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José A.
Lutzenberger

A visão cartesiana que ainda domina
grande parte do pensamento científico atual coloca-nos como observadores
externos da Natureza. Daí o conceito de "ambiente natural". O ambiente é visto
como algo externo a nós, no qual estamos total e umbilicalmente imersos, é
verdade, mas que não faz parte de nosso ser - uma dicotomia bem
clara.
Temos hoje a cibernética e a
sinergística, mas são raros, muito raros, os que observam a Natureza, muito mais
raros ainda, aqueles que lidam com o Mundo dentro dos enfoques destas
disciplinas. A doutrina que norteia a tecnologia moderna baseia-se, sempre, em
visão reducionista. Os alvos são estreitos, o raciocínio é linear.
Mas o Mundo não é assim. Façamos um
"experimento mental" (Gedankenexperiment), como dizia Einstein: Acaso seria
possível um planeta cheio de vida, como o nosso, mas no qual ela estivesse
constituída apenas por animais, sem que existissem plantas? É claro que não. Por
que não?
Mesmo aqueles animais que só se
alimentam de carne, como o leão ou o gavião caramujeiro, que carne comem? Eles
comem carne de animais herbívoros ou de animais carnívoros que comeram
herbívoros. A coisa sempre termina na planta.
Por que termina na planta? Muito
simples: a planta sabe fazer uma coisa que animal nenhum consegue fazer. A
planta domina a técnica - a "tecnologia" como diríamos hoje - da fotossíntese. O
que é fotossíntese? As plantas captam energia solar, retiram do ar gás carbônico
que elas combinam com água para fazer substâncias orgânicas. Neste trabalho elas
liberam oxigênio. A fórmula supersimplificada da fotossíntese é a
seguinte:
CO2 + H2O +
energia solar = CH2O + O2
Esta reação é muito interessante. Do
lado esquerdo temos duas substâncias minerais simples, substâncias sem conteúdo
energético, isto em nível molecular, que é o nível no qual transam os seres
vivos e o mundo mineral que os circunda.(Em termos de física nuclear, que rege
no interior do Sol e das estrelas, ou nos infames reatores e bombas nucleares, a
coisa seria diferente). Da água e do gás carbônico não se pode retirar energia.
De vez em quando aparecem nos jornais histórias de inventores que teriam
concebido motores que usam água como combustível. Ora, quem conhece as leis
básicas da física e a direção das reações mais fundamentais da química, sabe que
isto é balela. Seria como querer fazer fogo com cinza em vez de com
lenha.
Do outro lado da fórmula temos um
carboidrato e oxigênio livre. CH2O é a fórmula supersimplificada dos
açúcares,amidos,celuloses. Os carboidratos têm alto conteúdo energético.
Poderíamos chamá-los de baterias químicas. Quando combinados, isto é, queimados
com oxigênio liberam calor. A reação da fotossíntese fornece as duas coisas -
carboidratos e oxigênio! Os animais, para todas as suas atividades, necessitam
de energia. A única fonte inesgotável de energia na Terra é a radiação solar,
enquanto durar o Sol, mais uns cinco bilhões de anos. Se a Vida dependesse de
algo como o petróleo ou do carvão, já se teria acabado. Mas esta é uma
consideração absurda, pois foi a Vida que fez o carvão e o petróleo. Para captar
a luz é preciso ficar parado, apresentar grande superfície de captação, É o que
fazem as plantas com suas folhas, sempre orientadas em direção ao Sol. Pela sua
natureza dinâmica, os animais não podem fazer isso. Servem-se das plantas,
aproveitam as substâncias orgânicas por elas produzidas.
Vamos agora inverter nossa pergunta
inicial:
Poderíamos imaginar um planeta com
vida, mas sem animais, só com plantas? Não seria este um planeta bem mais
harmônico, sem sofrimento? As plantas poderiam desenvolver-se livremente, sem
serem pastadas, pisoteadas, consumidas, queimadas.
Impossível.
A fórmula da fotossíntese mostra que o
alimento principal das plantas é o gás carbônico. Mas ele é quase um gás raro na
atmosfera. O nitrogênio, N2, constitui o grosso do ar,
aproximadamente 78%. O oxigênio, O2, está próximo dos 21%. O resto é
argônio e gases raros. Apesar de sua concentração ter sido drasticamente
aumentada nos últimos duzentos anos pelas chaminés das indústrias, os escapes
dos carros, pela destruição do húmus dos solos e pela devastação florestal, o
gás carbônico constitui apenas 0,033%. Porque as plantas não esgotam rapidamente
o gás carbônico?
São os animais que não permitem que as
plantas morram de fome. Os animais dominam outra técnica muito parecida à
fotossíntese, quase igual, porém invertida - a respiração. Vejamos a fórmula
simplificada da respiração:
CH2O + O2 -
energia = CO2 + H2O
Exatamente o contrário da fotossíntese!
Enquanto as plantas, armazenando energia, sintetizam substâncias orgânicas,
liberando oxigênio, os animais, com oxigênio, queimam estas substâncias e usam a
energia liberada no processo. Eles devolvem ao ambiente exatamente aquilo que a
planta retirou*.
Detalhe curioso, muito significativo: o
catalisador da fotossíntese é a clorofila, um pigmento verde, uma molécula
bastante complicada do tipo que os químicos chamam de quelatos. Quelatos são
moléculas grandes, em forma de gaiola, que seqüestram em seu centro um átomo de
metal. No caso da clorofila é um átomo de magnésio. O catalisador da respiração
é a hemoglobina, também um pigmento, este, vermelho. O átomo central é o ferro.
Como sabe todo aquele que estuda teoria das cores, vermelho e verde são cores
complementares.
Podemos agora desenhar um diagrama
muito simples:
CO2 -> Planta ->
O2 -> Animal -> CO2
A Planta capta gás carbônico, entrega
oxigênio, o Animal consome este oxigênio, devolve o gás carbônico. O círculo se
fecha. A energia que toca este carrossel é a radiação do Sol.
