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1 - VIDA DE SIDHARTA GAUTAMA O
BUDA
INTRODUÇÃO AO BUDISMO Uma visão da doutrina budista através
dos textos Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos de
vários autores e mestres budistas por Karma Tenpa
Darghye.
Falarei sobre a vida do Budha. O que me interessa é a
vida do ser humano, como vocês e eu. Nós sabemos que ele nasceu há 25 séculos,
num pequeno reino ao norte do Nepal, onde seu pai era um rei. E sabemos que sua
mãe morreu uma semana após o seu nascimento.
De acordo com o horóscopo, ele poderia se tornar um grande rei,
que conquistaria o mundo, ou então o salvador de todos os seres. Seu pai
preferiu acreditar na primeira hipótese, pois sendo um rei, queria um sucessor.
Ele pertencia à classe dos guerreiros e queria um filho também guerreiro. Então,
deu-lhe o nome de Sidarta, "o vencedor". Um dia, veio à corte um velho mestre
que confirmou a predição: Ele iria salvar todos os seres da vida e da morte. O
rei começou a ficar muito preocupado e decidiu criar Sidarta dentro de um
castelo, de forma que ele tivesse tudo que a vida pudesse lhe oferecer e, ao
mesmo tempo, que ignorasse as coisas piores dela. Mas, com a idade de sete anos,
Sidarta iria cumprir a primeira etapa de sua vida de meditação.
Era primavera. Segundo o costume local e da época, o senhor das
terras foi fazer o primeiro corte na terra com o arado. Sidarta viu insetos e
minhocas cortados pelo ferro do arado e como aqueles que ficavam feridos eram
comidos por pássaros e animais predadores. Foi o primeiro encontro de Sidarta
com a vida e a morte, misturados com a alegria e tristeza ao mesmo tempo. Diz o
texto que ele foi sentar-se sob uma árvore e, mesmo sem saber, entrou em
meditação. Isso apenas aumentou a inquietude do rei, que decidiu casar seu filho
ainda bastante jovem, pensando que uma mulher e um filho o ligariam à vida leiga
e isso evitaria que ele renunciasse ao mundo. Assim, aos 16 anos Sidarta
casou-se com uma moça de um reino vizinho. Foram instalados pelo rei num pequeno
palácio com todas as comodidades necessárias para uma vida tranqüila. Sua esposa
deu à luz um filho que se chamou Raúla, que significa "a ligação".
É nesse momento que acontece o episódio chamado "Os quatro
encontros de Budha". Um dia, Sidarta partiu com seus servidores para
visitar a cidade e encontrou no caminho um homem agonizante, com o corpo
deformado pela dor, e perguntou o que vinha a ser aquilo. "Não é nada de
extraordinário, é um homem doente. Todas as pessoas adoecem", respondeu-lhe o
servo. Sidarta retornou ao palácio muito pensativo. Na próxima vez que foi à
cidade, encontrou no caminho um velho fraco que tinha perdido a visão. Perguntou
ao servo o que era aquilo e o servo disse: "Nada de extraordinário. É um velho.
Todas as pessoas serão velhas". Mais uma vez, Sidarta voltou ao palácio
pensativo. Na sua terceira visita viu passar um cortejo, onde as pessoas
choravam. Eram os funerais de uma criança que iria ser cremada, e Sidarta
perguntou, "O que é isso?" E o servo disse, "Nada de extraordinário, são os
funerais de uma criança. Todas as pessoas morrem um dia".
Finalmente, na sua última visita, ele passou por um monge
errante que pedia esmolas. Sua face refletia um espírito tranqüilo. Ele
caminhava com graça, sem medo e sem orgulho. Sidarta então percebeu que assim
era quando se quebravam todos os elos e se compreendia o sofrimento. Resolver o
problema da vida e da morte seria útil a si e a todos os outros. Penso que essas
são etapas que todas as crianças e todos os jovens atravessam. O encontro com a
morte. O desejo dos pais de proteger os filhos do sofrimento. Sidarta teve todas
essas lembranças e todos esses sofrimentos atenuados. O rei, sabendo dessa
consciência de seu filho, resolveu fazer mais e mais festas para que ele pudesse
se alegrar.
