4-AS QUATRO NOBRES VERDADES
INTRODUÇÃO AO BUDISMO
Uma visão da doutrina budista através
dos textos
Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de
vários autores e mestres budistas por
Karma Tenpa
Darghye.
PRIMEIRA NOBRE VERDADE
A Verdade do Sofrimento -Duhkka
"Como vocês sabem, a vida é repleta de sofrimentos: o
sofrimento do nascimento, o sofrimento da velhice, o sofrimento da doença, o
sofrimento da morte. Há também o sofrimento da perda de entes queridos, o
sofrimento de estar junto de algo que não se gosta, o sofrimento de não
conseguir o que se deseja, o sofrimento de perder suas conquistas...
Todos os seres estão sujeitos à tristeza, à lamentação, à dor,
ao desespero, aos problemas... Buddha não negou a existência de
felicidade mundana, mas reconheceu que essas felicidades são impermanentes.
Reconhecer o sofrimento é o primeiro passo para se encontrar
uma saída; é também um remédio para todas as nossas falsas esperanças e nossa
tendência de buscar apoio em prazeres efêmeros que resultam em decepção. O
noticiário da televisão é suficiente para que nos deparemos com o imenso
sofrimento; basta refletir sobre os acontecimentos dolorosos na vida daqueles
que nos cercam, ou explorar as constantes correntes por debaixo de nossos
próprios problemas, para podermos confirmar que a tristeza e o sofrimento
permeiam toda a existência. Tal reconhecimento pode nos devastar e nos esgotar.
Perguntamo-nos então como foi que isso veio a acontecer, sem de fato esperar uma
resposta. Os ensinamentos budistas, porém, são claros quanto a esta questão. O
sofrimento, em suas inúmeras manifestações, tem uma única fonte: a delusão da
mente dualista".
COMENTÁRIOS SOBRE TARA VERMELHA – Chagdud Khadro
"Há três tipos de sofrimento. O primeiro é o sofrimento que se
sobrepõe ao sofrimento.
Uma coisa ruim acontece em cima da outra, e parece não haver
justiça alguma no processo. Quando você pensa que a situação em que está não
pode ficar pior, ela fica.
Você perde dinheiro, depois um parente, depois a juventude; há
inúmeras maneiras pelas quais sofremos. O segundo tipo é o sofrimento da
mudança. Nada é confiável ou consistente. Por maior que seja a nossa esperança
de ter uma base sólida sobre a qual podemos nos apoiar, tudo aquilo com que
contamos sempre se corrói, criando grande dor. O terceiro é o sofrimento que
tudo permeia. Da mesma forma que, quando você espreme uma semente de gergelim,
constata que ela está permeada de óleo, pode parecer que a nossa vida seja
feliz, mas, quando somos espremidos, sofremos. Tão certo quanto o fato de que
nascemos é o fato de que iremos ficar doentes, envelhecer e morrer".
PORTÕES DA PRÁTICA BUDISTA – Chagdud Tulku Rinpoche
O significado comum da palavra "pali" "dukkha" tem a
conotação de sofrimento, dor, pena, aflição. Porém como constituinte da
1a N.V., que representa o ponto de vista de Budha com respeito a vida
e ao mundo, "dukkha" tem um significado profundamente filosófico e conota
sentidos muito mais amplos. Admite-se, entretanto, que na 1a N.V. o
termo "dukkha" tem certamente o significado comum de sofrimento, porém
implica, além disso, outras idéias tais como imperfeição, impermanência,
vacuidade, insubstancialidade. Disso resulta difícil encontrar uma palavra que
abarque integralmente o significado de "dukkha". Portanto, é preferível
não traduzir esta palavra que dar uma idéia inadequada e errônea dela,
traduzindo-a convencionalmente por sofrimento ou dor. Quando diz que existe o
sofrimento, Budha não nega a felicidade existente na vida. Ao contrário,
admite diversas classes de felicidade, tanto materiais como espirituais. A
felicidade da vida em família, a felicidade dos prazeres do sentidos, a
felicidade da renúncia, a felicidade da vida de recluso, a felicidade do apego,
a felicidade do desapego, a felicidade física a felicidade mental, etc... Porém
tudo isto se encontra incluído em "dukkha". Mesmo os puríssimos estados
de absorção "dhyana" alcançados mediante a prática das meditações mais
elevadas que estão isentas de toda a sombra de sofrimento, no sentido corrente
da palavra, e podem descrever-se como felicidade inefável, estão também
incluídos em "dukkha"; e ainda o estado de "dhyana" onde não há
nem sensações agradáveis, nem sensações desagradáveis, que é somente
equanimidade e pura atenção, é "dukkha". Budha diz que mesmo a
felicidade inerente a esses estados é impermanente e sujeita a mudança. Estes
estados também são "dukkha" não porque exista o sofrimento no sentido
comum da palavra, mas porque todo o impermanente édukkha
Budha era realista e objetivo acerca da vida e do regozijo
inerente aos prazeres do sentido, disse que devemos compreender claramente três
coisas: 1. Atração ou regozijo. 2. Má conseqüência, perigo ou insatisfação. 3.
