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8 - KARMA: O CORAÇÃO É O NOSSO JARDIM
INTRODUÇÃO AO BUDISMO Uma visão da doutrina budista através
dos textos Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos de
vários autores e mestres budistas por Karma Tenpa
Darghye.
O Sutra Avatamsaka é o texto budista que descreve as
leis que governam os milhares de possíveis domínios do universo - domínios de
prazer e de dor, domínios criados pelo fogo, pela água, pelos metais, pelas
nuvens ou até mesmo pelas flores. Cada universo, diz-nos o sutra, segue a
mesma lei básica: em cada um desses domínios, se você plantar uma semente de
manga, terá uma mangueira, e se plantar uma semente de maçã, terá uma macieira.
Assim é em todos os domínios que existem no mundo dos fenômenos da criação.
A lei do karma descreve o modo como causa e efeito regem
os padrões que se repetem através de toda a vida. Karma significa que
nada surge por si mesmo. Cada experiência é condicionada por aquilo que a
precede. Desse modo, nossa vida é uma série de padrões inter-relacionados. Os
budistas dizem que a compreensão dessa lei é suficiente para se viver sabiamente
no mundo.
O karma existe em muitos níveis diferentes. Seus padrões
governam as imensas formas do universo, tais como as forças gravitacionais das
galáxias, e os mais sutis e diminutos modos pelos quais, a cada momento, nossas
escolhas humanas afetam o nosso estado mental. No nível da vida física, por
exemplo, se uma pessoa olha para um carvalho, ela pode ver o "carvalho"
manifestando-se em algum dos diferentes estágios de seus padrões vitais. Num
determinado estágio do carvalho padrão, o carvalho existe sob a forma de bolota;
num estágio subseqüente, ele vai existir sob a forma de árvore nova; noutro
estágio, sob a forma de árvore adulta; e, ainda noutro, sob a forma de bolota
verde crescendo nessa árvore adulta. Em rigor, não existe o "carvalho"
definitivo. Existe apenas o carvalho padrão através do qual certos elementos
seguem as leis cíclicas do karma: um arranjo específico de água, minerais
e a energia solar que o transforma, infinitas vezes, de bolota em árvore nova e
depois em árvore adulta.
De modo semelhante, as tendências e hábitos da nossa mente são
padrões kármicos que repetimos infinitas vezes, como a bolota e o
carvalho. Ao abordar esse tema, Buda perguntou: "O que vocês acham que é maior:
a mais alta montanha da Terra ou a pilha de ossos que representa as vidas que
vocês viveram infinitas vezes em cada domínio governado pelos padrões dos seus
karmas? Maior, meus amigos, é a pilha de ossos; maior do que a mais alta
montanha da Terra".
Vivemos num oceano de padrões condicionadores que repetimos
infinitas vezes e, ainda assim, raramente notamos esse processo. Podemos
compreender com mais clareza o funcionamento do karma na nossa vida se
olharmos esse processo de causa e efeito nas nossas atividades comuns e
observarmos como os padrões repetitivos da nossa mente afetam o nosso
comportamento. Por exemplo, nascidos numa certa cultura em determinada época,
assimilamos determinados padrões de hábitos. Se nascermos numa taciturna cultura
pesqueira, aprendemos a ser calados. Se crescermos numa cultura mediterrânea
mais expressiva, talvez expressemos nossos sentimentos com gestos amplos e
tenhamos uma maneira de falar espalhafatosa. Nosso karma social -
parental, escolar e condicionamento lingüístico - cria padrões completos de
consciência que determinam o modo como vivenciamos a realidade e o modo como nos
expressamos.