Uma noite, ao fim de uma festa com muitos músicos, dançarinas,
cantores, Sidarta atravessou o salão onde as mulheres dormiam pelas almofadas e
nos cantos da sala. Diante desses corpos fatigados, diante dessa evidência de
vida e morte, decidiu deixar o palácio. Decidiu buscar o caminho que levasse ao
fim do sofrimento. Ele tinha 29 anos. Anunciou sua partida ao pai e, pela última
vez, foi ver sua esposa e filho que dormiam. Partiu com seu cavalo e um servo
até a fronteira do reino de seu pai. Lá chegando, desceu do cavalo, cortou os
próprios cabelos com a espada, retirou todas as suas jóias e armas, trocando
também suas roupas com as de um caçador e, sem olhar para trás, entrou na
floresta.
Ele sempre tinha vivido como um príncipe, de maneira
extremamente comportada, e agora aprendera a viver fora, a dormir na chuva, a
comer pouco. Uniu-se a um grupo de discípulos que faziam meditação. Ali ele
aprendeu a fechar as portas da percepção do corpo e a entrar em estados
profundos de concentração. Contudo, percebeu que ao sair da concentração o
sofrimento continuava. Durante 3 anos ele visitou diferentes mestres e começou a
dominar métodos de meditação cada vez mais profundos. Mas, sempre que terminavam
os períodos de meditação, ele descobria que o sofrimento da vida e da morte
permanecia.
Com seus outros cinco alunos, saiu em busca de umas cavernas
onde passaram a viver em extremo ascetismo. Meditavam dia e noite, comendo
apenas sete grãos de arroz por dia. Tentavam abandonar as necessidades físicas,
pensando que se o corpo fosse livre o espírito se libertaria. A imagem de
Budha desta época é mostrada como um verdadeiro esqueleto, mas ele sentia
o sofrimento ainda presente. Um dia, meditando à beira de um rio, se deu conta
de que havia perdido a alegria. A alegria da meditação, do vento que refrescava,
do canto dos pássaros. Então percebeu que corpo e espírito eram um, e que
torturando o corpo estava torturando o espírito. Decidiu buscar outro
caminho.
Na manhã seguinte, tomou banho no rio e caminhou para a vila.
Mas estava muito fraco. Deitou-se na estrada, sendo encontrado por uma jovem da
vila que ia cuidar dos búfalos. Esta jovem deu-lhe um pouco de leite que acabara
de tirar. Um menino que passava, deu ao Budha um punhado de ervas que
colhera para os animais. Budha então tomou essas ervas e, usando-as como
almofada, sentou-se sob uma árvore. Foi o local da iluminação.
Os amigos de Budha, vendo que ele tinha abandonado a
vida ascética, resolveram partir. Sidarta, no entanto, pensava não ser
necessário abandonar o mundo dos fenômenos. Não era preciso fechar-se na
meditação, enquanto ao seu redor as árvores, as folhas, a natureza, enfim, o
mundo eram a própria meditação. Então, o futuro Buda, o futuro "desperto",
decidiu continuar sua procura só, ao pé da árvore, ou morrer ali mesmo. Depois
de 30 dias e 30 noites de meditação, ele entrou num estado mais profundo do que
os que experimentara até ali. Na primeira parte da noite, ele reviu todas as
suas vidas passadas. Elas somavam milhões e milhões de vidas. Neste processo,
ele sentiu todas as dores, todas as penas, todas as alegrias de todos os homens.
Na segunda parte da noite, viu universos incontáveis que surgiam, passavam e
desapareciam. Percebeu, então, que a morte e a vida são a mesma coisa:
aparências. Como o mar e as ondas. Milhares de vagas que se elevam e caem sem
cessar. Mas qual a diferença entre as ondas e o mar?
