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Árvores. A mera presença
delas desperta uma paz e um sossego na alma humana. Esse é um segredo que
explica por que, desde os tempos mais remotos, em todos os cantos do mundo, os
sábios e místicos têm usado florestas como locais de refúgio e inspiração.
Há uma relação natural e instintiva entre a árvore e o homem. Até os seus
modos de respirar se completam. Aquele que medita pode aprender com as árvores
uma sábia e serena imobilidade. Na antiga Índia, conta a lenda que Gautama Buda
alcançou a iluminação ao pé de uma grande árvore chamada Bodhi, símbolo da
sabedoria universal.
É difícil imaginar seres tão benéficos quanto as árvores. Elas embelezam a
paisagem, dão sombra, madeira, frutas e são o refúgio e abrigo de pássaros e
outras espécies de animais. Comunicam o subsolo com a atmosfera e purificam o
ar. Atraem nuvens, regulam as chuvas, estabilizam o clima e garantem a umidade
do solo. Combatem a erosão e evitam o excesso de ventos.
Mas, além das suas funções vitais e práticas, a árvore tem uma forte natureza
mágica. Ela é universalmente considerada um símbolo do relacionamento entre céu
e terra. Com sua estrutura vertical – o tronco – a árvore estabelece um eixo
simbólico de ligação entre o mundo físico e o mundo divino. Por outro lado, seus
galhos, ramos, folhas e frutos reúnem toda uma comunidade de aves, insetos,
répteis e pequenos mamíferos, o que é um símbolo da infinita diversidade da
vida.
Naturalmente, o paraíso da tradição judaico-cristã é um bosque. Ali, segundo
Gênesis, II, “Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas e boas
de comer”. Porém, há duas árvores que se destacam nesse local sagrado. Uma delas
é a árvore da sabedoria, que dá o conhecimento do bem e do mal. A outra é a
árvore da vida, que simboliza a imortalidade.
No Bhagavad Gita hindu (cap. XV), o universo é uma árvore invertida,
que tem suas raízes no céu e suas folhas e frutos na Terra. Seu nome é Asvartha,
e sua imagem simboliza a manifestação concreta da vida cósmica. A mesma árvore
com raízes no céu e frutos na terra aparece sob o nome de Yggdrasil no folclore
dos países do norte da Europa.

Do ponto de vista microcósmico, essa árvore mitológica representa cada alma
humana, cujas origens e raízes estão na eternidade, mas cujas folhas e frutos
são as atividades práticas do mundo concreto. Macrocosmicamente, porém, essa
árvore simboliza o universo material como um todo, que surge pe-riodicamente do
mistério e do mundo oculto para florescer em uma vida física e espiritual
infinitamente variada.
Cada ser humano, como cada árvore, é uma miniatura e um resumo do universo.
Esse é um dos motivos pelos quais temos tanto a ganhar convivendo com as
árvores. A experiência de comunhão com elas faz parte de uma comunhão maior com
toda a natureza e liberta a alma humana de seu sofrimento. John Muir, o grande
pioneiro da preservação ambiental, deu seu testemunho a respeito.
Certo dia, no final do século 19, John estava decepcionado com alguns seres
humanos. Para recuperar a consciência da sua unidade interior com todas as
formas de vida, ele foi nadar sozinho em um grande lago, numa região desabitada.
Mais tarde, contou: “Foi o melhor batismo de água que jamais experimentei.” Ao
sair do lago, ele olhou para o norte e viu as montanhas. Observou como as curvas
suaves do vale desciam até mergulhar nas águas do lago. Então decidiu: “Agora
terei outro batismo. Vou mergulhar minha alma no alto céu. Avançarei entre os
pinheiros, entre as ondas de vento do topo das montanhas.”(1) Para Muir, não
havia templo melhor que a natureza a céu aberto.
A árvore é cantada em prosa e verso nas mais diferentes culturas, e está
presente nas imagens primordiais das várias religiões. O taoísmo ensina que uma
árvore sagrada, um pessegueiro, cresce na montanha K’un-lun e floresce uma vez a
cada mil anos. São necessários três mil anos para que o fruto desse pessegueiro
amadureça. O seu pêssego milenar é grande como um melão, mas vermelho e
brilhante. Uma mordida nele é suficiente para que a pessoa prolongue sua vida
até mil anos. Só os imortais, que alcançaram a sabedoria eterna, têm as
credenciais necessárias para alimentar-se com o fruto do pessegueiro em flor.(2)
Era nas florestas que os sábios taoístas, budistas e hindus se refugiavam,
mantendo-se afastados ao mesmo tempo da sociedade mundana e das burocracias
religiosas. Também os magos druídas desenvolveram sua sabedoria nas florestas.
