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ECOLOGIA INTEGRAL É A SAÍDA PARA O PLANETA

Roberto Crema *

O século 20 presenciou grandes violências do homem contra o planeta: guerras, desmatamentos, poluição, crescimento demográfico desordenado e toda uma série de agressões ambientais. Mas a crise também leva a humanidade a questionar-se. Qual o papel do homem na natureza? É possível falar em ecologia sem tocar nas desigualdades sociais, nos embates do homem sobre si mesmo? Os avanços estão aí: cobra-se o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social das empresas; Organizações Não-Governamentais realizam ações locais que pensam o global; novas legislações orientam os governos. Os ambientalistas querem a ecologia integral. O psicólogo e antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, Roberto Crema, fala para o Tempo da Terra sobre esse momento de crise interior, social e ambiental em que vivemos. Vice-reitor da Universidade Holística Internacional de Brasília (Unipaz), Crema realiza programas de Educação para a Paz, reconhecidos pela Unesco.

Você costuma afirmar que "a Terra não nos pertence. Nós é que pertencemos à Terra". Como encarar esse relacionamento em épocas de tanta degradação social e ambiental? É uma utopia?

Roberto Crema: Utopia não é o irrealizável, é o ainda não realizado, aquilo que não tem espaço para realização. Mais do que nunca necessitamos de utopias justas em tempo de demolição, o que nós estamos vivendo. Para fazer frente à crise global, necessitamos de uma resposta integral da inteligência humana. Um ser humano pleno, inteiro, verdadeiro é a maior utopia de nossos tempos. Precisamos conspirar pela atualização do vasto e quase desconhecido potencial de nossa espécie. O ser humano tem sido o problema. Ele pode ser, também, a solução. Como os povos nativos bem sabem, a Terra é a nossa mãe e nós deveríamos ser os seus guardiões. Quando ela se transforma em mera propriedade, criamos os infindáveis conflitos, advindos das fronteiras artificiais, fonte de exclusões e de injustiças. O Oriente Médio é um bom exemplo desta insanidade.

O senhor interpreta nossa crise global como a "Crise da Crisálida". O que significa isso?

Roberto Crema: A crise tem sempre uma dimensão instrutiva e é, sempre, uma oportunidade de aprendizagem, de evolução, de crescimento. Somos privilegiados porque essa é a grande crise, talvez uma crise sem precedentes na história da humanidade conhecida. É um momento de passagem e aquilo que para algumas pessoas distraídas é a morte da lagarta, para as pessoas mais atentas é o nascimento da borboleta. É por isso que gosto de denominar essa crise de Crise da Crisálida.

Ecomo diz um grande amigo e mestre Jean-Yves Leloup, "não é esmagando a lagarta que faremos nascer a borboleta". Nós somos transeuntes, passageiros de um tempo de tramutação consciencial, de nossos valores, dos conceitos e das nossas atitudes. E todos nós somos convocados para ser aquilo que somos. Todos somos líderes natos; todas as pessoas que eu conheci na minha existência, todas foram e são líderes.

A Unipaz desenvolve, hoje, estudos sobre a ecologia humana. Quais as diretrizes que eles apontam?

Roberto Crema: Há 15 anos estamos nos pautando por uma consciência de ecologia profunda, que se expressa numa trindade interligada: ecologia individual, social e ambiental. Como diz o poeta TT Catalão, "o meio ambiente começa no meio da gente..." Cada ser humano é um microcosmo, e é no coração deste pequeno mundo que o macrocosmo nos confiou que devemos iniciar a tarefa do cuidado ecológico. Depois se deve expandi-la na direção do tecido social, ao qual pertencemos. É sempre bom lembrar que saúde, em sociedade, se chama justiça. Então, naturalmente cuidaremos da ecologia ambiental, o lar onde habitamos. A destruição dos ecossistemas planetários é um sintoma que indica os nossos descaminhos individuais e sociais. Por isso temos programas e projetos visando o despertar e o atuar, terapeuticamente, ao contexto de todas estas ecologias, sempre lembrando que a transformação do mundo tem início em nossos próprios corações. Todos precisamos ser ativistas entusiastas e cuidadores, assumindo a responsabilidade que nos cabe.

Geralmente, pessoas com muitos anos de luta ambiental chegam à seguinte conclusão: é preciso buscar a auto-estima elevada nos ambientalistas. Isso é a chave da mobilização social para eles. Como o senhor interpreta isso?

Roberto Crema: Nós não podemos cuidar do próximo e da natureza se nos descuidarmos de nós mesmos, naturalmente. Todos somos filhos e filhas de uma promessa que fizemos e estamos aqui para trazer uma contribuição singular, uma palavra original, uma ação própria. Investir nos talentos que nos foram confiados é o primeiro passo para nos tornarmos agente de saúde e de transformação. A injustiça social e a degradação ambiental têm início na degeneração de nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações. Quando colocamos ordem, equilíbrio e harmonia em nosso interior, naturalmente, iremos transpirar esta conquista e inspiraremos outros a trilharem ruma a esta tarefa higiênica prioritária.

Se é verdade que nos libertamos no encontro, como o homem poderá libertar-se num encontro com a natureza?