Ora, Planta e Animal fazem parte da
mesma unidade funcional, são órgãos de um organismo maior: não somente a Planta
está aqui para nós, nós também aqui estamos para ela!
As árvores, florestas, pradarias, os
banhados, as algas microscópicas dos oceanos, são órgãos nossos, tão nossos
quanto nosso pulmão,coração, fígado ou baço. Poderíamos chamá-las de "nossos
órgãos externos", enquanto estes últimos são nossos órgãos internos. Mas nós
somos órgãos externos delas! O Organismo Maior é um só.
Mas a complementaridade e
interdependência de fotossíntese e respiração, de sedentariedade e mobilidade, é
apenas uma entre a infinidade de interações que integram o Grande Processo
Vital. Vamos apenas lembrar algumas.
A abelha e a flor. Em alguns casos a
dependência entre flor e animal fecundador é tão precisa que as duas espécies
são exclusivas, evoluem juntas. É o caso das vespinhas das figueiras que vivem
dentro dos figuinhos. Cada espécie da grande família dos Ficus é fecundada por
outra espécie de microimenóptero, exclusiva dela. Ou o beija-flor que tem o bico
certo para a orquídea certa; a mamangava que tem dimensões e pêlos certos para a
respectiva flor de maracujá.
Em alguns solos úmidos, extremamentes
ácidos e pobres em nutrientes, o mundo vegetal consegue avançar com pioneiras
muito especializadas, certas plantas carnívoras. Não conseguindo retirar
minerais do solo, elas se alimentam de insetos. Quando morrem, com o húmus daí
resultante, enriquecem o solo, preparando-o para outras plantas, menos
especializadas. A morte é fundamental no Grande Contexto.
Por que muitas plantas fazem frutos
gostosos? A eficiência na fotossíntese proíbe às plantas viajar. Mas elas têm
que conquistar território. O fruto é o preço que elas pagam ao animal que o come
pelo transporte da semente. As grandes figueiras centenárias que enfeitam,
ainda, campos e capões do litoral e da baixada central gaúcha, são bem mais
precisas. Na maioria das árvores,
* Para que não protestem alguns, as
plantas também respiram, mas o balanço é negativo para o gás carbônico. as
sementes germinam na escuridão do solo da floresta. As mudinhas passam anos ou
décadas de vida precária, lutando para chegar em cima. Em geral só conseguem
quando, pela queda de um gigante decrépito, surge um novo espaço. A figueira faz
o contrário. Ela nasce no alto de outras árvores. Passa anos de vida precária
como epífita*, alimentando-se do húmus dos galhos e troncos podres. Mas consegue
enviar uma raiz ao chão. Quando lá chega, se fortalece, emite mais raízes,
abraça e estrangula a árvore sobre a qual nasceu, acaba transformando-se num
novo gigante. Mas como chegou a semente lá em cima? A Semente do figuinho só
germina depois de passar pelo estômago de um pássaro. Caída ao chão, não
germina, falta o tratamento dos ácidos digestivos que eliminam substância
inibidora da germinação.
Teríamos que escrever compêndio de
muitos volumes, quiséssemos mostrar apenas parte do fascínio das simbioses, como
a da Saúva, onde cada espécie tem sua espécie específica de fungo,que cultiva no
composto que faz com as folhas que corta.
Até as criaturas que costumamos
classificar de pragas ou parasitas têm sua função. A moderna agronomia não
estaria trabalhando com enxurradas de venenos se não tivesse esquecido que a
"praga" só ataca hospedeiro doente, desequilibrado, desajustado. Atacando
somente os indivíduos marginais dentro das populações, os organismos parasitas
constituem-se em mais um crivo da Seleção Natural, que esmera constantemente as
espécies, faz surgir sempre mais diversidade, sempre mais sinergismo, sempre
mais ciclos e epiciclos de reciclagem dos recursos dos quais se serve a
Vida.
E as milhões de espécies de bactérias,
cada uma com sua função específica? Sem elas não haveria digestão nem
decomposição, não funcionaria a reciclagem dos nutrientes minerais. Plantas e
animais, quando mortos, ficariam como múmias, a obstruir o espaço dos vivos.
Sobre o solo estragado, a fome mataria os sobreviventes. As plantas também não
teriam acesso ao nitrogênio do ar, indispensável para a síntese das proteínas.
Mas, assim como existem bactérias que ajudam as plantas obter nitrogênio, há as
que devolvem nitrogênio ao ar, mantendo, assim, um equilíbrio de fluxo estável.
Outras bactérias, também no solo, dão à planta acesso ao fósforo e demais
nutrientes minerais, especialmente os micronutrientes, indispensáveis à saúde
das plantas. O fósforo é indispensável no código genético, aquela genial escrita
bioquímica que, em nível molecular, fixa, registra, perpetua e, pelas mutações,
enriquece a Sabedoria da Evolução Orgânica e que, em cada indivíduo vivo, desde
o óvulo fecundado até a morte, comanda o desenvolvimento e o funcionamento do
organismo.
E todos aqueles seres maiores que, no
solo ou sobre ele, preparam o trabalho das bactérias, mastigando, roendo,
dilacerando, desmanchando, transportando os restos dos organismos mortos: os
fungos, protozoários, colêmbolas, nematóides, planárias, insetos - entre eles,
sociedades altamente estruturadas como as formigas e térmitas (cupins) - ácaros,
aranhas, escorpiões, centopéias e minhocas, e mesmo criaturas maiores, como
moluscos e até mamíferos, como tatus e toupeiras? Sem eles as bactérias
passariam muito trabalho, os ciclos vitais seriam muito lentos.