O humilde e silencioso crescimento de cada árvore é um símbolo cósmico da
transformação do que é pequeno no que é grande, do que é potencial no que é
real. No Novo Testamento, Jesus afirma que o Reino dos Céus é “semelhante a um
grão de mostarda que um homem tomou em suas mãos e lançou em sua horta; ele
cresce, torna-se árvore, e as aves do céu se abrigam em seus ramos” (Lucas,
13:18).
Mas a popularidade
universal das árvores não impediu a sua constante destruição em função de
interesses materiais de curto prazo. No mundo antigo, as novas civilizações
surgiam saudáveis em regiões bem florestadas. Algum tempo depois, as populações
já se multiplicavam e o consumo de madeira crescia excessivamente. As árvores
eram usadas como lenha – algo indispensável para fundir metais – e também como
material para construir casas e barcos.
Cada sociedade que ganhava poder e influência usava a guerra como meio de
expandir-se. Então as reservas florestais eram usadas para fundir metais, para
produzir armas e construir navios de combate. O desmatamento descontrolado
provocava a erosão do solo, que destruía a produtividade agrícola, provocando a
decadência da sociedade e, finalmente, a sua derrota nas guerras. Por isso,
Helena Blavatsky escreveu que a decadência de uma civilização se segue à
destruição das suas florestas tão inevitavelmente quanto a noite segue o dia.
O mundo romano, como a sociedade grega, devia sua força às árvores. A
floresta era considerada mãe de Roma. Todo o crescimento do império romano se
baseou no uso das florestas e de outros recursos naturais, no seu próprio
território e nos de povos distantes. Mas valeu a regra geral e o caso de Roma
não foi uma exceção: no seu devido tempo, a destruição das florestas e da base
ecológica da vida ajudou a provocar a decadência e o fim do império que dominava
o mundo.(3)
Ao longo de milênios, enquanto alguns cortavam as árvores, outros as viam
como seres sagrados. Com seu charme encantador, elas sempre inspiraram
sentimentos religiosos. Na Inglaterra, só no século 11 a Igreja cristã,
finalmente, decretou que era “pecado” construir um santuário em torno de uma
árvore. Mas, em 1429, o clérigo de Bungay ainda sustentava que as imagens
religiosas não tinham muito valor e que as árvores tinham mais energia e
virtude, “sendo mais adequadas ao culto do que pedras ou madeira morta esculpida
com a forma de um homem”. Alguns dos primeiros protestantes consideravam que se
podia rezar tanto nos bosques como nas igrejas.
Quando a madeira começou a escassear na Inglaterra do século 17, surgiram o
reflorestamento e a preservação florestal ganhou força. A admiração pelas
árvores também se apoiava em certos mitos cristãos, na época considerados
literalmente verdadeiros. Em 1670, por exemplo, John Smith, especialista em
silvicultura, sustentava que alguns carvalhos ingleses ainda vivos haviam
surgido no primeiro verão depois do dilúvio, e que uns poucos entre eles eram, inclusive, “do momento da criação do mundo”.

Exageros à parte, os fiéis das paróquias inglesas faziam uma peregrinação
anual. Durante a caminhada, paravam de quando em quando diante de um carvalho de
maior porte para ler as escrituras e rezar ao pé da árvore, que consideravam
sagrada. As árvores eram temas de livros. Plantá-las era um esporte em toda a
Europa. Essa tendência cultural compensou, em parte, a devastação causada pela
revolução industrial, cuja poluição ambiental era extrema.(4)
O que dizer do Brasil? As árvores ocupam lugar central em nossa história,
nossa economia e cultura. As lendas tradicionais falam de Curupira, o deus que
protege as florestas brasileiras. Ele é um pequeno índio com os pés voltados
para trás, e seu corpo não tem os orifícios necessários para as excreções
indispensáveis à vida. Por isso, o povo do Pará o chama de muciço. No Amazonas,
Curupira é visto como um pequeno índio de quatro palmos de altura, careca, mas
com o corpo coberto de pêlos. No rio Tapajós, ele tem apenas um olho.