Liberdade ou liberação.
Quando vemos uma pessoa agradável, encantadora e bela, esta nos
agrada, nos atrai e sentimos satisfação vendo-a novamente e com freqüência; sua
presença nos produz um prazer e satisfação. Isto é regozijo, é um fato com base
na experiência. Mas este regozijo não é permanente, nem tampouco os atrativos
dessa pessoa. Ao mudar a situação, quer dizer, quando não podemos vê-la ficamos
tristes, desequilibrados e até é possível que fiquemos perturbados. Este é o
aspecto mau, insatisfatório e perigoso, que também esta baseado na experiência.
Muito bem, se não sentimos apego por essa pessoa, se estamos completamente
desapegados, isto é liberdade, liberação. No que toca a todos os prazeres da
vida estas três coisas são certas. Do que antecede resulta evidente que isto não
tem nada que ver com o pessimismo ou o otimismo, senão que, para compreender a
vida total e objetivamente, é preciso ter em conta os prazeres desta, suas dores
e pesares, assim como a possibilidade de libertar-se deles. Somente assim é
possível a liberação.
O conceito de Dukkha pode ser considerado sob três
aspectos:
- Dukkha
como sofrimento comum -
dukkha dukkha.
2. Dukkha produzido pela mudança -viparinama
dukkha.
3. Dukkha como estados condicionados -samkhara
dukkha.
- DUKKHA DUKKHA
Todas as manifestações do sofrimento inerentes à vida tais como
o nascimento velhice, a doença, a morte, a associação com pessoas e condições
desagradáveis, a separação dos seres amados e das condições agradáveis, não
conseguir o que se deseja, a aflição, a angústia; em fim, tudo o que é aceito
universalmente como sofrimento e dor esta incluída em "dukkha" como
sofrimento comum.
- VIPARINAMA DUKKHA
Tanto uma sensação agradável quanto uma desagradável são
impermanentes e não duram. Cedo ou tarde mudam; quando mudam provocam dor,
sofrimento e infelicidade. Essa vicissitude esta incluída em "dukkha"
como sofrimento provocado pela mudança.
- SAMKHARA DUKKHA
Porém o terceiro aspecto de "dukkha", quer dizer,
enquanto estados condicionados, constitui a faceta filosófica mais importante da
Primeira N.V., e requer algumas explicações analíticas do que entendemos por
"ser", "indivíduo" ou "eu". Segundo a filosofia budista, o indivíduo, o eu é
unicamente uma combinação de forças ou energias psicofísicas em perpétua troca
[mudança] que podem dividir-se em 5 grupos ou agregados. Diz Budha: "em
suma, estes cinco grupos ou agregados do apego são dukkha".
Entendamos bem: "dukkha" e os cinco agregados não são diferentes, mas
que em si mesmos são dukkha.