A Vida jamais poderá ser compreendida
nos termos que queria Descartes que, nos seres vivos, com exceção dos Humanos,
via simples máquinas, relógios ou autômatos; robôs, como diríamos
* Epífita: Planta que vive sobre outra
planta sem ser parasita desta, por exemplo, a orquídea e muitas bromélias. hoje.
Mas esta visão ainda está bem viva, muito viva, por exemplo, nos laboratórios de
toxicologia da indústria química, que submete milhões de criaturas indefesas,
macacos, cachorros, gatos, ratos, porquinhos-da-índia e outros, por ela
simplesmente classificados de "cobaias", a torturas indescritíveis para, em
enfoque ridiculamente bitolado, estabelecer, entre outras abstrações indecentes,
a "dose diária admissível" dos venenos com que fazem seus grandes negócios. Esta
visão, é triste ter que dizê-lo, é comum em muito curso e aula de biologia, e
nas modernas fábricas de carne ou ovos, eufemisticamente chamadas de "criação
confinada" e "aviários". A Vida também não poderá ser compreendida apenas dentro
da visão da moderna Biologia Molecular, com suas abordagens ultra- reducionistas
e com seu "dogma central" que postula ser a incrível diversidade de formas e
funções, resultado apenas da seleção natural de mutações ao acaso.
Só uma visão sistêmica, unitária,
sinfônica poderá nos aproximar de uma compreensão do que é nosso
maravilhoso
p l a n e t a v i v o.
Nunca existiram tantos biólogos como
hoje. As "ciências biológicas" - muito significativo este plural - ocupam cada
vez mais especialistas. Na indústria conheci excelentes entomólogos que só
pesquisavam métodos químicos para matar e mesmo erradicar insetos. Nas estações
experimentais agrícolas são comuns aqueles pesquisadores que passam a vida
relacionando estatisticamente a reação de certas plantas a determinados
tratamentos químicos. Há os que só estudam o efeito de determinados poluentes
sobre certos organismos aquáticos. Quando observo o trabalho dos biólogos
moleculares, que se aprofundam sempre mais na dança das macromoléculas dos gens
nos cromossomos e no citoplasma, pouco ligando para o organismo como um todo, me
vem a imagem de alguém que, querendo conhecer e compreender os magníficos
sistemas ferroviários europeus, por exemplo, a Bundesbahn, na Alemanha, se
limitasse a estudar, com o microscópio, as letras nas tabelas dos grossos
manuais de horários dos trens, e que passasse a vida fazendo nada mais que
isso.
Não deixa de ser muito interessante o
que toda esta gente descobre e cataloga e, por isso, esses trabalhos são muito
importantes, mas, desvinculados da visão do todo, nenhuma orientação ética nos
proporcionam. Aliás, é dogma corrente em círculos científicos modernos que a
Ciência nada tem a ver com valores, com ética, com política, com
religião...
Sobram biólogos, mas torna-se cada vez
mais difícil encontrar naturalistas. Naturalistas como eram Darwin, Haeckel,
Humboldt, Julian Huxley; como alguns de meus mestres: Allarich Schulz entre nós,
seu irmão Harald; Croizat e Vareschi, na Venezuela; o grande Ruschi no Espírito
Santo, Sioli na Amazônia e, a hoje mitológica figura, Balduíno Rambo, quase
totalmente esquecida de seus conterrâneos gaúchos, um dos grandes espíritos que
esta terra contemplou e venerou!
Esta, a diferençaa entre biólogo
convencional, apenas "científico" e o naturalista.A diferença está na v e n e r
a ç ã o ! Para o naturalista, a Natureza não é simples objeto de estudo e
manipulação, é muito mais. Ela é algo divino - não temos medo desta palavra - é
sagrada, e nós humanos somos apenas parte dela. Daí a atitude do naturalista não
poder jamais ser atitude de agressão, dominação espoliação. O naturalista
procura a integração, a harmonia, a preservação, o esmero, a contemplação
estética. Ele está no mesmo nível do artista, do compositor, maestro, escultor,
pintor, escritor, mas ele trabalha dentro da disciplina científica, em diálogo
limpo com a Natureza.
Quanto mais o naturalista se maravilha
diante das incríveis interações e complementações a nível de átomo, molécula,
célula, organismo, espécie, população, comunidade e ecossistema, mais ele
procura chegar à síntese. Dentro da visão ecológica surgiu, assim, o conceito de
Ecosfera, que é o conjunto e a interação de todos os ecossistemas, entre si e
com o mundo mineral. O diagrama que segue nos dá uma representação simplificada
da Ecosfera:
A Biosfera, o conjunto dos sistemas
vivos, está íntima e inseparavelmente integrada na Litosfera e na Atmosfera. O
todo constitui uma unidade funcional, um organismo à parte, um sistema dinâmico
integrado, equilibrado, auto-regulado.
É ainda enfoque comum que a Vida existe
neste planeta e nele se mantém até hoje, (já são pelo menos três bilhões e meio
de anos desde seus primeiros suspiros nos oceanos primordiais), porque a Terra,
entre os planetas de nosso sistema solar, reúne condições muito especiais:
tamanho e rotação certa à distância certa de uma estrela de tamanho certo. Daí o
âmbito certo de temperaturas propícias aos processos bioquímicos. No Universo
predominam temperaturas extremas, desde quase zero absoluto, -273 graus
centígrados no espaço intersideral; por volta de 6000 graus centígrados na
superfície do Sol; dezenas de milhões de graus em seu centro; centenas de
milhões no centro de estrelas maiores e até bilhões e centenas de bilhões de
graus nas explosões das novas e supernovas. Mas os processos vitais da química
do carbono só funcionam acima do zero centígrado e se estropiam antes de chegar
aos 100 graus centígrados. Somente algumas espécies de algas cianofíceas e
algumas bactérias conseguem viver em águas com temperaturas próximas de 70 graus
centígrados, em fontes térmicas; alguns fungos e actinomicetos ainda vivem bem
aos 60 graus centígrados nos compostos dos agricultores e jardineiros
orgânicos.
