6 - KARMA E
RENASCIMENTO
INTRODUÇÃO AO BUDISMO
Uma visão da doutrina budista através
dos textos
Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de
vários autores e mestres budistas por
Karma Tenpa
Darghye.
"A palavra sânscrita karma significa ação e se refere à
causalidade, a interdependência entre todos os atos e suas conseqüências
naturais.
De modo geral, para que as coisas aconteçam, é necessária uma
ação. Por exemplo, se você quer tomar um chá, precisa praticar vários atos que
possibilitem isso: comprar a erva, arrumar uma xícara, preparar a água etc., até
que, enfim, esteja em condições de bebê-lo. Essas ações, como toda e qualquer
ação, têm seus resultados; esta é a lei do karma. Existem ações que
frutificam de imediato; outras, porém, frutificam em alguns meses ou anos, ou
depois de várias vidas, ou mesmo depois de várias eras, mas, apesar do tempo que
possa mediar, sempre haverá uma correspondência entre a ação e o seu fruto".
Dalai Lama – Citado na Revista Bodisatva
"Certamente, a maneira mais utilizada para se explicar o
karma é a analogia de que estamos colhendo os frutos das ações que
cultivamos anteriormente; do mesmo modo, nosso futuro terá as conseqüências do
que estamos fazendo agora.
Tudo o que é colocado em movimento produz um movimento
correspondente. Se você joga uma pedra numa lagoa, formam-se ondulações ou anéis
que correm para fora, batem na margem e voltam. O mesmo se passa com o movimento
dos pensamentos: ondulações correm para fora, ondulações retornam. Quando os
resultados desses pensamentos chegam de volta, sentimo-nos vítimas indefesas:
estávamos inocentemente vivendo nossa vida; por que todas essas coisas estão
acontecendo conosco? O que acontece é que os anéis estão voltando para o centro.
(...)
(Isto é o karma e, devido a ele), nossa experiência da
realidade continua a girar em ciclos, com todas as suas variações, vida após
vida. Assim é o interminável samsara, a existência cíclica. Não
compreendemos que estamos vivendo resultados que nós mesmos criamos, e que
nossas reações produzem ainda mais causas, mais resultados; incessantemente.
(...)
O karma pode ser comparado a uma semente que, em
condições adequadas, dará lugar a uma planta. Se você colocar na terra uma
semente de cevada, pode ter certeza de que obterá um broto de cevada. A semente
não vai produzir arroz.
A mente é como um campo fértil; coisas de todos os tipos podem
crescer nele. Quando plantamos uma semente; um ato, uma palavra ou um
pensamento, num dado momento, será produzido um fruto que irá amadurecer e cair
por terra, perpetuando e incrementando sementes de causalidade potentes em nosso
corpo, fala e mente. Quando se juntarem às condições adequadas para o
amadurecimento do nosso karma, teremos que lidar com as conseqüências das
coisas que plantamos".
PORTÕES DA PRÁTICA BUDISTA – Chagdud Tulku Rinpoche
"A doutrina budista, ao delinear o que deve ser
abandonado e o que deve ser aceito, classifica o karma em dez
não-virtudes e dez virtudes. As dez não-virtudes incluem três do corpo; matar,
roubar e conduta sexual indevida; quatro da fala; mentir, difamar, fala rude e
conversa fiada; e três da mente; cobiça, maldade e visão errônea. (...)
As dez ações virtuosas são o oposto das dez não-virtuosas: não
matar, e sim proteger a vida; não roubar, e sim praticar a generosidade; não se
entregar a uma conduta sexual indevida, e sim praticar a moralidade em assuntos
sexuais (realçada pela manutenção do celibato em certos dias sagrados e durante
certas ocasiões como retiros espirituais); não mentir, e sim falar a verdade;
não difamar, e sim falar harmoniosamente; não usar a fala rude, e sim usar
palavras reconfortantes; não tagalerar, e sim falar com discrição e significado;
não cobiçar, e sim regozijar-se com a riqueza e as qualidades dos outros; não
ter maldade, e sim benevolência; não defender visões errôneas, e sim cultivar as
corretas".
PRÁTICAS PRELIMINARES DO BUDISMO VAJRAYANA – Chagdud Khadro
"A palavra reencarnação, apesar de ser bastante utilizada, não
é muito correta para o contexto budista; a palavra mais precisa seria
renascimento.
Algumas pessoas acreditam que uma alma imortal, ou atman
migra de vida para vida, ou que a consciência individual é reabsorvida na
consciência universal ou mente divina para depois, mais uma vez, renascer. A
visão budista não é nenhuma dessas. (...)
"(Segundo Buddha), o que sobrevive à morte é o fluxo
contínuo, sempre em mutação, da energia de nosso corpo e mente muito sutis.
