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11- CAÇANDO E MATANDO O EGO
INTRODUÇÃO AO BUDISMO Uma visão da doutrina budista através
dos textos Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos de
vários autores e mestres budistas por Karma Tenpa
Darghye.
"Em nosso estado mental normal, nosso ego parece enorme e
concreto; ele parece ser justamente nosso melhor amigo, protetor e benfeitor.
Mas na verdade, ele é o nosso pior inimigo, uma fraude que nos engana,
fazendo-nos sentir que não podemos existir ou viver sem ele. Como um monstro
morando em nosso coração, ele está sempre pronto para fazer coisas ruins e
causar problemas a nós e aos outros. Nosso ego tem monte de truques para se
manter na ativa. Por isso, devemos prestar atenção quando começarmos a nos
dizer: "Se eu não cuidar do número um (nós mesmos), não vou trabalhar e
vou acabar passando fome"; "Se eu ficar me distraindo com esse assunto de
espaço, vou acabar virando um vegetal. Posso até morrer!" O ego tem mais defesas
que a OTAN. Cuidado!
Não há dúvidas de que é do nosso próprio interesse nos
livrarmos desse demônio interior o mais rápido possível (a menos que sejamos
masoquistas e gostemos da eterna dor física e mental). Ao recolher e
responsabilizar nosso ego de apego a si mesmo por todos os nossos problemas, com
certeza geraremos o desejo de cuidar de nosso mundo interno e de nos livrar
desse ego o mais rápido possível. Para isso, precisamos enxergá-lo como um
mentiroso, examinando se de fato existe como parece ou não.
Isso significa dizer a nós mesmos: "Pela lógica, se eu existo
tal como parece, devo ser ou um com todo meu corpo e mente, ou separado e
diferente deles". Se, quando busco o meu ego, não consigo encontrá-lo nem em
minha mente nem em meu corpo, e nem tampouco como algo separado deles, não tenho
outra opção senão aceitar que o que estou percebendo é o meu falso senso de
individualidade. Precisamos expulsar esse fantasma da máquina.
Pensando dessa forma, começamos a caçar nosso ego aparentemente
vivo, nosso verdadeiro inimigo, e isso nos força a confrontar nossas suposições
nunca examinadas sobre como existimos de fato. Eis um desafio bastante
significativo do ponto de vista emocional: descobrir que nossa percepção básica
da realidade é uma grande bobagem. Essa é a autocura absoluta, e por isso
devemos prosseguir, cheios de alegria, nesse nível grosseiro do treinamento
espacial.
Se sentirmos que o eu, ou nosso ego, é realmente nosso corpo
(como as indústrias de cosméticos adorariam que nós acreditássemos), então:
1. Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os
membros?
2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos "eus" e muitos
"egos".
3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja
nele, eu estarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir. (Essa
visão materialista e niilista tem sido desafiada por muitos relatos de
experiência pós-morte, além de testemunhos de tulkus nascidos no Ocidente
e no Oriente, terapeutas de vidas passadas etc.)
4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, ficamos
histéricos e gritamos, "Ele cortou minha perna", mostrando assim que
sentimos que somos os proprietários de nosso corpo, e não o corpo em si.
5. Se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos
examinar o que nossa mente é. Temos muitos fatores ou aspectos maiores ou
menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinqüenta e um fatores
composicionais (todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa
mente). Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos egos diferentes
(uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinqüenta e sete
identidades).
6. Quando alguém nos insulta, pensamos, "Ele machucou
meus sentimentos", mostrando assim que nos sentimos os proprietários de
nossa mente, e não a mente em si.
7. "Penso, logo existo" — "Se sou minha mente, posso viver sem
meu corpo".
8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente,
devemos tentar seguir o seguinte raciocínio:
Não sou meu corpo.
Não sou minha mente.
Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de "eu". Mas
como é possível que dois "não sou" tornam-se um "eu sou"? Pense nisso! Esse é um
enigma profundo e cheio de sentido, não uma piada.
É o mesmo que chamar de "foguete" a uma combinação de todas as
partes de um foguete. Na verdade, nenhuma delas separadamente é o foguete, mas à
união de todas as partes damos o nome de "foguete". Enquanto estamos satisfeitos
com o simples nome das coisas e não investigamos nosso mundo com mais
profundidade, tudo parece estar certo. Os carros, as pessoas, os computadores,
tudo trabalha e funciona. Mas se verificamos o que há por trás das ilusões,
perceberemos que não há qualquer foguete que exista independentemente, mas
apenas um objeto surgido interdependentemente, dependendo de suas partes,
causas, condições etc. Esse é o misterioso milagre da realidade.
Quando buscamos as coisas em si, elas desaparecem. Mas quando
as aceitamos elas funcionam maravilhosamente bem, até o momento em que se
quebram, adoecem e morrem.
9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente,
devemos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído por uma
bomba atômica e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente
aniquilada. Onde estaríamos então? Obviamente, em lugar nenhum.
10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha
mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? Em lugar
nenhum. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o jogo da forma
adequada, é nada, exceto o espaço absoluto.
Esse nada não é o frio vácuo morto do espaço externo ou
a completa negação da vida que nos ensinaram nas aulas de filosofia. A
experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação
de extrema bem-aventurança e uma profunda paz. Sem dúvida, segundo os nossos
sentidos, não há nada lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de
arrebatadora alegria de tocarmos a essência da vida e o tecido fundamental da
realidade. Ainda assim, não há nada lá. É fascinante e maravilhoso. Então,
compreendemos de verdade o monstro que é o nosso ego, nos impedindo
completamente de ter essa arrebatadora experiência. O eu é realmente muito
egoísta.
Todas as vezes que "caçamos o ego", devemos tentar manter a
mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o jogo pensando,
"Já sei a resposta" ou "Que tédio!", pois assim não poderemos ter o impacto
emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu
envergonhado. Quando nosso inimigo interior tiver sido exposto como uma fraude,
um mentiroso e um traidor, a fantasia de sua existência se desintegrará no nada.
Mas não se preocupe: ele voltará para nos assombrar por muitos e muitos anos.
Está apegado a nós tanto quanto nós estamos apegados a ele. Matar o ego é um
processo difícil e demorado. Mas é absolutamente benéfico e, por isso, devemos
persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo e, um
dia, teremos vencido completamente.
Assim, tendo exposto nosso ego como uma fraude, usando a luz de
nossa sabedoria, tudo que nos resta é uma negação, um vasto espaço ou vacuidade
que não implica em nada mais, mas prova apenas que nosso ego independente nunca
existiu. O vasto espaço da vacuidade não prova nem confirma mais nada.
As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço
individual e sempre se sentem desconfortáveis em espaços pequenos e em
multidões. O antídoto para essa sensação e para o "ser comum" é familiarizar a
mente com o vasto espaço interior do não-ego, não-eu, não-meu! A auto-cura não é
desenvolver o ego, mas dissolvê-lo no espaço. Assim, sempre nos sentiremos muito
confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas
gritando todas ao mesmo tempo.
Algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse
imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há
motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa
alucinação ou fantasia do ego. A energia do apego ao ego é tão forte nas pessoas
comuns que certamente reaparecerá logo. Quando chegar o momento de você entrar
em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente e seu eu,
surgidos interdependentemente, ainda estão aqui".
GELSO – AUTOCURA III –Lama Ganchen Rinpoche

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