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7 - KARMA,
INTERDEPENDÊCIA E VACUIDADE
INTRODUÇÃO AO BUDISMO Uma visão da doutrina budista através
dos textos Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos de
vários autores e mestres budistas por Karma Tenpa
Darghye.
Dentro do conceito de karma, não há noção de destino ou
fatalismo; apenas colhemos o que plantamos. Experienciamos os resultados de
nossas próprias ações. A noção do karma está extremamente conectada com a
do surgimento dependente, ou tendrel em tibetano. A corrente do karma
também é a interação do tendrel, fatores interdependentes cujas causas e
resultados mutuamente originam uns aos outros.
A palavra tibetana tendrel significa interação,
interconexão, inter-relação, interdependência, ou fatores interdependentes.
Todas as coisas, todas as nossas experiências, são o tendrel, o que quer
dizer são eventos que existem por causa do relacionamento entre fatores
inter-relacionados. Esta idéia é essencial para a compreensão do Dharma
em geral e, em particular, para a compreensão de como a mente transmigra na
existência cíclica.
Para compreender o que o é o tendrel, ou surgimento
dependente, vamos pegar um exemplo. Quando você ouve o som de um sino, pergunte
a você mesmo: o que faz o som? É o corpo do sino, o badalo, a mão que move o
sino para cá e para lá, ou os ouvidos que escutam o som? Nenhum destes fatores
produz sozinho o som; ele resulta da interação de todos estes fatores. Todos os
elementos são necessários para o som do sino ser percebido, e eles não são uma
sucessão, são simultâneos. O som é um evento cuja existência depende da
interação daqueles elementos; isso é o tendrel.
Similarmente, todas as vidas condicionadas, todos os fenômenos
do samsara, resultam de uma multiplicidade de interações que pertencem
aos doze elos do surgimento dependente. Estes doze fatores dão origem uns aos
outros, mutuamente. Não é que cada fator faz o próximo ocorrer, sucessivamente;
como no exemplo do sino, eles são simultâneos, co-existentes. Para produzir uma
existência condicionada, é necessário que os doze fatores estejam presentes ao
mesmo tempo. O cativeiro de causas e resultados destes fatores interdependentes,
que geram a ilusão, é a ação do samsara. Tudo dentro do samsara é
o inter-relacionamento karmicamente condicionado; todas as nossas
experiências são tendrel. A verdade das aparências criadas pelo cativeiro
dos surgimentos dependentes é a verdade convencional ou dualista. É assim que
ordinariamente vivemos: governados pelo karma. A natureza vazia do que
existe no nível relativo é o que chamamos de verdade última.
Compreender verdadeiramente o surgimento dependente nos permite
ir além do condicionamento do nível relativo, ou convencional, e atingir a paz e
a liberdade da incondicionalidade. Quando você compreende completamente o
surgimento dependente, você também compreende a vacuidade. E isso é a
liberdade.
Portanto, a sabedoria, ou conhecimento, não está
fundamentalmente separada da ilusão. Isso porque muitas vezes é dito que o
samsara e o nirvana não são diferentes, e que uma forma de
sabedoria é latente na ignorância. A lógica e a razão conduzem definitivamente a
estas afirmações, que parecem ser contraditórias e ilógicas. A lógica e a razão
podem ir até o infinito. Elas são parte do processo do samsara e conduzem
definitivamente a contradições. Mesmo assim, já que são ferramentas que podem
trazer a realização da verdade, elas são úteis e não devem ser rejeitadas,
apesar delas serem eventualmente liberadas no momento da realização da
vacuidade.
Mas tenha cuidado. A compreensão correta da vacuidade não é, de
qualquer modo, niilista. Se decidirmos que tudo é vazio e sem realidade, que o
estado de buddha não tem existência real, que a causalidade
kármica é vazia e que portanto não há razão para preocupação, isto seria
uma visão niilista, pior até do que a visão que considera as coisas relativas
como sendo verdadeiramente existentes. As concepções niilistas são um erro mais
sério do que a concepção realista que considera os fenômenos como se existissem
como aparecem.
A compreensão correta da vacuidade está entre os dois extremos
do eternalismo (acreditar que as coisas sejam inerentemente ou verdadeiramente
existentes) e o niilismo (acreditar que elas não existem). A visão do caminho do
meio elimina as idéias errôneas e nos permite ir, definitivamente, para além das
noções conceitualizadas sobre a realidade. Mas tome cuidado: imaginar a
vacuidade fecha a porta para a iluminação.
O grande detentor da linhagem, Saraha, disse: "Considerar o
mundo como sendo real é uma atitude brutal. Considera-lo como irreal é ainda
mais selvagem".
E Nagarjuna disse: "Aqueles que apenas imaginam a vacuidade são
incuráveis".
O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER – Sogyal Rinpoche

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