Esses padrões e tendências são, muitas vezes, bem mais fortes
do que as nossas intenções conscientes. Quaisquer que sejam as circunstâncias,
são os velhos hábitos que irão criar o modo como vivemos. Lembro de ter ido
visitar minha avó num prédio de apartamentos exclusivo para idosos. A vida ali
era tranqüila e sedentária para a maioria dos moradores. O único lugar onde algo
acontecia era no saguão, e os moradores interessados iam até lá para observar
quem entrava e saía. No saguão, havia dois grupos de pessoas. Um grupo
sentava-se ali regularmente e se divertia, jogando cartas e cumprimentando todos
os que passavam. Tinham um relacionamento agradável e amistoso entre si e com as
circunstâncias à sua volta. Do outro lado do saguão, ficavam as pessoas que
gostavam de reclamar. Para elas, havia algo errado com todo mundo que passava
pela porta. Entre uma pessoa que passava e outra, reclamavam, "Você viu que
comida horrível nos serviram hoje?", "Viu o que fizeram com o quadro de
avisos?", "Você sabe para quanto vai subir o nosso condomínio?", "Sabe o que
disse o meu filho a última vez que esteve aqui?" Esse era um grupo de pessoas
cuja principal relação com a vida era reclamar dela. Cada grupo levou para o
edifício um padrão com o qual tinha vivido durante muitos anos.
Circunstâncias e atitudes mentais que se repetem por muito
tempo tornam-se a condição daquilo que chamamos de "personalidade". Quando
perguntaram ao Lama Trungpa Rinpoche o que iria renascer nas nossas próximas
vidas, ele respondeu brincando: "Seus maus hábitos". Nossa personalidade é
condicionada pelas causas passadas. Às vezes isso é evidente, mas com muita
freqüência os hábitos que se originam do passado distante e esquecido passam
despercebidos.
Na psicologia budista, o condicionamento kármico da
nossa personalidade é classificado de acordo com três forças inconscientes
básicas e tendências automáticas da nossa mente. Existem os tipos marcados pelo
desejo, cujos estados mentais mais freqüentes estão associados à avidez, à
carência, ao sentimento de não ter o suficiente. Existem os tipos marcados pela
aversão, cujo estado mental mais comum é rechaçar o mundo através do julgamento,
do desagrado, da aversão e do ódio. E existem os tipos marcados pela confusão,
cujos estados mais fundamentais são a letargia, a ilusão e a desconexão, não
sabendo o que fazer a respeito das coisas.
Você pode testar qual o tipo que predomina em você observando
sua maneira peculiar de entrar num ambiente. Se seu condicionamento for mais
fortemente aquele do desejo e da carência, você tenderá a olhar em volta e ver
aquilo de que gosta, aquilo que você pode obter; você verá as coisas que o
atraem; observará o que é belo; apreciará um bonito arranjo de flores; gostará
do modo como algumas pessoas estão vestidas; encontrará alguém sexualmente
atraente ou vai imaginar que há pessoas simpáticas que valerá a pena
conhecer. Se você é do tipo aversão, ao entrar na sala, em vez de ver primeiro
aquilo que você deseja, você tenderá a ver o que está errado. "Ambiente muito
barulhento. Não gosto do papel da parede. As pessoas não estão vestidas
adequadamente. Não gosto do jeito como tudo foi organizado". E se você é uma
personalidade confusa, talvez entre na sala, olhe em volta e não saiba como se
relacionar, perguntando a si mesmo: "O que está acontecendo aqui? Onde eu me
encaixo neste ambiente? O que devo fazer?".
Esse condicionamento primário é, na verdade, um processo de
grande influência. Ele cresce e se transforma naquelas forças que levam
sociedades inteiras para a guerra, criam o racismo e dirigem a vida de muitas
pessoas à nossa volta. Quando, pela primeira vez, encontramos em nós mesmos as
forças do desejo e da aversão, da avidez e do ódio, podemos pensar que elas são
inofensivas, contendo um pouquinho só de carência, de desagrado, um
pouquinho de confusão. No entanto, à medida que observamos o nosso
condicionamento, vemos que o medo, a cobiça e a fuga são, na verdade, tão
compulsivos que governam muitos aspectos da nossa personalidade. Pela observação
dessas forças, podemos ver como operam os padrões do karma.
