença anterior à sua existência? Compreendeis a importância da
minha pergunta, porque, neste último caso, poder-se-ia crer que a imaginação não
pode ser posta de lado.
A.K. – Esta
questão, senhor, como o dissestes, é importante nesse ponto de vista, embora
seja difícil admitir-se, supondo-se que essas idéias tenham nascido de uma
crença antecipada, que a imaginação tenha podido produzir
todos os resultados materiais observados. Com efeito, se o Espiritismo estivesse
baseado sobre o pensamento preconcebido da existência dos Espíritos,
poder-se-ia, com alguma aparência de razão, duvidar da sua realidade, porque se
a causa é uma quimera, as próprias conseqüências devem ser quiméricas. Mas as
coisas não se passam assim.
Anotai primeiro
que essa seqüência seria completamente ilógica. Os Espíritos são causa e não
efeito; quando se vê um efeito, pode-se procurar a sua causa, mas não é natural
imaginar uma causa antes de ter visto os efeitos. Não se poderia, pois,
conceber o pensamento dos Espíritos se não estivessem presentes os efeitos que
encontrassem sua explicação provável na existência de seres invisíveis. Pois
bem, não foi assim que esse pensamento surgiu, quer dizer, não foi uma hipótese
imaginada para explicar certos fenômenos; a primeira suposição que se fez deles
foi de uma causa inteiramente material. Assim, longe de os Espíritos terem sido
uma idéia preconcebida, partiu-se do ponto de vista materialista, o qual
sendo incapaz de tudo explicar, a própria observação conduziu à causa
espiritual. Eu falo das idéias espíritas modernas, uma vez que nós sabemos ser
essa crença tão velha quanto o mundo. Eis aqui a seqüência das
coisas.
Fenômenos
espontâneos se produziram, tais os ruídos estranhos, pancadas, movimento de
objetos, etc., sem causa ostensiva conhecida, e esses fenômenos puderam ser
reproduzidos sob a influência de certas pessoas. Até aí nada autorizava a
procurar a causa além da ação de um fluido magnético ou outro cujas propriedades
eram ainda desconhecidas. Mas não se tardou em reconhecer, nesses ruídos e
nesses movimentos, um caráter intencional e inteligente, do que se concluiu,
como já disse, que: se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem
uma causa inteligente. Essa inteligência não poderia estar no próprio objeto,
porque a matéria não é inteligente. Era o reflexo da inteligência da pessoa ou
das pessoas presentes? Assim se pensou primeiro, como eu
disse igualmente. Só a experiência poderia se pronunciar, e a experiência
demonstrou, por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa
independência dessa inteligência. Ela estava, pois, fora do objeto e fora da
pessoa. Quem era ela? Foi ela mesma quem respondeu, declarando pertencer à ordem
de seres incorpóreos, designados sob o nome de Espíritos. A idéia dos Espíritos,
pois, não preexistiu nem foi mesmo consecutiva; em uma palavra, ela não saiu do
cérebro, mas foi dada pelos próprios Espíritos, e tudo o que soubemos depois a
seu respeito, foram eles que nos ensinaram.
Uma vez revelada a
existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de comunicação, pôde-se ter
conversações seguidas e obter esclarecimentos sobre a natureza desses seres, as
condições da sua existência, seu papel no mundo visível. Se se pudesse
interrogar assim os seres do mundo dos infinitamente pequenos, que coisas
curiosas não se aprenderia sobre eles!
Supondo-se que,
antes do descobrimento da América, existisse um fio elétrico através do
Atlântico, e que na sua extremidade européia fossem notados sinais inteligentes,
se poderia concluir que, na outra extremidade, havia seres inteligentes
procurando se comunicar; ter-se-ia podido questioná-los, e eles teriam
respondido. Adquirir-se-ia assim, a certeza da sua existência, o conhecimento
dos seus costumes, dos seus hábitos, da sua maneira de ser, sem jamais tê-los
visto. Ocorre o mesmo nas relações com o mundo invisível; as manifestações
materiais foram como sinais, meios de advertências, que nos colocaram na trilha
de comunicações mais regulares e mais continuadas. E, coisa notável, à medida
que os meios mais fáceis de comunicação estão à nossa disposição, os Espíritos
abandonam os meios primitivos, insuficientes e incômodos, como o mudo que
recupera a palavra renuncia à linguagem dos sinais.
Que eram os
habitantes desse mundo? Eram seres à parte, fora da Humanidade? Eram bons oumaus? Foi ainda a
experiência que se encarregou de resolver essas questões. Mas, até que numerosas
observações deitaram luz sobre esse assunto, o campo das conjecturas e dos
sistemas estava aberto, e Deus sabe quantas surgiram! Alguns acreditaram serem
os Espíritos superiores a tudo, outros não viam neles senão demônios. Foi por
suas palavras e seus atos que se pôde julgá-los. Suponhamos que entre os
habitantes transatlânticos desconhecidos, dos quais falamos, uns tivessem dito
coisas boas, enquanto outros fossem notados pelo cinismo de sua linguagem,
ter-se-ia concluído que haveria bons e maus. Foi a isso que se chegou com os
Espíritos, reconhecendo-se entre eles todos os graus de bondade e de maldade, de
ignorância e de saber. Uma vez sabedores dos seus defeitos e qualidades, cabe à
nossa prudência distinguir o bom do mau, o verdadeiro do falso em suas relações
conosco, absolutamente como nós fazemos com respeito aos homens.
A observação não
só nos esclareceu sobre as qualidades morais dos Espíritos, mas também sobre sua
natureza e sobre o que poderíamos chamar seu estado fisiológico. Soube-se, pelos
próprios Espíritos, que uns são muito felizes e outros muito infelizes; que eles
não são seres à parte, de uma natureza excepcional, mas que são as almas
daqueles que viveram sobre a Terra, onde deixaram seu envoltório corporal, que
povoam os espaços, nos cercam e nos acotovelam sem cessar, e, entre eles, cada
um pôde reconhecer, por sinais incontestáveis, seus parentes, seus amigos e
aqueles que conheceu neste mundo. Pôde-se segui-los em todas as fases de sua
existência de além-túmulo, desde o instante em que deixaram seus corpos, e
observar sua situação segundo o gênero de morte e a maneira pela qual viveram
sobre a Terra. Soube-se, enfim, que não são seres abstratos, imateriais, no
sentido absoluto da palavra, eles têm um envoltório, ao qual demos o nome de
perispírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível em
seu estado normal, mas que, em certos casos, e por uma espécie de condensação ou
de disposição molecular
pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível e, desde então, foi
explicado o fenômeno das aparições e dos toques sobre elas. Esse envoltório
existe durante a vida do corpo e é o laço entre o Espírito e a matéria; na morte
do corpo, a alma ou o Espírito, o que são a mesma coisa, não se despoja senão do
envoltório grosseiro, conservando o segundo, como quando nós tiramos uma roupa
de cima para conservar apenas a de baixo, como o germe de um fruto se despoja do
envoltório cortical e não conserva senão o perisperma. É esse envoltório
semi-material do Espírito o agente dos diferentes fenômenos por meio do qual ele
manifesta sua presença.
Tal é, em poucas
palavras, senhor, a história do Espiritismo; vedes e o reconhecereis ainda
melhor, quando o tiverdes estudado a fundo, que tudo nele é o resultado da
observação e não de um sistema preconcebido.