SEGUNDA NOBRE VERDADE
A Verdade da Causa- Samudaya
É a que trata do surgimento ou origem de "dukkha". A
definição mais popular e conhecida desta verdade, tal como a encontramos em
numerosas passagens dos textos originais, é a seguinte: "Nessa sede, avidez
"tanha" que conduz à existência e reiteradas encarnações, que esta ligada
ao desejo passional e encontra contínuo prazer ora aqui, ora ali, a saber:
1. Sede dos prazeres dos sentidos -Kama-Tanha
2. Sede de existência e de vir-a-ser -Bhava-Tanha
3. Sede de não-existência, auto-aniquilação -
Vibhana-Tanha
Essa sede, esse desejo, essa avidez que, manifestando-se de
diversas maneiras, faz surgir todas as formas de sofrimento, assim como a
continuidade dos seres. Porém essa sede não deve ser considerada como a primeira
causa. Mesmo essa sede, considerada como a causa ou origem de "dukkha",
depende do surgimento de outra coisa, ou seja da sensação, e esta surge por
intermédio do contato; assim; sucessiva e dependentemente, atua o ciclo
conhecido com o nome de Gênese Condicionada [Roda da Vida]. Desse modo,
"tanha" a sede, não é nem a primeira nem a única causa do surgimento de
"dukkha". Porém é a causa mais palpável e imediata, "a coisa principal" e
a "coisa que penetra tudo". O termo sede inclui aqui não somente desejo e apego
pelos prazeres dos sentidos, riqueza e poder, mas também desejo e apego pelas
idéias, ideais, opiniões, teorias, concepções e crenças. Segundo a análise de
Budha, todos os sofrimentos, todos os conflitos do mundo, desde as
menores querelas familiares até as grandes guerras entre nações e povos, surgem
dessa sede tanha egoísta. O mundo sofre de frustração, ansiedade,
violência, ansiedade, angústia porque é escravo da sede. Todos admitirão que a
totalidade dos males do mundo são engendrados pelo desejo egoísta. Não é difícil
entender isto. Porém não é tão fácil captar como esta sede pode produzir a
existência e o vir-a-ser reiterados. E é aqui que examinaremos o aspecto
filosófico mais profundo da 2a N.V., em relação com a da
1a N.V.. Devemos também ter uma idéia sobre a teoria do
"karma", assim como do renascimento.
Há quatro causas ou condições, necessárias para a existência e
a continuidade dos seres:
1. Os alimentos materiais.
2. O contato dos sentidos (inclusive a mente) com o mundo exterior.
3. A consciência e
4. A volição mental ou vontade.
A volição mental é a vontade de viver, de existir e voltar a
existir, de continuar, de seguir reiteradamente no vir-a-ser. Essa vontade
engendra a raiz da existência e a continuidade, como vimos, segundo definição de
Budha volição é "karma". Em conseqüência, os termos sede, volição,
volição mental e "karma", significam o mesmo: o desejo, a vontade de ser,
de existir e voltar a voltar existir, de vir-a-ser, de acrescentar mais e mais,
de acumular incessantemente. Eis aqui um dos pontos mais importantes e
essenciais do ensinamento de Budha; a causa, o germe, do surgimento de
"dukkha" está em "dukkha" mesmo, e não fora dele; e igualmente o
germe da cessação, a destruição de "dukkha" se encontra também em
"dukkha" e não no seu exterior. Este é o significado da bem conhecida
fórmula que encontramos a miúdo nos textos originais pali: "tudo que tenha por
natureza o surgimento, também tem por natureza a cessação". Assim
"dukkha" (os cinco agregados) tem em si mesmo a natureza, o germe de sua
cessação, sua destruição. A palavra "karma" significa literalmente ação,
atuar. Porém no budismo expressa unicamente a ação volitiva, e não todas as
ações. Esta palavra não significa o resultado do "karma", pois na
terminologia budista o "karma" não significa nunca seu próprio efeito,
pois este é conhecido com o nome de fruto ou resultado do "karma". A
volição pode ser relativamente boa ou má, portanto, o "karma" pode ser
relativamente bom ou mau. O bom "karma" gera bons efeitos e o mau gera
maus efeitos. A sede, a volição, o "karma", sejam bons ou maus, tem como
efeito uma só força: a força de continuar - continuar em uma boa ou má direção.
Tudo o que haja de bom ou mau é relativo, e se encontra dentro do ciclo da
continuidade "Samsara". A teoria do "karma" é a teoria de
causa e efeito, de ação e reação, é uma lei natural que não tem nada que ver com
a idéia de justiça ou de recompensa e castigo. Isso é fácil de compreender porém
o difícil consiste em conceber como os efeitos de uma ação volitiva podem
manifestar-se em uma vida posterior à morte. Portanto devemos explicar o que é a
morte segundo o budismo. Vimos que o ser é somente uma combinação de
forças ou energias físicas e mentais. O que chamamos morte é a paralisação total
do corpo. Muito bem, todas essas forças ou energias se detém juntamente com o
não funcionamento do corpo? O budismo diz: Não. A vontade, a volição, o
desejo, a sede de existir, de continuar, de vir-a-ser cada vez maior, é uma
força tremenda que move todas as vidas, todas as existências, no mundo inteiro.