Durante a lua cheia da primavera, quando a última das estrelas
pastoras apareceu, ele atingiu o despertar completo, incomparável, compreendendo
que havia experienciado a verdadeira natureza do nascimento e da morte. Assim,
estendeu seu braço esquerdo em direção à terra até tocá-la e, invocando seu
testemunho, disse: "Os muros desta prisão estão derrubados. Por inumeráveis
vidas estive preso, mas doravante estes muros não mais serão erguidos. Eu não
mais morrerei ou renascerei". Após a iluminação, Budha continuou mais
sete semanas sob aquela árvore, sabendo que atingiria sua meta e que não fora
por nada que largara tudo. Sabia também que o caminho que encontrara seria muito
difícil de ensinar, de ouvir, de compreender e de praticar.
Hesitou em ensiná-lo e foi refletir diante de um lago onde se
viam flores de lótus. Algumas dessas flores estavam sob a água, outras na
superfície e outras acima da superfície. Pensou, então, que a compreensão dos
seres humanos era semelhante a essa imagem: há os que estão prisioneiros das
ilusões, os que procuram a verdade e os que encontraram o caminho. E então,
resolveu voltar a Benares para ensinar. Mas, quando seus amigos o viram,
disseram, "Lá vem Sidarta, que traiu, que rompeu os seus votos. Não vamos
cumprimentá-lo, não vamos fazer nenhuma homenagem à sua chegada". Ao se
aproximar, porém, a figura de Sidarta era tão radiante, sua aparência tão
majestosa, que eles não puderam se impedir de levantar e oferecer-lhe uma
bebida. Budha disse-lhes: "Não mais me chamem Sidarta, sou o
Budha, o desperto". Daria aí seu primeiro ensinamento, que se chamou a
"primeira volta do Dharma".
Qual é esse ensinamento, qual é a dificuldade nesse
ensinamento, qual significado pode ter para nós agora, depois de 25 séculos? Até
aqui é como uma história. Uma história de contato. De contato com a vida, com o
sofrimento e a morte. Todas as crianças passam por isso e, em seguida, todas as
pessoas se tornam "sérias". Não se tem mais tempo para questionamentos, para
pesquisas científicas. Passa-se a ter responsabilidades. É preciso ganhar
dinheiro, avançar na vida social, ocupar-se da família. É o que chamamos de
senso de responsabilidade e seriedade. Eu penso que Budha tinha um grande
senso de responsabilidade, mais amplo que o nosso. Era um senso não limitado ao
seu reino, às suas coisas, à sua mulher e filho. Seu senso de responsabilidade
considerava todos os seres. O ponto central era a compreensão de nascimento e
morte. Ele observava exatamente aquilo que tentamos não ver: que nascemos e
vamos morrer. Nada do que fizemos ou temos, nenhuma das pessoas que amamos
poderá nos seguir depois da nossa morte. Durante toda a vida construímos, mas
sobre o vazio, pois tudo está em permanente mudança.
As civilizações, as eras, nós mesmos, tudo é impermanente.
Nosso rosto, nossos amores e paixões mudam. Externamente, vemos alternância de
saúde, doença, guerra e paz. Tentamos construir um refúgio, mas não é possível,
pois a morte já está em nós mesmos. Mas isto não quer dizer que se vá viver
irresponsavelmente: "Bom, se é assim, nada tem importância". Pelo contrário,
reconhecer isso é reconhecer que todos os seres humanos vivem as mesmas
experiências. Repartimos as mesmas condições.
A vida é breve, as coisas mudam e desejamos ser felizes. Não
importa a que raça pertençamos, não importa em que tempo estamos. Sempre
procuramos a felicidade e fugimos do sofrimento. Este é nosso ponto básico. Mas
aí as coisas se complicam porque para alcançar minha felicidade, talvez eu seja
obrigada a empurrar ou derrubar alguém de seu lugar. E, em seguida, serei alvo
de retaliação. Logo, não sendo assim tão simples, o que é essa felicidade?
O primeiro discurso do Buda se chama "As Quatro Nobres
Verdades". A primeira delas é a verdade do sofrimento. Todos conhecem o
sofrimento. O sofrimento físico, a doença, a velhice, o sofrimento psicológico.