Quando, na meditação, começamos a olhar atentamente nossa
personalidade, em geral nosso primeiro impulso é procurar livrar-nos dos nossos
velhos hábitos e defesas. De início, a maioria das pessoas acha a sua própria
personalidade difícil, desagradável e até mesmo insípida. A mesma coisa pode
acontecer quando olhamos para o corpo humano. Ele é belo quando visto a
distância certa, na idade certa e à luz certa, mas, quanto mais de perto
o olhamos, mais cheio de defeitos ele se torna. Quando notamos essa imperfeição,
procuramos fazer regime, jogging, tratamento de pele, exercícios e tirar
férias para melhorar o físico. Mas, embora tudo isso possa ser benéfico,
continuamos a estar basicamente presos ao corpo com que nascemos. A
personalidade é ainda mais difícil de ser modificada do que o corpo; contudo, o
propósito da vida espiritual não é fazer com que nos livremos da nossa
personalidade. Parte dela já existia quando nascemos, parte tem sido
condicionada pela nossa vida e cultura e, diga-se o que se quiser, não podemos
viver sem ela. Todos nós, na face desta Terra, temos um corpo e uma
personalidade.
Nossa tarefa é aprender muitas coisas sobre esse corpo e sobre
essa mente, e despertar dentro deles. Compreender o jogo do karma é um
aspecto do despertar. Se não estivermos conscientes, nossa vida simplesmente irá
seguir, infinitas vezes, o padrão dos nossos hábitos passados. Mas, se formos
capazes de despertar, estaremos aptos a fazer escolhas conscientes quanto ao
modo de responder às circunstâncias da nossa vida. Nossa resposta consciente irá
então criar o nosso karma futuro. Podemos ser ou deixar de ser capazes de
mudar as circunstâncias externas, mas, com percepção consciente, podemos sempre
mudar nossa atitude interior, e isso é suficiente para transformar a nossa vida.
Mesmo nas piores circunstâncias externas, podemos escolher se vamos ao encontro
da vida com medo e ódio ou com compaixão e compreensão.
A transformação dos padrões da nossa vida sempre se processa no
nosso coração. Para compreender como trabalhar com os padrões kármicos
precisamos observar que o karma tem dois aspectos distintos: o
karma que é o resultado do nosso passado e o karma que as nossas
respostas atuais estão criando para o nosso futuro. Recebemos os resultados da
ação passada; e isso é algo que não podemos mudar. Mas, ao responder no
presente, também criamos um novo karma. Semeamos as sementes karmicas
para colher novos resultados. Em sânscrito, a palavra "karma" geralmente
vem junto com outra palavra, "vipaka" – karma-vipaka. Karma
significa "ação" e vipaka, "resultado".
Ao lidar com cada momento da nossa experiência, usamos meios
hábeis (conscientes) ou meios inábeis (inconscientes). Todas as respostas
inábeis, como avidez, aversão e confusão, inevitavelmente criam mais sofrimento
e karma doloroso. As respostas hábeis, baseadas na percepção consciente,
no amor e na receptividade, levam inevitavelmente ao bem-estar e à felicidade.
Através de meios hábeis, podemos criar novos padrões que transformam a nossa
vida. Até mesmo os padrões poderosos baseados na avidez, na aversão e na ilusão
contêm dentro de si as sementes de respostas hábeis. O desejo por prazer pode
ser transformado numa ação natural e compassiva que traz beleza à sociedade e ao
mundo que nos cerca. O temperamento que julga, do tipo aversão, através da
percepção consciente pode transformar-se naquilo que é chamado sabedoria
discriminativa: uma clareza associada à compaixão, uma sabedoria que vê
claramente através de todas as ilusões do mundo e usa a clareza da verdade para
ajudar e curar. Até mesmo a confusão e a tendência a desligar-se da vida podem
ser transformadas numa equanimidade sábia e ampla, num equilíbrio sábio e
compassivo que envolve todas as coisas com paz e compreensão.