Por muito pouco a Terra escapou ao
destino de Vênus ou ao de Marte, nossos vizinhos mais próximos. De Júpiter e
Saturno e além, nem falar. É sabido que em Vênus a temperatura média de
superfície está por volta dos 400 graus centígrados. Não há substância orgânica
que resista. Os oceanos não resistiram, evaporaram. Já em Mercúrio, mais próximo
ao Sol que Vênus, nem a atmosfera resistiu, se foi. Em Marte as temperaturas de
meio dia no verão, estão próximas dos 40 graus abaixo de zero. O gás carbônico
está nas calotas polares que são de gelo seco. Oceanos, nem pensar.
De fato, a Terra está em condições
muito especiais, não somente quanto à temperatura. Se fosse uma bola de gás,
como Júpiter, ou bola sem ar nem água, como a Lua, de nada adiantariam
temperaturas certas. Fundamental para a Vida é também o confronto dos três
estados físicos: sólido, líquido e gasoso. Sem este confronto não haveria
reciclagem, como aquela dos ciclos interligados do carbono e oxigênio, não
haveria os grandes e pequenos ciclos bio-geo-químicos.
Para que não se apague, a Vida exige
ainda outras condições imprescindíveis: atmosfera de composição certa,
salinidade certa nos oceanos, âmbito certo de pH (medida de acidez e
alcalinidade). Devem estar presentes também pelo menos uns 25 dos mais de cem
elementos da tabela de Mendeleiev.
Quando a NASA preparava as primeiras
naves não tripuladas que desceram em Marte, ela poderia ter economizado o grande
custo dos dispositivos automáticos que recolheram e analisaram solo do planeta
para verificar se continha alguma forma de microvida, mesmo muito mais simples
que as mais simples de nossas bactérias.
James Lovelock, um dos raros cientistas
que hoje consegue sobreviver como consultor autônomo, trabalhava então para a
NASA. Ele propôs que bastaria estudar melhor a atmosfera de Marte ou de qualquer
outro planeta, referente ao qual houvesse dúvidas quanto à existência de alguma
forma de vida. O importante seria verificar se a atmosfera, em sua composição,
se encontrasse próxima ou longe do equilíbrio químico estático. Bastariam
observações espectroscópicas. Não foi escutado e não foi encontrada vida. Não
podia.
O que aconteceria com a atual atmosfera
da Terra se a Vida desaparecesse? Sua composição parece violentar as leis da
química. Sem o reabastecimento da fotossíntese, o oxigênio não duraria mais que
uns poucos milhões de anos. Seria consumido na oxidação das rochas e do
nitrogênio Este acabaria nos oceanos, em forma de nitratos. Os mares não mais
teriam o pH próximo de neutro, propício à Vida, seriam um caldo corrosivo,
altamente ácido. Uma vez que os processos eruptivos estão longe de terem chegado
a seu fim, voltaria a elevar-se a concentração de gás carbônico. A Terra
acabaria quase tão quente quanto Vênus. Os oceanos? Evaporados! O vapor de água
na alta atmosfera seria dissociado pela ação direta dos raios ultravioletas e da
radiação cósmica. O hidrogênio se perderia ao espaço interplanetário, o oxigênio
liberado oxidaria os restos de nitrogênio. O ácido nítrico exporia mais rocha
crua, o oxigênio todo se fixaria em forma de óxidos. Levaria mais tempo que a
fixação do oxigênio da primeira fase, mas, tempo é o que menos falta à Natureza.
Uma atmosfera como a que temos não pode existir num planeta morto.
Portanto, um bom químico que olhasse a
Terra de longe, suficientemente longe para não discernir florestas, cidades,
estradas, somente analisando espectrogramas de nossa atmosfera, se daria logo
conta de que aqui acontece algo de extremamente interessante. A atmosfera da
Terra está muito longe de um equilíbrio químico estático. Este não é o caso de
Vênus, de Mercúrio, Júpiter, de Saturno e dos demais, que parecem perfeitamente
normais quimicamente. Tremendamente fascinado ficaria este químico!
Lovelock, em colaboração com Lynn
Margulis*, preocupado com a não aceitação de sua proposta à NASA, e pensando
mais profundamente no caso, inverteu o enfoque convencional, segundo o qual a
Vida existe na Terra, porque a Terra reúne e mantém as condições certas. Se a
Terra oferece condições adequadas é porque a Vida assim as mantém!
Vejamos o caso da temperatura propícia
aos processos vitais. Em algum momento entre quatro e três e meio bilhões de
anos atrás, a Terra já estava consolidada, as lavas solidificadas, os oceanos
formados, a temperatura estava certa. O Sol era entre 15 e 20% menos quente que
hoje, fato estabelecido, porque o Sol é uma estrela bem normal da "seqüência
geral", cuja evolução é perfeitamente conhecida e calculável pelos cosmólogos.
Se a Terra não era uma bola de gelo é porque ainda tinha muito calor próprio e
porque a atmosfera de então propiciava um forte efeito estufa. Ela estava
constituída principalmente de gás carbônico, metano e amoníaco, com restos de
hidrogênio. A quase totalidade do hidrogênio da primeira atmosfera já se tinha
perdido. Esta atmosfera era de origem eruptiva.
Naquela atmosfera reduzinte começou, e
só nela podia começar, a Vida. Se numa atmosfera oxidante, como a atual,
surgissem as primeiras substâncias orgânicas, elas seriam rapidamente destruídas
pela oxidação. Só numa atmosfera reduzinte elas podem acumular-se. Baseando-se
nas idéias sobre a origem da Vida, de Oparin, Miller, no laboratório de Urey, em
genial experimento, demonstrou como, em balão de vidro contendo água com sais
minerais e uma atmosfera como aquela, fazendo incidir descargas elétricas, após
pouco tempo apareciam carboidratos, aminoácidos e até nucleótidos. Estas são as
peças básicas da química da Vida. Os oceanos devem ter se transformado num caldo
de substâncias orgânicas, cada vez mais rico e sempre mais complicado. Alguns
cientistas falam do "comsomê primordial".