Mas o texto diz que um dos sofrimentos também é "estar perto de quem não amamos
e longe das pessoas que amamos". Há um sofrimento ainda mais sutil, que é aquele
ligado à mudança, à impermanência. Se as coisas externas mudam e nós mudamos,
nada é permanente. Nada tem continuidade, nem o nosso sentimento, nem aquilo que
procuramos: há sempre uma ligeira inquietude. Ainda que estejamos completamente
felizes e a situação se apresente como a melhor possível, sempre há, no fundo, a
idéia de que tudo pode mudar... como um pequeno ponto negro numa grande
superfície branca. Então, tentamos bloquear as coisas. Tentamos alcançar
segurança, mesmo sabendo que é provisória.
Há uma outra forma de sofrimento. O sofrimento da frustração.
Imaginem que desejamos muito alguma coisa, algo material, uma situação ou uma
pessoa. Se não pudermos obter isso, vem a frustração. Porém, se há possibilidade
de conseguirmos, então vivemos de esperanças. Quando não se tem o desejado,
pensamos que, se o tivéssemos, tudo ficaria perfeito e seríamos felizes.
Finalmente, quando vemos nosso desejo realizado, em geral perde-se o encanto e o
objeto do nosso desejo torna-se menos belo e brilhante que quando estava
distante. Aquilo parecia ouro, agora é como uma pedra amarelada. Por outro lado,
outras situações também trazem sofrimento, como pensar que se obtivermos o que
queremos tudo ficará perfeito. E assim vamos nos repetindo. Essa é a nossa
procura por felicidade. Isto não quer dizer que simplesmente exista sofrimento
no mundo, mas que nossa própria forma de buscar a felicidade cria
sofrimento.
Estar sempre correndo atrás de nossos desejos e fugindo de algo
que possa nos alcançar pelas costas é muito estressante. É uma grande perda de
energia. Então, qual a origem desse sofrimento? Buda conseguiu distinguir três
causas: a avidez, a raiva e a ignorância. Vocês já viram um bebê quando está
mamando? Ele o faz com uma avidez extraordinária, e é preciso que assim seja. Se
não fosse assim, ele não poderia sobreviver. A dificuldade é que isso continua.
O "eu quero, eu quero" conduz à luta contra outras pessoas que querem a mesma
coisa. Então surge a raiva. Se não temos aquilo que queremos, se há recusa,
nossa cólera vai longe, desde palavras ásperas até a guerra.
Mas a raiz de tudo é a ignorância, a ignorância da
interdependência. Imaginamos um "eu" que quer obter alguma coisa e os "outros"
que também desejam a mesma coisa, e então nos separamos. E quando nos separamos,
criamos um território para nós mesmos. Passamos a defendê-lo e os outros
tornam-se inimigos potenciais. Então, vamos enfileirando muros cada vez mais
espessos e altos para nos proteger, de tal forma que nem sol nem vento conseguem
penetrar. Vestimos uma armadura para a guerra de todos os dias. Contudo, com o
peso cada vez maior desta armadura, em breve não conseguimos mais nos mover. Já
não se pode dançar com a vida, com as coisas que chegam.
Temos medo de nós mesmos. Temos medo uns dos outros, das nossas
emoções e do nosso interior. O medo passa a ser o centro de nossa vida.
A ignorância é isto. É estar cortado, separado dos outros e de
si mesmo. Perdemos a unidade profunda com o mundo exterior e conosco mesmo.
A prática é esta: É estar aqui. É voltarmos ao primeiro
instante, quando podíamos estar completamente aqui. Antes de fugirmos para as
lembranças, os projetos, etc. Estar tranqüilamente no centro de tudo que existe,
sem véus, sem separações com respeito à felicidade e ao sofrimento. A isto nós
chamamos não-ego, não-sofrimento.
Não que o sofrimento exterior não exista. É que aceitamos o que
existe.
Então, o que é ser livre? É fazer ou ter tudo que queremos em
nossa avidez? Ou é estar livre destas ilusões que nos atacam sem cessar?
Compreender essa unidade, essa interdependência, é reconhecer
que os outros desejam as mesmas coisas que nós. Eles têm a percepção de
felicidade. Sofrem pela mesma razão que nós. Este é o início da compaixão.