O pequeno deus Curupira é dotado de uma força extraordinária. Para
experimentar a resistência das árvores antes de uma tempestade, ele bate nelas
com o calcanhar. Curupira tanto mostra a caça como a esconde. Sua função é
proteger a mata e seus habitantes. Todo aquele que derruba ou estraga
inutilmente as árvores é punido por ele com o castigo de caminhar
indefinidamente pelo bosque sem poder lembrar do caminho de casa. Por isso era
temido pelos indígenas.
“Curupira foi o primeiro duende selvagem que a mão branca do europeu fixou em
papel e comunicou a países distantes”, escreveu Luis da Câmara Cascudo. José de
Anchieta já o citava em uma carta de 1560. Mas seu nome tem variações: no
Maranhão, chama-se Caipora. Ele tem uma presença marcante nas lendas do sul
brasileiro, e ganha o nome de Curupi no Paraguai e na Argentina.(5)
O simbolismo universal das árvores é rico e complexo – e estimula a busca da
sabedoria. Cada espécie de árvore irradia uma influência e uma vibração
próprias, que os seres humanos buscam descrever com palavras. O espírito do
cipreste, por exemplo, representa a imortalidade. O pinheiro, a árvore escolhida
para as festas de Natal, é outro símbolo da vida espiritual. A acácia representa
a verdade, assim como o sicômoro simboliza a bondade.
O carvalho é a árvore de Zeus, de Júpiter, e simboliza a força divina e o
eixo do mundo. A aveleira, que dá a avelã, representa a fertilidade e ainda
fornece a madeira de que são feitas as varinhas mágicas. A figueira e a oliveira
simbolizam a abundância. A figueira também pode representar o eixo do mundo,
como o carvalho. A videira é uma árvore sagrada tanto na tradição egípcia como
na antiga Is-rael, e alguns a associam à Árvore da Vida. A mamona simboliza a
imprevisibilidade do futuro e nos ensina o desapego. Ela nos faz lembrar que,
apesar das aparências, a vida raramente é linear e contínua.
Os significados e as influências espirituais das árvores são inesgotáveis. Em
diferentes momentos da nossa vida, cada árvore – em um parque, uma rua ou um
quintal – nos traz mensagens diferentes. Devemos estar abertos ao diálogo
silencioso com esses seres benéficos. Há inúmeras vantagens nisso.
Segundo o filósofo Plotino, todas as plantas buscam a felicidade. De fato, a
filosofia esotérica ensina que, assim como os animais mais evoluídos já fazem
força para aproximar-se do desenvolvimento mental, as plantas avançam no sentido
do desenvolvimento das emoções.
Ora, as árvores estão entre os habitantes mais sábios e evoluídos de todo o
reino vegetal. Há inúmeros relatos de que elas são capazes, à sua maneira, não
só de receber os nossos sentimentos de amizade, mas também de responder a eles.
Nossa pobre inteligência humana só tem a ganhar quando percebemos a inteligência
das árvores. O conteúdo das lições que elas nos trazem, porém, depende da nossa
capacidade de deixar de lado as coisas pequenas, que pensamos que conhecemos, e
de abrir-nos para a magia da vida.
Notas
(1) The Life of John Muir, Linnie Marsh Wolfe, The University of Wisconsin
Press, Wisconsin, EUA. Ver p. 193.
(2) Seven Taoist Masters, tradução do chinês para o inglês de Eva Wong, Ed.
Shambhala, Boston e Londres, 1990. Ver p. 19.
(3) Para saber mais sobre a importância decisiva das florestas na história
das civilizações humanas, veja a obra História das Florestas, de John Perlin,
Ed. Imago, RJ, 1992.
(4) Sobre a importância das árvores na cultura inglesa, veja a obra O Homem e
o Mundo Natural, de Keith Thomas, Cia. das Letras, SP, 1988, especialmente as
pp. 253-266.
(5) Geografia dos Mitos Brasileiros, Luis da Câmara Cascudo, Ed. Itatiaia
(USP), SP, 1983. Ver pp. 84-86.
fonte:

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