Todos nós recebemos um nome quando nascemos e, por toda a nossa vida,
respondemos a ele, embora nosso corpo e mente aos dez, vinte, trinta, quarenta,
cinqüenta ou setenta anos sejam bastante diferentes. Somos a mesma pessoa, mas
não somos a mesma pessoa. A natureza essencial de nossa mente é vazia de uma
existência por si mesma independente. Nossa natureza mais essencial é como um
cristal puro – Vajra – e nela são gravadas muitas marcas. Assim,
momento após momento, vida após vida, estamos sempre nos manifestando de formas
diferentes".
NGELSO – AUTOCURA III – Lama Ganchen Rinpoche
"As existências sucessivas numa série de renascimentos não são
como as pérolas de um colar, presas por um cordão, a ‘alma’, que passa através
de todas as pérolas; são mais como dados empilhados uns sobre os outros. Cada um
dos dados é separado, mas suporta o que está sobre ele e está funcionalmente
conectado com ele. Entre os dados não há identidade, mas condicionalidade".
THE HISTORICAL BUDDHA – H. W. Schumann
"Há nas escrituras budistas um relato muito claro desse
processo de condicionalidade. O sábio budista Nagasena fez uma explanação
disso ao rei Milinda num famoso conjunto de respostas a perguntas que o rei lhe
fez.
O rei perguntou a Nagasena: "Quando alguém renasce, ele é o
mesmo que aquele que acabou de morrer ou é diferente?"
Nagasena respondeu: "Ele não é o mesmo, nem é diferente...
Diga-me uma coisa, se um homem acendesse uma lamparina, ela poderia fornecer luz
durante toda a noite?";
"Sim";
"É a chama que brilha na primeira vigília da noite a mesma da
segunda... ou da última?";
"Não";
"Isso quer dizer que há uma lamparina na primeira vigília,
outra lamparina na segunda, e outra na terceira?";
"Não";
"É de uma única lamparina a luz que brilha a noite
toda?";
"Sim".
"No renascimento é a mesma coisa: um fenômeno surge e outro
cessa, simultaneamente. Assim, o primeiro ato de consciência na nova existência
não é o mesmo do último ato de consciência da existência prévia, nem tampouco é
diferente".
O rei pediu outro exemplo que explicasse a natureza precisa
dessa dependência, e Nagasena fez a comparação do leite: a coalhada, a manteiga
ou o ghee [manteiga semilíquida], feitos de leite, nunca são o mesmo que
o leite, mas dependem totalmente dele para serem produzidos".
O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER – Sogyal Rinpoche
"No budismo tibetano, é muito comum a identificação de
tulkus (tib. sprul sku), lamas renascidos como crianças e
identificados através de visões, profecias e testes. O mais famoso tulku
tibetano é Tenzin Gyatso, o Dalai Lama. Segundo ele, a tarefa de
identificar os tulkus é mais lógica do que pode parecer à primeira vista.
Dada a crença budista no renascimento, e considerando que todo o
propósito da reencarnação é possibilitar ao ser continuar seus esforços em
benefício de todos os seres vivos, é uma conclusão clara que deveria ser
possível identificar casos individuais. Isso habilita-os a serem educados e
colocados no mundo de tal forma que continuem seu trabalho o mais rápido
possível. Certamente, podem ocorrer erros nesses processo de identificação, mas
as vidas da grande maioria dos tulkus (atualmente existem algumas
centenas deles reconhecidos, sendo que antes da invasão chinesa eram
provavelmente milhares os tulkus reconhecidos) são um bom exemplo do
testemunho de sua eficácia".
Dalai Lama – citado na Revista Bodisatva
"A palavra tulku também é geralmente traduzida com o
sentido reencarnação, mas o significado correto é corpo de emanação (sânsc.
nirmanakaya). Do mesmo modo que o sol emana muitos raios; que não são
totalmente iguais, nem totalmente diferentes; um lama teria a capacidade
de emanar uma sucessão de renascimentos para trazer benefício aos outros
seres.
O que continua num tulku? É ele exatamente a mesma
pessoa que reencarnou? Ele é e não é, ao mesmo tempo. Sua motivação e dedicação
para ajudar todos os seres é a mesma, mas ele não é na verdade a mesma pessoa. O
que continua de uma vida para outra é uma bênção, é isso que o cristão chama de
graça. Essa transmissão de uma bênção e da graça é sintonizada e adequada a cada
época sucessiva, e a encarnação aparece da maneira que potencialmente melhor se
adequa ao karma das pessoas desse tempo, para poder ajudá-las de modo
mais completo".
O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER – Sogyal
Rinpoche