É a maior força, a energia mais poderosa que existe, e não para com a
paralisação do funcionamento do corpo, ou seja, com a morte, mas que continua
manifestando-se sob outra forma, produzindo uma nova existência denominada
renascimento. Surge aqui outra pergunta: Se não há uma entidade ou substância
permanente, imutável, um eu ou alma, o que renasce após a morte? Repetimos
freqüentemente que a vida consiste na combinação dos cinco agregados; uma
combinação de energias físicas e mentais que mudam sem cessar e não são as
mesmas nem sequer durante dois momentos imediatamente sucessivos. Nascem e
morrem a cada momento. Assim, mesmo no transcurso da presente vida, nascemos e
morremos a cada momento e, não obstante, continuamos existindo. Se
compreendermos que nesta vida podemos existir continuamente sem uma substância
permanente, seja alma ou eu, porque não compreender então que ditas forças
possam seguir atuando depois da paralisação do corpo, sem ter por trás delas uma
alma? Quando o corpo físico não pode mais funcionar, essas energias não morrem
com ele, mas continuam manifestando-se sob outra forma ou aspecto diferente
chamada outra vida. Como não existe uma substância permanente e imutável, nada
passa de um momento para o outro. Em conseqüência nada permanente ou imutável
pode passar de uma vida para outra. A vida consiste em uma série sem solução de
continuidade, que muda a cada momento. Para dizer a verdade, esta série é só
movimento, e se assemelha a uma chama que arde durante toda a noite: não é a
mesma chama, nem tampouco outra. Uma criança cresce até chegar a ser um homem de
60 anos, certamente este não é a criança de antes, mas também não é outra
pessoa. Do mesmo modo, o ser que morre aqui e renasce além, não é o mesmo,
porém, também não é outro ser. É uma continuidade da mesma série. A diferença
entre a vida e a morte se baseia em que unicamente um momento de pensamento, o
último momento de pensamento nesta vida, condiciona o primeiro momento de
pensamento da chamada vida seguinte que, na realidade, é a continuação da mesma
série. Enquanto há sede de existir e de vir-a-ser, o ciclo da continuidade
samsara prossegue. Somente poderá deter-se quando sua força diretriz,
quer dizer, esta sede seja desarraigada mediante a Sabedoria que vê a Realidade,
a Verdade, o "Nirvana".
"A origem do sofrimento é o desejo sensual, o desejo de
existência, o desejo de não-existência, o desejo de auto-aniquilação".
A união dos cinco agregados faz surgir a ilusão de um ego.
Nunca conseguimos satisfazer os inúmeros desejos desse ego impermanente, sem
essência própria, sofredor. Dessa ilusão inicial, ou avidya, surgem os
três venenos (sânsc. klesha): o desejo (apego), o ódio (aversão) e a
ignorância (desconhecimento). Do mesmo modo, surgem todos os outros venenos
mentais, como o orgulho, a inveja etc. [as seis emoções perturbadoras]
Para compreender como o sofrimento aparece, pratique observar a
sua mente. Comece simplesmente deixando-a relaxar. Sem pensar no passado nem no
futuro, sem sentir esperança nem medo em relação a isto ou aquilo, deixe que ela
repouse confortavelmente, aberta e natural. Nesse espaço da mente não há
problemas, não há sofrimento. Então, alguma coisa prende a sua atenção; uma
imagem, um som, um cheiro. Sua mente se subdivide em interno e externo, "eu" e
"outro", sujeito e objeto. Com a simples percepção do objeto, não há ainda
nenhum problema. Porém, quando você se foca nele, nota que é grande ou pequeno,
branco ou preto, quadrado ou redondo. Então, você faz um julgamento; por
exemplo, se o objeto é bonito ou feio. Tendo feito esse julgamento, você reage a
ele: decide se gosta ou não do objeto.
É aí que o problema começa, pois "Eu gosto disto" conduz a "Eu
quero isto". Igualmente, "Eu não gosto disto" conduz a "Eu não quero isto". Se
gostarmos de alguma coisa, se a queremos e não podemos tê-la, nós sofremos. Se a
queremos, a obtemos e depois a perdemos, nós sofremos. Se não a queremos, mas
não conseguimos mantê-la afastada, novamente sofremos. Nosso sofrimento parece
ocorrer por causa do objeto do nosso desejo ou aversão, mas realmente não é bem
assim; ele ocorre porque a mente se biparte na dualidade, sujeito-objeto, e fica
dividida com querer ou não querer alguma coisa".
BUDISMO – Psicologia do Autoconhecimento – Dr. Georges da Silva e
Rita Homenko
TERCEIRA NOBRE VERDADE
A Verdade da Cessação -Nirodha
Extinguindo-se a causa, extinguindo-se o falso ego, o
sofrimento também desaparece.