Tradicionalmente, o karma é discutido nos ensinamentos
budistas em termos de morte e renascimento. Buda falou de uma visão na noite de
sua iluminação, na qual viu milhares de suas vidas passadas, bem como as de
muitos outros seres, todos morrendo e renascendo de acordo com os resultados da
lei kármica de suas ações passadas. Mas não é necessário ter a visão de
Buda para compreender o karma. As mesmas leis kármicas que ele
descreveu agem na nossa vida momento após momento. Podemos ver como a morte e o
renascimento ocorrem a cada dia. A cada dia, nascemos em meio a novas
circunstâncias e experiências, como se fosse uma nova vida. Com efeito, isso
acontece a cada momento. Morremos a todo momento e renascemos no momento
seguinte.
Ensina-se que existem quatro tipos de karma no instante
da morte ou em qualquer momento de transição: karma denso, karma
imediato, karma habitual e karma fortuito. Nessa ordem, cada um
representa uma tendência kármica mais forte do que a seguinte. A imagem
tradicional para explicar esse ensinamento é a do gado num curral, com a
porteira aberta. O karma denso é como um touro. É a força das mais
poderosas ações boas ou más que praticamos. Se um touro está no curral, quando a
porteira é aberta, ele é sempre o primeiro a sair. O karma imediato é a
vaca que está mais próxima à porteira. Ele se refere ao estado mental que está
presente no momento da transição. Se a porteira é aberta e não há nenhum touro
no curral, quem sai é a vaca mais próxima à porteira. Se nenhuma vaca estiver
perto da porteira, surge o karma habitual. É a força do nosso hábito
costumeiro. Se não estiver presente nenhum forte estado mental, a vaca que
costuma sair primeiro é a que irá sair primeiro. E, finalmente, se nenhum forte
hábito estiver operando, surge o karma fortuito. Isto é, se não surgir
nenhuma força mais impetuosa, nosso karma será o resultado fortuito de um
número qualquer de condições passadas.
À medida que cada ação (ou nascimento) surge, existem forças
que a sustêm e forças que finalmente a levam a termo. Essas forças
kármicas são descritas fazendo-se uso da imagem de um jardim. A semente
que é plantada é o karma causal. Fertilizar e regar a semente, cuidar das
plantas, é chamado de karma sustentador. Quando surgem dificuldades,
trata-se do karma opositor, representado pela seca; mesmo se plantarmos
uma semente viável e a fertilizarmos, se não houver água, ela irá secar.
E então, finalmente, o karma destrutivo é como o fogo ou os roedores no
jardim, que o queimam ou o devoram por completo.
Essa é a natureza da vida em todos os domínios, em todas as
circunstâncias criadoras. Uma condição segue-se à outra e, no entanto, tudo isso
está sujeito a mudança. O karma das nossas circunstâncias exteriores pode
mudar com o agitar da cauda de um cavalo. A qualquer dia, uma imensa fortuna ou
a morte podem chegar para qualquer um de nós.
O resultado kármico dos padrões das nossas ações não
decorre unicamente da nossa ação. À medida que temos uma intenção e agimos,
criamos karma; assim, uma outra chave para compreender a criação do
karma é a de tornarmo-nos conscientes da intenção. O coração é o nosso
jardim e, junto com cada ação, existe urna intenção plantada como uma semente. O
resultado dos padrões do nosso karma é o fruto dessas sementes.
Por exemplo, podemos usar uma faca afiada para cortar alguém;
se a nossa intenção é ferir, seremos um assassino. Isso leva a certos resultados
kármicos. Podemos executar uma ação quase idêntica, usando uma faca
afiada para cortar alguém, mas, se somos um cirurgião, nossa intenção é curar e
salvar uma vida. A ação é a mesma, mas, no entanto, dependendo de seu propósito
ou intenção, tanto poderá ser um ato terrível quanto um gesto de compaixão.
Na nossa vida cotidiana podemos estudar o poder da intenção
para criar o karma. Podemos começar prestando atenção às nossas
muitas ações que surgem ao longo do dia em resposta aos problemas. De um modo
automático, talvez ignoremos circunstâncias difíceis ou respondamos de maneira
crítica ou áspera. Talvez procuremos proteger ou defender o nosso próprio
interesse. Em todos esses casos, a intenção no nosso coração estará associada à
avidez, à aversão ou à ilusão, criando no futuro um karma de sofrimento
que irá nos trazer uma resposta equivalente.