A partir do metano e amoníaco da
Atmosfera, com a energia das descargas elétricas e da radiação, formava-se
sempre mais material orgânico. Com isso diminuia o efeito estufa. Ótimo, o Sol
estava lentamente ficando mais quente.
Deve ter levado pelo menos um bilhão de
anos até que a evolução, inicialmente só bioquímica, acabasse dando origem à
primeira célula de complexidade próxima à de uma bactéria. Dali para diante os
grandes traços da Evolução Orgânica são conhecidos. Os primeiros organismos
unicelulares só podiam alimentar-se da matéria orgânica existente nos oceanos. A
sopa começou a autoconsumir-se. Havia perigo de extinção.
Não demorou, por volta de uns dois e
meio bilhões de anos atrás, veio a solução.
A fotossíntese pertimiu à Vida
sintetizar sua própria matéria orgânica, captando diretamente a energia solar.
Era a solução, mas representava um tremendo perigo: a primeira grande crise de
poluição! O Oxigênio liberado na fotossíntese, para a totalidade dos seres então
existentes, todos anaeróbios, era veneno mortal. Como seria se hoje parecesse e
proliferasse nos oceanos um
* Lynn Margulis é a cientista
americana, microbióloga, que postulou outra síntese fascinante: a teoria que diz
que as células dos organismos superiores, chamadas eucarióticas, são composições
simbióticas nas quais várias células simples, procarióticas, sem núcleo
delimitado nem organelas, como as bactérias, se juntaram dando origem à célula
complexa com diversas organelas e núcleo delimitado. Outra maravilhosa
complementação! organismo que, em processo parecido à fotossíntese liberasse
cloro? Seria o fim de todas as formas superiores de vida. A Vida conseguiu
superar aquela crise. As formas de vida anaeróbia sobrevivem até hoje, no lodo
dos banhados, no fundo da lama dos oceanos e nos intestinos dos animais
superiores; são as bactérias metanogênicas, entre outras, tão úteis nos
biodigestores de biogás. A poluição virou vantagem. A atmosfera inverteu, de
reduzinte para oxidante, tornando possível a maravilha da vida animal, que levou
até o cérebro humano e dos delfins.
Mas o Sol continuava ficando mais
quente. O efeito estufa do metano e amoníaco já quase desaparecera, sobrava o
gás carbônico. Se até hoje temos temperaturas agradáveis - o registro fóssil,
pela determinação da relação oxigênio 16 para oxigênio 18, mostra que as médias
se mantiveram sempre próximas às atuais - é porque a Vida, mais uma vez, achou
solução.
Surgiram, nos oceanos, organismos como
cocolitos e outros microorganismos; surgiram corais, moluscos e outros animais
maiores que fazem carapaças ou estruturas de carbonato de cálcio e magnésio.
Imensas jazidas foram acumuladas. A movimentação tectônica mais tarde ergueu
muitas delas. Nas falésias dramáticas das Dolomitas, no Tirol, e em milhares de
montanhas nos Alpes, Atlas, Andes e demais cordilheiras, estão à vista as
estratificações. Em algumas delas, de um só golpe de vista, podemos observar
milhões de anos de paciente trabalho de deposição. Um dos espetáculos mais
fantásticos deste processo é o Grand Canyon. Foram assim retiradas da Atmosfera
gigantescas quantidades de gás carbônico. Mas não bastou a fixação deste gás em
forma de carbonatos. Outros organismos tiveram que ajudar no trabalho. Surgiram
as primeiras grandes florestas, ainda de plantas no nível evolutivo de musgos e
samambaias, de licopódios, cicadáceas, palmeiras, e muitas formas hoje extintas,
isto, no Período Carbonífero, uns trezentos milhões de anos atrás. Foram
depositadas gigantescas jazidas de carvão mineral e lignito. Em banhados mais
recentes cresceram as turfeiras do norte da Europa, Canadá e Sibéria. Na Escócia
é fácil observar como ainda hoje crescem.
Quanto ao petróleo e o gás natural,
feitos por bactérias, parece haver ainda discordância quanto a época em que se
formaram, possivelmente isto aconteceu ao longo de todo o processo evolutivo.
Parte dele pode ser remanescente do caldo primordial.
Diminuindo sempre a concentração do gás
carbônico na Atmosfera e, com isto, o efeito estufa, foi possível manter
constante e em nível apropriado o âmbito de temperaturas, apesar do aumento
contínuo do calor do Sol. Não fosse este paciente e coordenado trabalho de
bilhões de criaturas através de bilhões de anos, a Terra já seria outra Vênus.
Assim como os organismos dos mamíferos e aves têm um mecanismo homeostático
(equilíbrio auto- regulado) que mantém a temperatura do corpo independente da
temperatura externa, assim a Ecosfera tem sua homeostase térmica própria.
Só quem esta perspectiva alcança
compreende o atrevimento da Sociedade Industrial Moderna ao considerar o
petróleo e gás natural, o carvão, lignito e turfa simples "combustíveis
fósseis".
Longe desta visão imediatista suicida,
com a veneração do verdadeiro naturalista, Margulis e Lovelock, diante do
incomensuravelmente grandioso do quadro, concluiram que o conceito de Ecosfera
precisava ser ampliado.
O novo conceito proposto, que começa a
ser aceito pelos grandes ecólogos e que já conquistou a vanguarda do movimento
ecologista, é o conceito de
G A I A.
