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A NORMALIDADE QUE FAZ MAL

Jorge Carlos Costa

    Neologismo criado por Jean-Yves Leloup, um dos pioneiros da psicologia transpessoal na Europa, o termo NORMOSE remete à perigosa realidade em que o hábito nocivo torna-se a norma de consenso. O resultado pode ser a doença, a destruição e a morte.

    No começo eu interpretava o termo com certa conotação humorística. Percebia que esse sentimento era reforçado pelos sorrisos ou risos do público, quando empregava a expressão em minhas conferências. Aos poucos, porém, dei-me conta de que essa palavra representa, na realidade, um conceito fundamental para a psicologia, a sociologia, a antropologia cultural e a educação, entre outras áreas. Efetivamente, a normose é uma das origens das nossas frustrações, sofrimentos e morte. Mas como se formou ela? Quais os seus contornos?

    Quando todos estão de acordo em relação a uma opinião, atitude ou ação, forma-se um hábito. A grande maioria de nossos hábitos resulta de normas que adotamos de forma mais ou menos consciente, pela imitação de nossos pais e educadores ou - como diria Freud - por um processo de introjeção. Levantar, lavar o corpo, comer nas horas certas,trabalhar são hábitos que derivam de prescrições sociais bem definidas.

    Essas, em geral, tem a função de preservar nosso equilíbrio físico, emocional e mental, assim como a harmonia e a sobrevivência da sociedade em que vivemos. Algumas produzem sofrimento, doenças ou mesmo morte. Entretanto, como resultam de um consenso, são adotadas pela maioria, ou mesmo por todos, pois as pessoas não tem consciência de seu carater anormal. Essa é uma característica patológica das regras.

    Quando algumas são questionadas, por causa de suas características patológicas, pode haver dissolução e mudança de comportamentos, embora isso raramente aconteça. A mudança de atitude das pessoas em relação ao hábito de fumar é um exemplo. Fumar era considerado um símbolo de masculinidade. Quanto mais forte fosse o tabaco, mais viril e "macho" seria o homem. O cigarro significava também «status» social, riqueza e conforto. Fumar cachimbo evocava um estado de profunda reflexão.

    Na medida em que foram descobertos os efeitos cancerígenos e respiratórios do fumo, começaram a aparecer nos aviões - e depois nos lugares públicos - os avisos de «proibido fumar», prática rapidamente difundida em quase todo o mundo. Surgiram as novas legislações, que obrigaram os fabricantes a alertar o público sobre os efeitos nocivos do cigarro. Felizmente, assistimos agora ao fim dessa normalidade patológica.

    O exemplo do cigarro proporciona uma certa compreensão e a possibilidade de aprofundar o sentido desse neologismo. Inicialmente, há o fato de que era considerado «normal», o que introduz a noção de normalidade. Existia também um consenso em torno do ato de fumar, que era valorizado como sinal de masculinidade. Essa característica está explícita na propaganda de certa marca de cigarro, em que os fumantes são representados como cawboys. Além disso, fumar é um comportamento estimulado por um sistema de valores e atitudes que, no nosso caso, giram em torno da virilidade e da sensualidade.

    Entretanto, nem todos os comportamentos normais podem ser considerados normose patológica. Para que haja normose, é necessário a presença de uma consequência nociva; é preciso que as normas de comportamento levem ao sofrimento, à doença e até mesmo à morte. No nosso caso, o tabagismo provoca doenças pulmonares, reduzindo, em média, seis anos na expectativa de vida. Podemos, então, definir a normose como um conjunto de valores, atitudes e comportamentos habituais, que levam ao sofrimento físico ou moral, à doença ou à morte. Além disso, esse conjunto ou sistema é reforçado por um consenso social, que o coloca na categoria da normalidade.

    Podem se distinguir duas grandes categorias de normose, em  função do  meio em que elas são criadas e desenvolvidas: as normoses gerais e as socioculturais. As gerais são as que afetam toda a humanidade, independentemente da sociedade ou cultura. O hábito de fumar pode ser considerado uma normose geral, pois aparece em praticamente todas as culturas atuais. As normoses socioculturais são as que se limitam a uma cultura ou a uma dada camada econômica. Manifestam-se nas principais atividades humanas, como a comunicação, as ciências, a tecnologia, a mídia, o direito, a agricultura, o meio ambiente e a ecologia.