Se, em vez disso, quando essas circunstâncias difíceis surgem
na nossa vida levarmos a elas o desejo de compreender, de aprender, de libertar
ou de trazer harmonia e criar paz, iremos falar e agir com uma intenção
inerente. Nossas ações talvez sejam bastante semelhantes, nossas palavras talvez
sejam semelhantes, mas, se a nossa intenção é criar paz e trazer harmonia, essa
intenção irá criar um tipo muito diferente de resultado kármico. Isso é
fácil de se verificar nos relacionamentos íntimos, pessoais ou profissionais.
Podemos dizer uma mesma frase ao nosso parceiro ou amigo e, se o espírito tácito
ao proferi-la for: "Eu amo você e espero que nós dois entendamos o que
está acontecendo", iremos obter um tipo de resposta. Se pronunciarmos a
mesma frase com uma atitude subjacente de censura, defesa e crítica, em um tom
sutil de: "O que há de errado com você?", ela dará outro rumo ao nosso diálogo e
poderá, facilmente, converter-se em uma briga.(...)
A intenção ou atitude que levamos a cada situação da vida
determina o tipo de karma que criamos. Dia a dia, momento a momento,
podemos começar a ver a criação dos padrões de karma baseados nas
intenções do nosso coração. Quando prestamos atenção, torna-se possível
conscientizar-nos mais das nossas intenções e do estado do nosso coração à
medida que elas emergem junto com as ações e palavras que são as nossas
respostas. Em geral, não temos consciência das nossas intenções.
Por exemplo, uma pessoa decide parar de fumar. Lá pelo meio do
dia surge o desejo de fumar. Ela coloca a mão no bolso, pega o maço, tira um
cigarro do maço, leva-o à boca, acende-o e começa a dar uma bela tragada. Nesse
instante, ela acorda e lembra: "Ah, eu ia parar de fumar!". Enquanto estava no
piloto automático e sem percepção consciente, essa pessoa realizou todos os
movimentos habituais de pegar um cigarro e acendê-lo. Não é possível mudar os
padrões do nosso comportamento ou criar novas condições kármicas até que
tenhamos nos tornado presentes e despertos no início da ação. Caso contrário, a
ação já aconteceu. Como diz o velho ditado: "É como fechar a porteira depois que
o cavalo fugiu do estábulo".
O desenvolvimento da percepção consciente na meditação
permite que nos tornemos atentos ou conscientes o suficiente para reconhecer
nosso coração e nossas intenções à medida que atravessamos o dia. Podemos estar
conscientes dos diferentes estados de medo, carência, confusão, ciúme e raiva.
Podemos saber quando o perdão, o amor ou a generosidade estão ligados às nossas
ações. Quando sabemos qual é o estado do nosso coração, podemos começar a
escolher os padrões ou condições que iremos seguir, o tipo de karma que
criamos.
Tente trabalhar com esse tipo de percepção consciente na sua
vida. Pratique-a com suas palavras. Preste a mais cuidadosa atenção e observe o
estado do seu coração; observe a intenção, quando você falar, mesmo sobre o
assunto mais insignificante. Sua intenção é ser protegido, obter coisas,
defender-se? Sua intenção é abrir-se com interesse, compaixão e amor?. Uma vez
observada a intenção, conscientize-se da resposta que vem à tona. Mesmo que seja
uma resposta difícil, continue com a intenção hábil por algum tempo e observe os
tipos de respostas que ela traz.
Se a sua intenção era inábil ou maldosa, tente mudá-la e ver o
que acontece depois de algum tempo. De início, é possível que você experimente
apenas os resultados de sua atitude defensiva anterior. Mas persista na sua boa
intenção e observe os tipos de respostas que ela finalmente irá evocar. Para
compreender como o karma age, basta olhar para os seus relacionamentos
mais pessoais ou as suas interações mais simples. Escolha um relacionamento ou
local específicos e experimente. Tente responder somente quando seu coração
estiver receptivo e generoso. Quando não se sentir assim, espere e deixe passar
os sentimentos negativos. Como instruiu Buda, deixe que suas palavras e ações
aflorem suavemente, com um intento generoso, no tempo devido, e para benefício
delas próprias. À medida que você cultiva uma intenção generosa e hábil, você
poderá praticá-la no posto de gasolina ou no supermercado, no lugar onde
trabalha ou no trânsito. A intenção que trazemos conosco cria o padrão que dela
resulta.