Aqui, aplica-se a lógica da interdependência. A existência do
sofrimento depende de sua causa; se essa causa for eliminada, suas conseqüências
(sofrimento, desejo, ódio, ignorância) também desaparecerão.
A Terceira Nobre Verdade é a que trata sobre a cessação de
"dukkha". Estabelece que podemos liberar-nos do sofrimento, da
continuidade de "dukkha"; e esta liberação é "Nirvana". Para
conseguir isto é preciso eliminar a raiz principal de "dukkha", ou seja,
a sede "tanha". Por isso o "Nirvana" é também chamado a extinção
da sede tanhakkhaya. O que é "Nirvana"? Tentaremos dar uma idéia
citando algumas definições e descrições de "Nirvana", consignadas nos
textos originais pali; "É a completa extinção da sede tanha; é desistir,
renunciar, emancipar-se e desapegar-se dela". "É a extinção do desejo, a
extinção do ódio, a extinção da ilusão". "O abandono e a destruição do desejo e
da avidez pelos cinco agregados do apego: isto é a cessação de "dukkha".
"A cessação da continuidade e do vir-a-ser é o Nirvana". É um erro pensar
que o Nirvana é o resultado natural da extinção da avidez, pois o
Nirvana não é o resultado de nada. Se fosse um resultado, então seria um
efeito produzido por uma causa; seria produzido e condicionado. O Nirvana
não é nem causa nem efeito; esta além das causas e dos efeitos. A Verdade não é
nem um resultado nem um efeito. Não é produzida como os estados místicos,
espirituais ou mentais chamados "dhyana" e "samadhi". A Verdade É.
O Nirvana É. A única coisa que podemos fazer a esse respeito é vê-la por
percepção direta, experimenta-la. Há um caminho que conduz a experiência do
Nirvana, porém este não é o resultado do caminho. Podemos chegar ao cume
de uma montanha seguindo um caminho, porém a montanha não é nem o resultado nem
o efeito do caminho. Há uma outra pergunta corrente: "Se não existe um eu, quem
apreende o Nirvana? Mais atrás vimos que quem pensa é o pensamento, e que
atrás deste não há um pensador. Igualmente, é a sabedoria ou apreensão quem
apreende; por traz da apreensão não há um eu. Dukkha, o Samsara, o
ciclo da continuidade tem por natureza o surgimento; assim tem que ter também
por natureza o cessar. Dukkha surge por causa da sede e cessa devido a
Sabedoria (Prajna, Pañña).
E como vimos, a sede e a Sabedoria se acham incluídos nos cinco
agregados. Isto quer dizer que não existe nenhuma potência externa produtora do
surgimento e da cessação de "dukkha". O Nirvana pode ser
experimentado nesta vida; não é necessário esperar a morte para "alcançá-lo".
Quem experimentou o Nirvana é o mais feliz dos seres. Acha-se livre de
todos os complexos, obsessões, turbações que nos atormentam. Sua saúde mental é
perfeita. Não se arrepende do passado, nem especula sobre o futuro, mas vive
inteiramente no presente. Portanto aprecia todas as coisas e goza delas no
sentido mais puro, sem auto-projeções. É feliz, desfruta da vida pura, suas
faculdades estão satisfeitas, esta livre da ansiedade, é sereno e pacífico. Esta
livre de todos os desejos egoístas, do ódio, do orgulho, assim como de outras
máculas semelhantes, é puro, pacífico, está cheio de amor universal, compaixão,
bondade, simpatia, compreensão e tolerância. Não busca nenhum ganho, não acumula
nada, nem sequer algo espiritual, porque esta livre da ilusão do eu e da sede do
vir-a-ser. O Nirvana encontra-se além da lógica e do raciocínio. Por
conseguinte por mais que iniciemos discussões especulativas acerca do
Nirvana nunca o compreenderemos desse modo. O Nirvana deve ser
experimentado pelos sábios no interior de si mesmos.
QUARTA NOBRE VERDADE
A Verdade do Caminho -Marga
A 4a N.V. é o caminho que conduz a cessação de
"dukkha" o qual é também conhecido como o Caminho do Meio, pois evita os
extremos: um é a busca da felicidade por meio dos prazeres do sentido, o outro a
mortificação de si mesmo mediante distintas formas de ascetismo. Budha
provou estes dois extremos e tendo reconhecido a inutilidade de ambos descobriu
pela própria experiência, O Caminho do Meio que é denominado geralmente de
Caminho Óctuplo.
BUDISMO – Dr Georges da Silva/Rita
Homenko