    Uma característica comum as normoses é seu carater automático e inconsciente. Podemos falar, nesse caso, de um "espírito de boiada". A grande maioria dos seres humanos, talvez por comodismo, segue e repete o que dizem os jornais e a televisão; está impresso, então deve ser verdade. Muitos outros aderem a uma religião ou partido político, porque é a moda, ou para serem bem-vistos. Assim, acaba ocorrendo uma forma sutil de manipulação de opiniões, bem como uma mudança de sistemas de valores. Nessa linha de pensamento, podemos concluir que toda normose é uma forma de alienação. As normoses facilitam a instalação de regimes totalitários ou sistemas de dominação.

    Nas empresas, o autômato não dá o alarme quando necessário. Um burocrata pode simplesmente

seguir normas e regras, mesmo que ao fazê-lo corra o risco de levar a organização à ruina. Nas religiões, o normótico é com frequência um excelente praticante de rituais e leis, mas está cego e não sabe o que faz. Os crimes da Santa Inquisição perpetuam-se até nossos dias, sob a forma das atividade ritualísticas de certas seitas satânicas. Daí a importância de conscientizar os educadores quanto à sua responsabilidade, pois em suas mãos está a possibilidade de formar tanto autômatos condicionados e normóticos quanto homens lúcidos.

    A automatose pode ser dissolvida por meio da conscientização. Trata-se, também, de um encontro com a liberdade. O homem que segue cegamente as normas torna-se escravo delas. Quando aprende a escutar a voz interior da sabedoria, torna-se verdadeiramente livre.

    Em cada ser humano encontramos a nostalgia de uma felicidade completa, permanente, absoluta. Estamos seguros de que ela existe em algum lugar, mas não sabemos onde. Em geral, nós a procuramos fora de nós mesmos, numa amizade, num casamento ou religião. Mas não a encontramos e, quanto mais isso acontece, mais infelizes nos tornamos. Essa infelicidade aumenta ainda mais pela influência de uma série de fatores, a que demos o nome de «neurose do paraiso perdido». Está simbolizado no Gênesis, sob a forma do mito do paraiso, da árvore da vida e do conhecimento, e da queda de Adão. Há também descrições detalhadas e claras na ioga hindu e budista.

    Trata-se de um círculo vicioso, uma compulsão repetitiva, uma sucessão de causas e efeitos que se retroalimentam. É extremamente dificil sair desse círculo sem uma tomada de consciência do processo, que começa pela informação geral sobre o seu funcionamento. Essa informação já tem por si mesma um efeito terapêutico. Mas quais são as fases sucessivas do desenvolvimento desses fatores, que podemos chamar abreviadamente de NPP?

    A NPP (Normose do Paraiso Perdido) se forma a partir de uma fantasia: a separatividade. Trata-se de uma miragem, de uma ilusão fundamental, que faz com que nos percebamos como seres separados do resto do mundo. Em algumas de nossas vivências e conferências, pedimos aos participantes que nos mostrem a natureza. A reação imediata da maioria é apontar o dedo para fora, para uma janela, por exemplo. Esse gesto representa o começo de toda a espécie de sofrimento, até mesmo do suicídio da humanidade. Exprime uma ilusão de percepção, que em filosofia se chama dualidade. A dualidade divide o real em sujeito e objeto. Há o "eu" e o "mundo", o "universo"; o "observador" e o "objeto observado"; o "conhecedor" e o "conhecimento".

    Até bem pouco tempo, essa separatividade era adotada pela ciência. Constituia um dogma ou, ao menos, um dos principais fundamentos da metodologia  experimental, tecnológica ou teórica. A "objetividade" era condição essencial do método científico. Chegou mesmo a resultar numa espécie de eliminação do sujeito, como observa Edgar Morin. A mecânica quântica revela que essa eliminação é um equívoco, que é impossivel separar o sujeito do objeto da observação. Mais do que isso, a física quântica também tende a mostrar-nos que tudo no universo é formado de energia, que todos os sistemas são constituidos pela mesma energia. Resulta, assim, que a separação entre o homem e o universo é artificial.

    Um novo ramo da psicologia, a psicologia transpessoal, mostra-nos a existência de um estado de consciência em que desaparece toda espécie de dualidade. A experiência e o estado transpessoal podem ser encontrados em todas as culturas, civilizações e épocas da história, sob diferentes denominações. Mas suas descrições, quando existem, são compatíveis entre si. Tudo indica que nosso estado de consciência de vigília não é totalmente desperto. Nele está a origem da fantasia da separatividade. O estado de vigília é denominado pelas cinco sensações e pelo raciocínio lógico formal. A ciência atual é o resultado de um conhecimento fundamentado exclusivamente nesse estado de consciência.