Ao tornar-nos mais conscientes da nossa intenção e ação, o
karma mostra-se a nós com mais clareza. O fruto kármico parece amadurecer
mais rápido, talvez apenas porque nós o percebemos. Ao prestar atenção, o fruto
de tudo aquilo que fazemos, hábil ou inabilmente, parece manifestar-se mais
depressa. À medida que estudarmos essa lei de causa e efeito, iremos ver que
toda vez que nós, ou o outro, agimos de um modo baseado na avidez, no ódio, no
preconceito, no julgamento ou na ilusão, os resultados irão inevitavelmente
causar algum sofrimento. Começamos a ver como aqueles que nos ferem também criam
um inevitável sofrimento para si mesmos. A lei de causa e efeito nos faz querer
prestar mais atenção e, ao observá-la, podemos ver diretamente os estilos hábeis
e inábeis no nosso próprio coração.
A atenção dada ao karma mostra-nos como as vidas são
moldadas pela intenção do coração. Quando lhe pediram para explicar a lei do
karma de um modo bem simples, Ruth Denison, conhecida instrutora de
vipassana, assim se expressou: "Karma quer dizer que você nunca
escapa impune". A cada dia, estamos semeando as sementes do karma. Existe
apenas um único local no qual podemos exercer alguma influência sobre o
karma: na intenção das nossas ações. Na verdade, existe apenas um
karma pessoal que podemos mudar no mundo todo - o nosso próprio. Porém,
aquilo que fazemos com o nosso coração afeta o mundo todo. Se pudermos desfazer
os nós kármicos do nosso coração, o fato de sermos todos interligados
irá, inevitavelmente, trazer a cura para o karma de outra pessoa. Corno
disse um ex-prisioneiro de guerra ao visitar um colega sobrevivente: "Você já
perdoou aqueles que o prenderam?". O sobrevivente respondeu: "Não, não os
perdoei. Nunca os perdoarei". E o primeiro veterano disse: "Então, de algum
modo, eles ainda conservam você prisioneiro".
Quando minha mulher e eu viajávamos pela Índia há alguns
anos, ela teve a visão muito dolorosa de um de seus irmãos morrendo. De início,
pensei que aquilo fosse parte de um processo de morte/renascimento na sua
meditação. No dia seguinte, ela teve uma segunda visão do irmão, agora como guia
espiritual, acompanhado de dois índios americanos e oferecendo a ela
apoio e orientação. Cerca de uma semana mais tarde, chegou um telegrama para
o ashram onde estávamos, em Monte Abu, no Rejisthan. Pesarosamente,
minha mulher era informada de que seu irmão morrera, exatamente do
modo como ela o vira morrer. O telegrama fora enviado no dia em que ela teve a
visão. Estando do outro lado do mundo, como teria ela sido capaz de ver a morte
do irmão?. Isso foi possível porque todos nós estamos interligados. E, porque é
assim, mudar um coração afeta todos os corações e o karma de todo o
planeta.
Num retiro que dirigi há alguns anos, uma mulher lutava contra
as conseqüências dolorosas de abuso sofrido no início da sua vida. Ela sentira
raiva, depressão e dor durante muitos anos. Fizera terapia e meditação,
atravessando um longo processo para curar essas feridas. Finalmente, nesse
retiro, ela chegou a um estado de perdão para com o homem que havia abusado
dela. Chorou com profundo perdão - não pelo ato em si, que jamais pode ser
justificado, mas porque ela não queria mais carregar a amargura e o ódio no seu
coração.