A Ecosfera não é um simples sistema
homeostático, automático, químico-mecânico. O Planeta Terra é um sistema vivo,
um organismo vivo com identidade própria, o único de sua espécie que conhecemos.
Se outras gaias existem no Universo, em nossa ou em outras galáxias, serão todas
diferentes. Um sistema vivo tão destacado merece nome próprio. O nome GAIA foi
proposto por William Golding, escritor, e lançado por Lovelock e Margulis. É o
nome que os antigos gregos, em sua cosmovisão bem mais holística que a nossa,
davam à deusa Terra.
É claro que a Terra não é um ser vivo
como uma planta ou um animal individual, que nascem, crescem, se reproduzem,
envelhecem e morrem, mas é um sistema vivo, como o é um bosque, um serrado ou
banhado, porém num nível de organização superior ao destes.
Tornou-se comum a imagem da Terra como
uma nave espacial. É uma figura boa diante da visão convencional, na qual a
Terra é apenas substrato ou palco para a Vida, e a Vida, para nós Humanos, não
passa de recursos. Haja vista nossa atitude diante da Amazônia. Mas a imagem da
nave espacial engana. Uma nave tem passageiros. Em GAIA não há passageiros, tudo
é e todos somos GAIA. Usando outra imagem, não teria sentido dizer que meu
coração ou meu cérebro são passageiros meus. Até a parte mineral, os
continentes, as rochas - do ar e da água já não precisamos falar - são parte
integrante de GAIA, como o caracol ou a concha o são do molusco. Parece que a
deriva dos continentes, causa do vulcanismo e do crescimento de novas montanhas,
enquanto as velhas se desgastam, é pelo menos influenciada também pela
sedimentação no fundo dos oceanos. Os radiolários e as diatomáceas com suas
belíssimas carapaças de sílica, junto com aqueles outros organismos que
depositam cálcio, incluindo certas algas marinhas, fazem deposições de
quilômetros de espessura no fundo dos mares. Com isto se altera o efeito
isolante para o calor do magma e alteram-se as condições de pressão, surgem
aqueles fluxos que movimentam as placas continentais. Esta é a reciclagem que
acaba devolvendo aos continentes os nutrientes perdidos aos oceanos, dando-lhes
rochas novas. Um ciclo que leva uns duzentos milhões de anos.
No organismo de GAIA nós humanos,
individualmente, somos como células de um de seus tecidos. Um tecido que hoje se
apresenta canceroso, mas que, oxalá, ainda tem cura. Já somos os olhos de
GAIA.Com os olhos dos astronautas e nas imagens de satélite, GAIA, pela primeira
vez, viu-se a si mesma em toda sua singela beleza - brancos véus lentamente
espiralando, ora tapando, ora revelando o azul profundo dos oceanos, o amarelo
dos desertos, as diferentes tonalidades de verde; ora confundindo-se com os
pólos.
Poucos, pouquíssimos, dão-se conta do
monumental, não somente em termos de História Humana, mas em termos de História
da Vida, que representa aquela primeira foto de GAIA, ou aquela outra de Meia
GAIA subindo solitária no firmamento, negro como piche, da Lua!
Este é um fato totalmente novo! Um
momento decisivo na vida de GAIA. Uma situação faustiana. O homem, conhecendo
demais, talvez cedo demais, cego de orgulho e com gula incontrolável,
desencadeou um processo de demolição que supera todas as crises
anteriores.
Como vimos no início, ao apontar a hoje
baixa concentração de gás carbônico na atmosfera, a Sociedade Industrial já está
interferindo significativamente, contrariando as tendências de GAIA, em um de
seus importantes sistemas de controle. A concentração antes do alastramento da
industrialização estava próxima de 0,025%. Já conseguimos aumentá-la uns 30% em
menos de 200 anos, uma fração de segundos na escala de tempo de vida de GAIA.
Talvez a razão porque ainda não estamos sentindo conseqüências muito graves seja
só porque, também cegamente, estamos concomitantemente interferindo em outros
mecanismos de controle que têm efeito contrário. Estamos aumentando a
concentração dos aerossóis* e das poeiras no ar que, refletindo radiação solar,
devolvem energia ao espaço.
Aliás, nesta questão do controle
térmico pela diminuição da concentração do gás carbônico, GAIA já estava
chegando a um limite. Já não pode baixar muito mais esta concentração. Por duas
razões muito simples: Se baixar muito mais, as plantas acabarão morrendo à
míngua. Para elas o CO2 é o nutriente principal. Só não é mencionado
nos manuais de adubação dos agrônomos porque está gratuito no ar e ainda não dá
para fazer negócio com ele. A outra razão é que, em termos de diminuição de
efeito estufa já não dá para ganhar quase nada com a concentração baixa como
está. Talvez seja esta a causa da crise climática de Pleistoceno. Neste último
período geológico, durante os últimos três milhões de anos, menos de um dia na
vida de GAIA, tivemos as quatro grandes eras glaciais. Quando um sistema
homeostático bem equilibrado começa a se desequilibrar, antes de entrar em
colapso ou reequilibrar-se, é comum aparecerem vibrações irregulares, com
exageros para ambos os lados. Algo deste tipo pode ter acontecido no
Pleistoceno. Lovelock gostava de dizer que GAIA estava com febre.
Entretanto, após o fim da última grande
glaciação, parece que GAIA já tinha encontrado nova solução**. De lá para cá,um
período muito curto, uns l5.000 anos apenas, minutos na cronologia de GAIA,
alastraram-se as florestas tropicais úmidas no que hoje chamamos Amazônia,
Congo, Índia, Sri Lanca, Bangladesh, Indochina, Indonésia, Oceania, Austrália.