    Podemos mesmo questionr até que ponto a fantasia da separatividade, sob a forma de objetividade científica, não seria a base da desumanização da ciência, da tecnologia, da educação. Nesta linha, ela seria também responsavel pelo desaparecimento dos valores éticos, com consequências desastrosas.

    Outro resultado dessa visão, que se baseia no antigo mas ainda atual paradigma newtoniano-cartesiano, é a crise de fragmentação por que passa toda a civilização industrial. Comportamo-nos como ondas, que se esqueceram de que são o mar. Assim, a destruição se instala a partir - e em decorrência - da fantasia da separatividade. É quando a NPP entra em ação.

    A fantasia da separatividade é um fenômeno individual. Contudo, como a maior parte da humanidade é submissa a essa ilusão, forma-se um consenso que a reforça radicalmente. Constitui-se, assim, uma miragem coletiva. É desse modo que o princípio da objetividade da ciência torna-se um dogma quase inviolavel. Enquanto esperamos que a humanidade se dê conta dessa ilusão fundamental, suas consequências continuam a se propagar, tanto no plano individual como no coletivo. Por causa da separatividade nós nos percebemos como sujeitos sólidos, em relação de conhecimento e ação com objetos exteriores, também percebidos como sólidos e permanentes. Isso faz com que comecemos, em função de nossas sensações de dor e prazer, a classificar esses objetos em tres

categorias: agradáveis, desagradáveis e indiferentes.

    Todos nós estamos mais ou menos presos no círculo vicioso da repetição compulsiva. É o que a ioga chama de "roda do carma", ou "roda de samsara" e que traduzimos para o conceito de neurose do paraiso perdido. É facil constatar que a NPP é uma normose. A fantasia da separatividade, por meio da divisão sujeito-objeto, leva-nos a atitudes de apêgo, rejeição ou ignorância dos objetos, que são vistos como externos. Isso nos leva a comportamentos agressivos e/ou possessivos, que são habituais e repetitivos. A fantasia da separatividade é reforçada por um consenso. Então, certas atitudes e comportamentos, considerados normais, acabam fazendo parte de uma "normalidade" que nos conduz ao sofrimento moral e físico.

    No domínio da saude, encontramos populações inteiras, vítimas de normoses patológicas e algumas vezes letais. As crianças no Brasil perdem os dentes muito cedo, por causa do consumo excessivo de açúcar. O alcoolismo é o fruto de uma normose muito bem estruturada nos paises vinícolas. O aperitivo "abre o apetite", o vinho "faz bem à saude", sobretudo quando se toma um copo todos os dias durante as refeições. Os licores são obrigatórios para acompanhar o café.

    A utilização de agrotóxicos é fruto de um consenso tecnológico reforçado pela mídia, bem como pelos estabelecimentos agrícolas. É sabido que seu uso resulta em graves doenças. Até o começo do século, a naturopatia era a regra na medicina. Com a industrialização dos medicamentos, a normalidade tecnológica industrial se estabeleceu. Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação coerente dessa mudança. Se é verdade que, a curto ou médio prazos, numerosos medicamentos contribuem para a cura, seus efeitos iatrogênicos levantaram a questão, bem mais complexa, de que existe uma anomalia nessa normalidade.

    Há uma infinidade de questões em relação à saude: o consumo da carne, a utilização da chupeta, a idade do desmame, a mãe que trabalha, a hiperautoridade do médico, a focalização da doença e não da saude na formação dos profissionais da medicina. São necessárias numerosas pesquisas para responder a essas questões.

    Mas é sobretudo na educação que as normoses são transmitidas e se instalam, seja pelo exemplo dos pais e educadores, seja por meio dos programas escolares. Nessa área existe uma normose essencial, que parece dominar muitos dos métodos pedagógicos ocidentais: seu caráter culpabilizante. Até que ponto o superego rígido, identificado pela psicanálise, não seria a causa de muitas normoses? Até que ponto as neuroses podem ser consideradas normoses?

