Capítulo Sete
O ARHAT
1. Aquele que rompeu os grilhões e se
libertou em todos os aspectos é livre de sofrimento ; para ele não há dor ; ele
completou sua jornada[1]. (90)
2. Os que têm pensamentos elevados
fazem esforços. Eles não se satisfazem com lugar algum. Eles deixam sua casa e
seu lar como os cisnes abandonam seu lago. (91)
3. Aqueles que não têm propriedades
pessoais, que se alimentam de acordo com o melhor conhecimento e alcançam a
meta da liberdade ao perceber que a vida é vazia e transitória — têm uma
trajetória tão difícil de identificar como o vôo dos pássaros no céu. (92)
4. Aquele cujos desejos foram
eliminados e que é indiferente à comida, que percebeu a meta da liberdade ao
compreender que a vida é vazia e transitória — tem uma trajetória tão difícil
de identificar como o vôo dos pássaros no céu. (93)
5. Até os deuses invejam aquele cujos
sentidos estão dominados como cavalos bem treinados pelo condutor, aquele que
é livre de orgulho e livre de perversões. (94)
6. Para aquele que é paciente como a
terra, firme como o raio de Indra[2] e semelhante a um lago livre de lama – para ele
não existe a roda de nascimentos e mortes. (95)
7. Calmo em seus pensamentos, calmo ao
falar, calmo nas ações, assim é aquele que obteve liberdade através do
verdadeiro conhecimento. Ele se tornou tranquilo. Ele está pleno de repouso.
(96)
8. O homem que não é crédulo, que
cortou todos os laços, que matou todos os desejos, para quem mesmo as situações
em que se age por atração ou repulsão já não surgem, que conhece o
sempre-existente não-criado, ele, de fato, é elevado entre os homens. (97)
9. Agradável é o lugar onde moram os
Arhats, seja uma vila ou uma floresta, seja em águas profundas ou à margem do
deserto. (98)
10. Agradáveis são as florestas para o
Arhat ; elas não parecem encantadoras para os que são mundanos. Nas florestas,
os que estão livres de paixões encontram contentamento, porque eles não estão
iludidos pela vida dos sentidos. (99)
Capítulo
Oito
OS MILHARES
1. Melhor que um discurso de mil
palavras vazias, é uma só frase carregada de significado que, ao ser ouvida,
provoca um sentimento de paz. (100)
2. Melhor que um um poema de mil versos
com sons vazios, é uma só estrofe que, ao ser ouvida, provoca um sentimento de
paz. (101)
3. Melhor que recitar cem versos de
palavras vazias, é repetir uma só estrofe que, ao ser ouvida, provoca um
sentimento de paz. ( 102)
4. Melhor que um homem que vence em
batalhas mil vezes mil homens, é aquele que vence a si mesmo. Ele é, na
realidade, o maior dos guerreiros. (103)
5-6. A vitória sobre si mesmo é de fato
maior que a vitória sobre os outros. Nem Brahma, nem Mara, e tampouco um deva
(um deus) ou um gandharva (músico celestial), nenhum deles pode transformar em
derrota a vitória de alguém que sempre pratica o auto-controle. (104-105)
7. Melhor que um homem que faz mil
oferendas e sacrifícios, mês após mês, durante cem anos, é aquele que presta
homenagem a alguém estabelecido na sabedoria. Tal homenagem é superior a um
século de oferendas e sacrifícios formais. (106)
8. Melhor que um homem que alimenta o
fogo sagrado na floresta durante cem anos, é o homem que presta homenagem a
alguém estabelecido na sabedoria. Tal homenagem é superior a um século de
oferendas e sacrifícios formais. (107)
9. Melhor que um homem que oferece uma
oblação e um sacrifício durante um ano inteiro para obter mérito, é o homem que
presta homenagem a quem é correto. Toda aquela prática de um ano não vale a
quarta parte desta homenagem. (108)
10. Quatro bênçãos ganha o ser humano
que respeita os mais velhos e pratica reverência: vida longa, beleza, felicidade
e força. (109)
11. Melhor que uma vida descontrolada
de cem anos de maldade, é a curta vida de um só dia do homem virtuoso que
medita. (110)
12. Melhor que uma vida descontrolada
de cem anos de ignorância, é a curta vida de um só dia de um homem que medita.
(111)
13. Melhor que uma vida ociosa e fraca
de cem anos, é a curta vida de um dia de um homem que se esforça intensamente.
(112)
14. Melhor que uma vida de cem anos de
um homem que não percebe a origem e o final das coisas, é a curta vida de um dia
de um homem que percebe a origem e o final das coisas. (113)
15. Melhor que uma vida de cem anos do
homem que que não percebe o estado imortal, é a curta vida de um só dia do
homem que percebe o estado imortal. (114)
16. Melhor que a vida de cem anos do
homem que não percebe a lei mais elevada, é a curta vida de um só dia do homem
que percebe a doutrina mais excelente. (115)
Capítulo
Nove
MÁ
CONDUTA
1. O homem deve apressar-se em direção
ao que é bom ; ele deve restringir seus maus pensamentos ; se for indolente em
relação a fazer o bem, sua mente terá a tendência de gostar do que é mau. (116)
2. Se um homem cometer um pecado, que
não continue na má ação. Que não coloque o seu coração nela. Dolorosa é a
acumulação de uma má conduta. (117)
3. Se um homem fizer o que é bom, que
ele o faça uma e outra vez. Que ele coloque seu coração na boa ação. A
felicidade é resultado da boa conduta. (118)
4. Mesmo um homem que age mal sente
felicidade enquanto sua má ação não amadureceu ; mas quando sua má ação
amadurece, então o homem que fez o mal percebe o mal. (119)
5. Mesmo um homem bom talvez sofra com
o mal enquanto suas boas ações não amadurecerem ; mas quando suas boas ações
amadurecem, então ele vê o que é bom vindo para ele. (120)
6. Não pense irresponsavelmente em
relação ao mal, dizendo: “ele não virá para mim”. Um pote de água fica cheio
com a constante queda nele de pequenas gotas de água. Um tolo se torna cheio de
maldade, se ele a reunir pouco a pouco. (121)
7. Não pense irresponsavelmente do bem,
dizendo: “ele não virá para mim”. Um pote de água fica cheio com a constante
queda nele de pequenas gotas de água. Um homem sábio fica cheio de bondade, se
ele a reunir pouco a pouco. (122)
8. Assim como um comerciante
desacompanhado e tendo consigo muitas riquezas evita caminhos perigosos, e do
mesmo modo como um homem que quer viver evita venenos, assim também deve-se
evitar o mal. (123)
9. Aquele cuja mão não está ferida pode
tocar um veneno. O veneno não faz mal a aquele que não tem um ferimento. Nada
causa mal a aquele que não faz mal. (124)