As florestas tropicais úmidas têm uma fantástica evapotranspiração. Da água da
chuva que sobre elas cai, em menos de dois dias até 75% é devolvida à Atmosfera,
formando novas nuvens que voltam a produzir chuva mais adiante. Como mostrou
Salati***, as chuvas que caem nas faldas orientais dos Andes estão constituídas
de água que, em seu caminho desde as primeiras nuvens dos ventos alíseos na
costa Atlântica, caiu e voltou às nuvens entre cinco e sete vezes. As florestas
tropicais úmidas estão sobre o Equador, sua influência climática se exerce sobre
ambos os hemisférios, fato este hoje lindamente ilustrado, como num filme, nas
imagens móveis de satélite nos institutos metereológicos. Ora, estas grandes
florestas, para o clima global, são gigantescos aparelhos de ar condicionado.
Convém lembrar que as comunidades florísticas e os ecossistemas das atuais
florestas tropicais úmidas são muito antigos, evoluiram nos últimos duzentos
milhões de anos, o que é novo é sua presente extensão.
* Não confundir com Clorofluorcarbonos
- CFCs, estes, em geral, são comumente chamados de aerossóis por serem usados
nesta forma. Aerossol se refere à suspensão de pequenas partículas líquidas e/ou
sólidas em um gás, como o é a nuvem.
** Quando usamos este tipo de linguagem
não queremos sugerir que GAIA toma decisões conscientes, é apenas uma pequena
liberdade poética, queremos suscitar emoção.
*** Eneas Salati: Climatólogo da
Universidade de Piracicaba, São Paulo, Brasil, foi chefe do INPA - Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia. Mais uma vez, o homem moderno está
contrariando os desígnios de GAIA. Em toda a parte estão sendo demolidas as
florestas tropicais úmidas, num ritmo que, na década de 80, chegava a alcançar
cem mil quilômetros quadrados ao ano. No caso da Amazônia, se for devastado o
Estado do Pará, coisa que parece certa até logo após o ano 2000, poderá, quem
sabe, ser desencadeado um processo de colapso da grande floresta, pois ela faz
seu próprio clima. Onde a floresta desaparece e é substituída por solo nu ou
capoeira rala, no lugar da evapotranspiração o solo torrado produz ventos
ascencionais quentes. As nuvens se dissolvem, deixa de cair chuva mais adiante.
Mas a Hiléia só pode sobreviver com chuvas copiosas.
Sobrarão recursos para GAIA? Ou vamos
incapacitá-la? Desde 1975 o clima anda meio caótico no Mundo inteiro. Será mau
augúrio?
Por enquanto a intenção expressa da
Sociedade de Consumo é continuar demolindo. A ordem é "desenvolvimento" a
qualquer custo, quer dizer, tudo o que GAIA fez, será substituído por algo feito
pelo Homem, em enfoque imediatista, sem levar em conta os sistemas de controle
de GAIA.
Vejamos um raciocínio muito usado por
aqueles que querem enriquecer na devastação da Amazônia. Atribuem aos defensores
da floresta a afirmação - metafórica- " a Amazônia é o pulmão do Mundo ".
Interpretam-na como sinônimo de fábrica de oxigênio. Desde quando pulmão produz
oxigênio? Pulmão consome oxigênio. Citam, então, corretamente, ecólogos que
mostram que a grande floresta consome exatamente a mesma quantidade de oxigênio
que produz. Portanto, segundo eles, não há problema, não vamos morrer asfixiados
se a Hiléia ficar reduzida a alguns pontinhos no mapa, que serão então chamados
de "reservas ecológicas" ou "bancos genéticos".
Mas, se a Amazônia ou qualquer outro
ecossistema em equilíbrio produzisse muito mais ou muito menos oxigênio do que
consome, GAIA já teria morrido. GAIA, por uma razão muito importante, desde que
inverteu a Atmosfera de reduzinte para oxidante, soube manter sempre a
concentração de oxigênio por volta dos 20%. Concentrações mais baixas tornariam
difícil a vida animal. Uma vez que tudo está ligado com tudo, todas as formas de
vida sofreriam. Por outro lado, concentrações superiores seriam ainda mais
perigosas. Facilmente levariam a um holocausto. Já em 25% até folhas verdes,
mesmo molhadas, queimariam como papel. Qualquer raio acabaria com toda uma
amazônia. é por isso que no avião, quando baixam as máscaras de oxigênio, fica
terminantemente proibido fumar. Concentração muito alta de oxigênio poderia,
talvez, até levar a um incêndio da própria Atmosfera. Quando os físicos de Los
Alamos dispararam a primeira bomba nuclear, sabendo que as temperaturas
alcançariam milhões de graus, tinham um medo louco, justamente disto. Assim
mesmo, bons aprendizes de feiticeiros que eram, não se contiveram. Felizmente
nada aconteceu*.
O equilíbrio aproximado entre produção
e consumo de oxigênio, sozinho, não seria suficiente. Sempre há os ecossistemas
em fase inicial de sucessão ecológica que podem produzir muito mais oxigênio que
o que consomem. Os grandes incêndios, por outro lado, nada produzem, só
consomem. Inevitáveis seriam flutuações que poderiam tornar-se perigosas. Mas
GAIA, com timoneiros precisamente ajustados controla os grandes e pequenos
ciclos bio-geo-químicos.
* Este texto foi escrito em 86.
Recentemente me contou um físico que, o que eles temiam não era a combustão
química da atmosfera e sim a combustão nuclear do hidrogênio da água da
atmosfera. Eles eram bons físicos, mas não entendiam de química. Recém
estamos descobrindo estes sistemas. No caso do ciclo do oxigênio está envolvido
o metano, hoje gás raro na Atmosfera e que é produzido por aqueles organismos
que conseguiram sobreviver à inversão da atmosfera, retirando-se para os lodos
anaeróbios e para o intestino dos animais. o Homem já se encarrega de dar um
jeito nisso também. São poucos os banhados no Planeta que não estão ameaçados de
"saneamento".