Roberto Crema: Gosto de afirmar que ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma no encontro. O encontro é o espaço alquímico de cura e de evolução. O encontro consigo mesmo, através do autoconhecimento; o encontro com o outro e sua alteridade que nos fecunda; o encontro com a grande natureza e com o próprio mistério que, convocado ou não, reconhecido ou não, sempre está presente; eis a arena vasta e maravilhosa do encontro, este mestre da existência plena.

A condição de cidadania é uma condição de pertencimento. Como o senhor avalia essa condição no panorama brasileiro?

Roberto Crema: O Brasil é uma terra de imensos potenciais, e o maior patrimônio de nosso povo é a fraternidade, apesar das crescentes contradições e de toda onda de violência, injustiça e de corrupção que testemunhamos a todo instante. Aqui, as mais diversas etnias, religiões e culturas convivem pacificamente, um bom exemplo para esta humanidade perturbada e ensangüentada. Somos o novo mundo, temos menos a desaprender! O português aprendeu a tomar banho com os índios e a dançar com os negros e tudo resultou neste samba maravilhoso do crioulo doido, que temos que exportar, juntamente com o abraço, o mutirão, a capoeira e o acarajé!... Quando me perguntam o que é transdisciplinaridade, eis a resposta mais simples que me ocorre: é sair do cacoete para o samba! E isto nós temos a ensinar para o mundo.

Em Minas Gerais percebe-se com intensidade um esforço por consolidação de parcerias entre o poder público, sociedade civil e iniciativa privada para ações ambientais. Isso faz parte de uma mudança de mentalidade civilizatória?

Roberto Crema: O século 19 enfatizou, de forma obsessiva, o tema da competição. Darwin apontou para a competição entre as espécies; Marx, para os conflitos entre as classes; e Freud, para a guerra entre as potências psíquicas, entre instinto e civilização. Competitividade passou a ser uma fascinação excludente e dilacerante: para um ganhar, o outro precisa perder. Basta olhar para o cenário hipnótico da Copa do Mundo. E agora, diante de um abismo que pode ser fatal para a sobrevivência das novas gerações, precisamos aprender o sentido de palavras esquecidas, como cooperação, parceria, sinergia, amor. Precisamos aprender com os bandidos que, após um primeiro breve encontro, já trocam cartões, figurinhas, iniciando as negociatas. Os que lutam pela paz e integridade têm sido muito lentos nesta prática de agregação, trocas e de mutualidade. Neste sentido, é muito bom constatar o início de integração e dialogicidade destes três setores de uma mesma sociedade. Só uma rede de amor pode fazer frente à rede de terror, esta face tenebrosa e tão presente neste início de século e de milênio.

O senhor acredita que as pessoas mais revolucionárias são as que não temem em falar do espírito em lugares públicos. Que relação há entre isso e a ecologia humana?

Roberto Crema: Quando eu falo em espiritualidade, não estou me referindo a nenhuma igreja, a nenhuma religião particular, embora respeite todas. Refiro-me à espiritualidade como o fazia Einstein, apontando para uma vivência cósmica; ou, ainda, outro físico contemporâneo, Fritijof Capra, que denominou seu penúltimo livro de Pertencendo ao Universo. Espiritualidade é uma consciência não-dual, uma consciência de participação, da parte no todo, que na essência é o amor, e na prática é solidariedade. Uma pessoa que despertou para essa dimensão espiritual é uma pessoa que não se vê separada do outro, da comunidade e do Universo. Eu pergunto: em sã consciência, você colocaria fogo no seu corpo? Se você sente-se não-separado do outro, você jogaria fogo em alguém que está dormindo num banco? E se você se sente não-separado da natureza, você iria empestá-la, destruir ecossistemas por uma neurose de progresso compulsivo, que foi decantada no século passado por Comte e que, agora, testemunhamos o lado sombrio dessa religião do progresso a qualquer custo, progresso a custa da hecatombe? Você empestaria a natureza se você se sentisse não-separado dela?

Autoconhecimento e ecologia caminham lado a lado?

Roberto Crema: Sem sombra de dúvida. Nestes últimos séculos temos investido, de forma unilateral, no mundo da matéria, e os frutos são notáveis, sintetizados na tecnociência maravilhosa que dispomos. A grande tragédia, entretanto, é que não houve praticamente nenhum investimento significativo no mundo da subjetividade, da alma, da ética, da consciência, da essência. O resultado encontra-se nos noticiários tristes e apocalípticos de cada dia: escalada de violência e guerras infindáveis; a exclusão desumana de uma maioria, que morre de fome, por uma minoria, que morre de medo; extinção em massa de espécies; rota da colisão do ser humano com a natureza e todo tipo de aplicações tecnológicas irresponsáveis. O investimento maciço na alma é a única estratégia que poderá viabilizar a perpetuação, com qualidade e dignidade de nossa espécie. Antigas e esquecidas lições: para que serve ganhar o mundo inteiro se você perdeu a sua alma, se você se perdeu de si mesmo, se você se esqueceu do ser que lhe faz ser? Felizmente, crise é também oportunidade de aprender e de evoluir. Gosto de confiar que o ser humano será a maior descoberta do terceiro milênio!

*Fonte: Tempo da Terra/ Jornal O Tempo - 05/07/2002
Página 4 - Entrevista

 

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