Acabado o retiro, ela voltou para casa e encontrou uma carta à
sua espera na caixa de correspondência. A carta havia sido escrita pelo homem
que abusara dela e com o qual não tivera contato por quinze anos. Embora, na
maioria dos casos, as pessoas que cometem abuso neguem veementemente suas ações
apesar do perdão, algo tinha mudado a mente daquele homem. Ele escreveu: "Por
muitas razões, sinto-me compelido a lhe escrever. Pensei muito em você esta
semana. Sei que lhe causei grande dano e sofrimento, e que também trouxe grande
sofrimento para mim. Mas quero apenas pedir o seu perdão. Não sei o que mais
posso dizer". E então ela olhou a data no alto da carta. Fora escrita no mesmo
dia em que ela completou seu trabalho interior de perdão.
Existe uma famosa história hindu sobre dois reinos que eram,
ambos, governados em nome de Krishna. Olhando lá do alto, dos céus,
Krishna decidiu visitá-los e ver o que estava sendo feito em seu nome.
Desceu dos céus e surgiu diante da corte de um dos reis. Esse rei era conhecido
por ser depravado, cruel, avarento e invejoso. Krishna surgiu em sua
corte envolto no esplendor da luz celestial. O rei prostrou-se diante dele e
disse: "Deus Krishna, vieste me visitar". Krishna respondeu: "Sim. Quero
confiar-te unia tarefa. Eu gostaria que viajasses por todas as províncias do teu
reino e tentasses encontrar para mim uma pessoa realmente boa". O rei viajou por
todas as províncias de seu reino, falando com as castas superiores e com as
inferiores, com religiosos e agricultores, com artesãos e curadores. Finalmente,
retornou à sala do trono e esperou pelo reaparecimento do deus Krishna.
Quando Krishna surgiu, o rei prostrou-se e disse: "Meu Senhor, cumpri
tuas ordens. Viajei de alto a baixo por todo o meu reino, mas não
encontrei uma só pessoa boa. Embora algumas delas tenham realizado algumas
boas ações, quando as conhecia melhor eu via que mesmo suas melhores ações
acabavam sendo egoístas, interesseiras, coniventes ou desonestas. Não consegui
encontrar uma única pessoa boa".
E então Krishna foi à outra corte, governada por uma
famosa rainha chamada Dhammaraja. Essa rainha era conhecida por ser
gentil, graciosa, dedicada e generosa. E, do mesmo modo, Krishna deu-lhe
uma tarefa. "Eu gostaria que viajasses por todo o teu reino e encontrasses para
mim uma pessoa realmente má". E assim a rainha Dhammaraja percorreu todas
as províncias do seu reino, falando com as castas superiores e com as
inferiores, com agricultores, carpinteiros, enfermeiras e religiosos. Depois de
longa busca, a rainha retornou à sua corte e Krishna reapareceu. Ela
prostrou-se e disse: "Meu Senhor, fiz o que me pediste, mas falhei na minha
tarefa. Percorri todas as terras e vi muitas pessoas que se comportam
desastradamente, que são mal-orientadas e agem de uma maneira que gera
sofrimento. No entanto, quando as ouvi de fato, não consegui encontrar nenhuma
pessoa verdadeiramente má, apenas pessoas mal-orientadas. Suas ações sempre vêm
do medo, da ilusão e do equívoco".
Em ambos os reinos, as circunstâncias da vida eram governadas
pelo espírito dos governantes, e o que eles encontraram era um reflexo do seu
próprio coração. À medida que prestarmos atenção e compreendermos o nosso
coração e desenvolvermos as respostas hábeis da sabedoria e da compaixão,
estaremos realizando nossa parte para pacificar toda a Terra. Através do nosso
trabalho e criatividade, podemos fazer surgir na nossa vida circunstâncias
exteriores benéficas. No entanto, a maioria das coisas que nos acontecem, o
local onde nascemos, quando morremos, as grandes mudanças que arrastam nossa
vida e o mundo à nossa volta são o resultado de padrões kármicos antigos
e influentes. Esses, não podemos mudar. Eles vêm à nós como o vento e o
mau tempo. A única previsão meteorológica que podemos garantir é que
essas condições continuarão a mudar.