Muito poderia ser dito sobre os demais
gases menores, como o ozônio,os óxidos de nitrogênio e de enxofre, do amoníaco,
do monóxido de carbono e dos compostos de metila, cada um com sua função
definida. Alguns destes ciclos, todos acionados por seres vivos, especialmente
microorganismos no mar e no solo, ou por determinadas algas marinhas nas
plataformas continentais, têm a ver com outro importante equilíbrio vital - a
manutenção da salinidade dos mares em aproximadamente 3%. A origem dos sais no
Oceano é a meteorização das rochas. Os óxidos insolúveis acabam formando solo
ou, quando são levados pela erosão, vão formar sedimento no fundo do mar, mas os
sais solúveis - quando não retidos nos processos vitais - são todos levados ao
mar, onde ficam em solução, especialmente o cloreto de sódio. Mas, a evaporação
na superfície dos mares que faz as nuvens, só leva aos continentes água
destilada. Como se explica, então, que o Oceano já não está tão morto como o Mar
Morto no Jordão? Esta é outra linda história que começa a ser desvendada.
Será mesmo acaso tudo isto, como quer a
Ciência Moderna que não aceita fins, alvos, intenção no Comportamento do
Universo, que postula apenas acaso no surgimento da Sinfonia da Evolução
Orgânica, este processo caprichoso que deu origem a milhões de espécies - nós
entre elas - de animais, plantas, fungos, protozoários, bactérias, fagos e
vírus, em interação multifacetada unitária, uma integração sinergística que
nossas melhores cabeças cibernéticas com suas baterias de computadores jamais
poderiam ter concebido e cuja beleza a Ecologia apenas vislumbra ?
Por isso, não pode ser verdade aquela
idéia fundamental atribuída a Darwin de que na Seleção Natural vence sempre o
mais forte, sucumbindo os mais fracos - idéia que muito agrada àqueles que têm
ambição de poder, de controle, de dominação. Quanto mais nos aprofundamos na
Ecologia, mais nos damos conta que sobrevive o mais ajustado, o que mais
harmoniza, que mais ressonância tem com a Sinfonia, entre eles criaturas tão
delicadas, tão frágeis e vulneráveis como a orquídea e o beija-flor, a
sarracênia e a perereca.
A integração é mesmo anterior ao
nascimento do Sistema Solar que já nasceu um bilhão de anos antes do nascimento
de GAIA. Não tivesse o Sol com sua coorte de planetas, luas, asteróides e
cometas, ao condensar-se de nuvens de gases intersiderais, captado também certa
porção de cinzas da explosão de alguma supernova que ocorreu centenas de milhões
ou alguns bilhões de anos antes - o Universo tem idade para isto - não teríamos
aqui todos os elementos que formam montanhas, mares e ar e dos quais a Vida não
pode prescindir, os planetas seriam simples bolas de gás, principalmente
hidrogênio e hélio.
Será mesmo acaso tudo isto? Que divino
acaso!
Se bem que na Biologia tudo parece ser
intencional - o ovo não teria sentido, não fosse para dar origem ao pinto - a
maioria dos biólogos tem horror a qualquer sugestão de alvo, de finalidade
preconcebida no maravilhoso processo da Evolução Orgânica. Tom Berry, que
mereceria ser chamado de "o teólogo da Ecologia", costuma dizer: "It is not
intentional, it is not directed, it is creative." (A coisa não é intencional,
não é dirigida, é criativa).
Mas o que vamos fazer primeiro:
desvendar esta Maravilha, ou vamos continuar como um câncer no organismo de
GAIA, devastando, fazendo extinções em massa, toxificando até que não haja
volta?
Quando daquela ameaça mortal que foi a
crise da poluição do oxigênio, que quase extinguiu as formas de vida então
existentes, GAIA, em vez de sucumbir, soube tirar proveito. Transformou um
inimigo feroz em poderoso aliado, fator de mais vida, de vida mais complexa,
mais perfeita, mais diversificada, mais harmônica - uma estonteante
transcendência!
Estaremos, quem sabe, dois e meio
bilhões de anos mais tarde - o tempo necessário para que evoluísse uma das
coisas mais complicadas que GAIA até agora produziu: o cérebro humano - diante
de uma nova transcendência?
Neste momento, nosso comportamento
canceroso representa um perigo mortal para GAIA. Mas isto não é inevitável. Se
soubermos usar sabiamente o potencial intelectual que ela nos propiciou, assim
como a fabulosa tecnologia que daí surgiu, poderemos até mesmo assumir o
controle consciente de GAIA. Sistema nervoso autônomo GAIA já tem, seríamos a
massa cinzenta do cérebro de GAIA. A moderna eletrônica, com seus computadores
sempre mais perspicazes, comunicação global instantânea por satélite, já começa
a estruturar algo que quase poderia tornar-se um meta-sistema-nervoso
planetário. Mas o conteúdo deste fluxo nervoso terá que mudar. Se conseguirmos
esquecer nossas querelas, acabar com a prostituição da Ciência para a demolição
da Vida e para os delírios da corrida armamentista e da "guerra nas estrelas",
se conseguirmos colocar nosso gênio em ressonância com GAIA, só o futuro poderá
dizer das alturas alcançáveis.
Entretanto, a continuar a cacofonia
atual, o desastre será total. Para nós! Talvez nem tanto para GAIA. GAIA tem
muitos recursos, tem muito tempo. Com novas formas de vida encontrará saída.
Sobram-lhe ainda uns cinco bilhões de anos até que o Sol, em sua penúltima fase
evolutiva, ao tornar-se "gigante vermelho", venha expandir-se até aqui, antes de
apagar-se lentamente. GAIA será recirculada nos gases incandescentes do Sol,
assim como cada um de nós seremos recirculados no solo.
E as conseqüências éticas, filosóficas,
religiosas de tudo isto?
Pena que as Igrejas não atinem. O índio
atinava!

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