"Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos." - Jesus. (MATEUS, 5:44.)
O problema do inimigo sempre merece estudos mais acurados.
Certo, ninguém poderá aderir, de pronto, à completa união com o adversário do dia de hoje, como Jesus não pôde rir-se com os perseguidores, no martírio do Calvário.
Entretanto, a advertência do Senhor, conclamando-nos a amar os inimigos, reveste-se de profunda significação em todas as facetas pelas quais a examinemos, mobilizando os instrumentos da análise comum.
Geralmente, somos devedores de altos benefícios a quantos nos perseguem e caluniam; constituem os instrumentos que nos trabalham a individualidade, compelindonos a renovações de elevado alcance que raramente compreendemos nos instantes mais graves da experiência. São eles que nos indicam as fraquezas, as deficiências e as necessidades a serem atendidas na tarefa que estamos executando.
Os amigos, em muitas ocasiões, são imprevidentes companheiros, porquanto contemporizam com o mal; os adversários, porém, situam-no com vigor.
Pela rudeza do inimigo, o homem comumente se faz rubro e indignado uma só vez, mas, pela complacência dos afeiçoados, torna-se pálido e acabrunhado, vezes sem conta.
Não queremos dizer com isto que a criatura deva cultivar inimizades; no entanto, somos daqueles que reconhecem por beneméritos credores quantos nos proclamam as faltas.
São médicos corajosos que nos facultam corretivo.
É difícil para muita gente, na Terra, a aceitação de semelhante verdade; todavia,chega sempre um instante em que entendemos o apelo do Cristo, em sua magna extensão.
CAPÍTULO II
NOÇÕES ELEMENTARES DE
ESPIRITISMO
OBSERVAÇÕES PRELIMINARES
1. É erro crer que
a certos incrédulos basta presenciar fenómenos extraordinários para se
convencerem. Os que não admitem a existência da alma ou do Espírito, no homem,
não podem admiti-la fora dele. Negando a causa, consequentemente negam o efeito.
Apresentam-se, pois, quase sempre, com ideias preconcebidas, com a deliberação
prévia de negar tudo, o que os impede de realizar uma observação séria e
imparcial. Fazem perguntas e levantam objeções impossíveis de contestação
completa no primeiro momento, pois seria preciso dar a cada um deles um curso
de Espiritismo, explanando as coisas desde o princípio.
O estudo prévio
tem a vantagem de responder às objeções, que na maior parte se fundam na
ignorância da causa dos fenómenos e das condições em que se produzem.
2. Os que desconhecem o Espiritismo imaginam que os fenómenos espíritas se
produzem como as experiências de física e química. Daí a pretensão de
submetê-los à sua vontade e a recusa de se colocarem nas condições necessárias à
observação.
Sem admitir em princípio a intervenção dos Espíritos,
desconhecendo sua natureza e sua maneira de agir, procedem como se trabalhassem
a matéria bruta. E porque não obtêm o que desejam concluem que os Espíritos não
existem.
Colocando-nos sob um outro ponto de vista, compreenderemos que,
sendo os Espíritos as almas dos homens, depois da morte também seremos
Espíritos. Ora, nós certamente, e do mesmo modo, não estaremos dispostos a
servir de joguete para satisfazer caprichos de pessoas curiosas.
3. Mesmo
certos fenómenos podem ser provocados, peia razão mesma de provirem de
inteligências livres, jamais estão à inteira disposição de alguém; e quem quer
que se jactasse de os obter à vontade, estaria apenas dando prova de ignorância
ou de má fé.
É preciso esperá-los, colhê-los de passagem, e muito amiúde
acontece que, quando menos esperamos, apresentam-se os fenómenos mais
interessantes e concludentes. Quem deseja instruir-se seriamente deve, pois,
armar-se, nisto como em tudo, de paciência e de perseverança e sujeitar-se ao
que for preciso, pois de outro modo mais vale não tratar do assunto.
4.
As reuniões que se ocupam das manifestações espíritas nem sempre realizam as
condições favoráveis à obtenção de resultados satisfatórios ou de molde a dar
convicção.
Algumas há, preciso é dizê-lo, de onde os incrédulos saem
menos convencidos do que quando entraram. Então objetam, aos que falam do
caráter respeitável do Espiritismo, com o relato dos acontecimentos,
frequentemente ridículos, de que foram testemunhas.
Esses não serão mais
lógicos do que os que julgam uma arte pêlos desenhos de um principiante, uma
pessoa por sua caricatura ou uma tragédia por sua paródia. O Espiritismo também
tem seus aprendizes; e quem deseja instruir-se não bebe ensinamentos de uma só
fonte, uma vez que, só pelo exame e pela comparação, se pode firmar um
juízo.
5. As reuniões frívolas têm um grave inconveniente para os noviços
que as assistem: dão-lhes uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. Os que
assistem a reuniões desta natureza certamente não podem levar a sério uma coisa
que vêem ser tratada levianamente por aqueles mesmos que se dizem seus adeptos.
O estudo antecipado lhes ensinará a julgar a transcendência do que vêem e a
distinguir entre o mau e o bom.
6. O mesmo raciocínio é aplicável aos que
julgam o Espiritismo por certas obras excêntricas que dele dão uma ideia falsa e
ridícula. O alto Espiritismo é tão responsável pelas faltas dos que o
compreendem mal ou o praticam erradamente, quanto a poesia é responsável pêlos
maus poetas. Dizem que é deplorável que existam tais obras, pois são nocivas à
verdadeira ciência. Sem dúvida, seria preferível que só as houvesse boas. Mas a
maior culpa recai sobre os que não se dão ao trabalho de estudar a questão
inteiramente.
Aliás, todas as artes e todas as ciências encontram-se no
mesmo caso.
Porventura, a respeito das coisas mais sérias, não foram
escritos tratados absurdos e cheios de erros?
Por que seria o Espiritismo
privilegiado, sobretudo no início?
Se os que o criticam não o julgassem
pelas aparências, ficariam sabendo o que ele repele, e não lhe atribuiriam
aquilo que repudia em nome da razão e da experiência.