No processo de compreender o karma, precisamos responder
a uma pergunta simples: Como nos relacionamos com essas condições mutáveis?. O
tipo de universo que criamos, o que decidimos plantar, o que fazemos nascer no
jardim do nosso coração - isso irá criar o nosso futuro. Buda começa os seus
ensinamentos na grande Dhammapada dizendo:
Somos aquilo que pensamos.
Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.
Com o nosso pensamento, construímos o mundo.
Fale ou aja com uma mente impura,
e os problemas o seguirão como uma carroça segue a parelha de
bois.
Somos aquilo que pensamos.
Tudo o que somos nasce dos nossos pensamentos.
Com o nosso pensamento construímos o mundo.
Fale ou aja com uma mente pura
E a felicidade o seguirá
Como uma sombra, inabalável.
A longo prazo, nada possuímos nesta Terra, nem mesmo o
nosso corpo. Mas, através das nossas intenções, podemos moldar ou direcionar os
padrões do nosso coração e mente. Podemos plantar no nosso coração sementes que
irão criar o tipo de reino que será o mundo, seja ele depravado e mau ou bom e
compassivo. Através da simples percepção consciente da nossa intenção a cada
momento, podemos plantar um esplêndido jardim, criar padrões de bem-estar e
felicidade que perdurarão muito mais do que a nossa personalidade e a nossa vida
limitada.
Sylvia Boorstein, instrutora de vipassana, exemplifica
esse poder com uma história sobre um bom amigo seu, médico famoso que durante
muitos anos foi presidente da Associação Psiquiátrica Americana. Ele era
conhecido como um cavalheiro, um homem íntegro e gentil, que levava uma grande
alegria a tudo na sua vida. Ele sempre dedicava um respeito profundo aos
pacientes e colegas. Depois que se aposentou e envelheceu, começou a ficar
senil. Perdeu a memória e a capacidade de reconhecer as pessoas. Ainda vivia em
casa e a esposa ajudava a cuidar dele. Sendo amigos de longa data, Sylvia e
Saymour, seu marido e também psiquiatra, certa vez foram convidados a jantar em
sua casa. Já fazia algum tempo que não o viam e imaginavam se a sua senilidade
não teria aumentado. Chegaram à porta com uma garrafa de vinho e tocaram a
campainha. Ele abriu a poria e olhou-os com uma expressão vazia que não mostrava
nenhum reconhecimento de quem eles seriam, embora tivessem sido amigos por
muitos anos. E então sorriu e disse: "Não sei quem são vocês, mas pouco importa,
façam o favor de entrar e fiquem à vontade na minha casa", oferecendo-lhes a
mesma amabilidade com que tinha vivido durante toda a sua vida.
Os padrões kármicos que criamos com o nosso coração
transcendem as limitações do tempo e do espaço. Despertar um coração compassivo
e sábio em resposta a todas as circunstâncias é tornar-se Buda. Quando
despertamos o Buda dentro de nós, despertamos para a força universal do espírito
que pode trazer compaixão e compreensão ao mundo como um todo. Gandhi
chamava esse poder de "força da alma". Ela traz força quando uma ação firme é
necessária. Traz imenso amor e perdão, embora também defenda e fale a verdade. É
esse poder do nosso coração que traz sabedoria e liberdade em qualquer
circunstância, e que faz viver o reino do espírito aqui na Terra.
Para Gandhi, esse espírito estava sempre ligado ao seu
coração, sempre aberto para ouvir e pronto para responder ao mundo,
compartilhando as bênçãos da compaixão com todos os seres:
"Além da minha não-cooperação, existe sempre o mais
entusiástico desejo de cooperar, ao menor pretexto, mesmo com o pior dos meus
opositores. Para mim, um mortal muito imperfeito está sempre necessitado da
graça de Deus, sempre necessitado do Dharma. Ninguém está além da
redenção".
UM CAMINHO COM O CORAÇAO – Jack Kornfeld

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