    No plano político, uma normose afetou seriamente o lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O ideal da fraternidade, equivalente ao amor universal e à amizade entre todos os homens, foi abandonado. Nos dias de hoje, ele foi relegado à religião. O capitalismo rejeita o ideal de igualdade para todos, mas enfatiza a liberdade. O comunismo, por sua vez, suprimiu a liberdade em nome da igualdade. Assim, a política separou-se dos valores éticos, transformou-se num terreno de luta pelo poder, que às vezes termina em violência e guerra.

    Podemos assim levantar a questão: os nacionalismos não seriam uma forma de normose, já que são uma evidente causa de guerras? Parece que a crença na propriedade de territórios, pelas nações, seria um prolongamento, uma extensão, do apego e da possessividade próprias da NPP. Essa normose fundamental, que é a do paraiso perdido, é aqui vista no plano coletivo. Podemos estendê-la à maioria das religiões que, como as nações, acreditam-se superiores umas às outras. Em vez de terras, crêem-se proprietárias da verdade.

    Por sua vez a ciência e a tecnologia, como foi dito,são dominadas pela fantasia da separatividade. Esta se encontra na base de uma crença, que poderíamos chamar de superstição científica por excelência: a objetividade. Trata-se de um engodo, denunciado pela física quântica e pela psicologia transpessoal. Assim,o antigo paradigma newtoniano-cartesiano é o responsavel indireto pela NPP.

    Por causa da fragmentação, desenvolveram-se disciplinas praticamente independentes, transformadas pelas universidades em novas torres de Babel. Eis por que a Unesco, na declaração de Veneza de 1986, recomenda a trans-disciplinaridade; quer dizer, o reencontro complementar da ciência, da filosofia, da arte e da educação. É indispensavel que a ciência e a tecnologia se submetam a uma ética, que deverá nascer no coração de cada cientista. Somente por meio dessas condições poderemos salvar a vida neste planeta.

 

    A Peste do Século

 

    A humanidade esteve diante das mais diversas pestes e doenças, mas creio que nenhuma foi tão sutil quanto a normose. Este foi o termo criado por Jean Yves Leloup para definir, não uma nova moléstia física, mas um tipo de comportamento moderno intensamente destrutivo e hostil.

    Normose seria a doença que faz com que o indivíduo aceite comportamentos nocivos ou aja por sobre um plano ilusório de uma maneira normal. O sujeito se acostuma tanto com determinada situação que nem pensa em questioná-la. Ela passa a fazer parte do cotidiano, mesmo trazendo prejuízos significativos.

    Normose é assistir a escândalos políticos como corrupção e desvios de recursos de uma maneira normal. Embora reivindicações por mudanças sejam constantes, ficamos só no discurso. Ao invés de curar o mal pela raiz, somos tentados a simplesmente desviar do problema. Passiva, a sociedade aguarda providências das "autoridades" as quais, quem sabe, nunca chegarão.

    A falta de ética dos ambiciosos e o comodismo generalizado inibe credibilidade e bom senso, restringindo a iniciativa e o trabalho criador necessário a uma sociedade próspera e equilibrada. E isto não acontece somente no meio político-social.

    A normose é um mal que avassala o mundo inteiro, penetrando também em nossos lares, onde tanto somos influenciados pelas chamadas "propagandas enganosas" da mídia, como tornamo-nos vítimas de maus hábitos e modismos que denigrem cultura e valores sociais.

    Num mundo repleto de superficialidades, tornou-se comum assimilar referências vazias e sem sentido. Obsessão por consumo e manutenção de "status" são algumas condutas sutilmente interiorizadas, mesmo sem significado real para nosso próprio crescimento. Adquirimos padrões duvidosos apenas porque são considerados normais.

    A normose também está na sexualidade. A revolução cultural, mesmo rompendo com antigos e rígidos padrões de relacionamento, acabou por incentivar situações fúteis e passageiras. Tentando resgatar liberdade e sensualidade, muita gente acabou por trocar intimidade e espontaneidade por indiferença e promiscuidade. Substituímos inconscientemente nossos próprios valores, aderindo às transformações de uma maneira inerte - normal.

    Bem, sei que não é fácil exercitar autoconsciência frente a tantos estímulos. Mas, com sabedoria e vontade de crescer poderemos banir a normose, caminhando equilibradamente rumo a um futuro próspero, onde o progresso seja não só o resultado de transformações urgentes e transitórias, mas sobretudo baseado em valores sólidos e conscientes.

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