Há uma história sobre a interdependência. É a história de uma
pessoa que obteve autorização para visitar o inferno e o paraíso. Chegando no
inferno, ela viu pequenos seres com pequenas cabeças e corpos enormes, e que
tinham ligadas às mãos varinhas como as que os chineses usam para comer. Todos
se debatiam para alcançar a comida, mas não conseguiam levá-la à boca, pois as
varinhas eram muito compridas. O visitante viu então a avidez, o desejo pela
comida na face daquelas pessoas.
Em seguida, foi ao paraíso e lá encontrou as mesmas pessoas,
com as mesmas cabecinhas e grandes corpos, com as mesmas varinhas ligadas nas
mãos. Porém, cada uma utilizava a sua varinha para alimentar a pessoa à sua
frente, e todas as faces estavam tranqüilas. Isto é a interdependência entre as
pessoas.
Às vezes eu me pergunto quantos minutos por dia é possível
viver sem estar em relação com os outros. Nós estamos em relação com muitas
pessoas que estão mortas, através do que nos deixaram. Também estamos em relação
com muitas outras coisas, como a eletricidade, o microfone, os automóveis, as
profissões... Eu seria completamente incapaz de inventar a eletricidade, mas
posso utilizá-la quando preciso.
Neste momento, no meu templo, há uma horta e nela trabalham
pessoas que necessitam obter seu alimento. Eu poderia pensar que com algum
dinheiro poderia comprar legumes, mas como não sei plantar, se não fossem essas
pessoas talvez eu não tivesse nenhum alimento pois não posso comer dinheiro.
Não sei se realmente poderíamos viver um só minuto sem essa
dependência. Em todo planeta necessitamos do ar, do sol, do vento e da
chuva.
Na França, há um mestre zen vietnamita que diz que se
você é poeta, nesta folha de papel poderá ver todo o universo. Aqui nesta folha
de papel há o sol, que fez nascer e crescer as árvores, o vento, a chuva, o
lenhador que cortou a árvore, a comida que este lenhador comeu, todas as pessoas
que prepararam esta comida, todas as pessoas que trabalharam para fazer este
papel, os que o venderam na livraria. Todo o universo está na folha de papel. É
isto a interdependência.
Nós chamamos isto, nos textos, de a rede de Budha. Como
na rede de pesca, onde cada linha está interligada uma com a outra, quando se
corta uma parte, toda a rede se desfaz.
Compreender isso é encontrar a origem de nosso sofrimento.
Perceber que quando machucamos alguém é a nós mesmos que estamos machucando.
Mestre Dogen, fundador da escola Soto Zen, escreveu que
apenas os loucos pensam que é necessário colocar antes de tudo as suas próprias
necessidades. O sábio vê que não há diferença entre ele e os outros. Mas, é
claro, os outros são sempre o problema. Quando se está só tudo vai bem. Quando
se está só é fácil pensar que somos as pessoas mais gentis e maravilhosas do
mundo. Os outros nos atrapalham o tempo todo. São obstáculos entre nós e o que
gostaríamos de ter. De modo geral, é assim que pensamos.
Há a história de um eremita que estava numa caverna sentado por
anos e anos. Lá ele atingiu um samadi muito profundo, e um dia, por
alguma razão, teve de ir à cidade. Quando chegou lá, havia muita gente e alguém
pisou no seu pé. Ele ficou furioso. É isso, sempre são os outros que atrapalham
nossa prática, interferindo em nosso caminho espiritual. É justamente a
compreensão de nosso sofrimento que está exposta nas Quatro Nobres Verdades.
A terceira nobre verdade fala sobre a possibilidade de colocar
um fim no sofrimento. Não é impossível. Não é uma meta idealizada. Muitas vezes
o Budha foi comparado a um médico, comparado a quem conhece a doença, que
descreve os sintomas e que dá o remédio para curá-la. Como ser justo na vida
cotidiana?
É importante nesse caminho a adequada utilização da palavra,
porque penso que intuitivamente sabemos quando algo é ou não é justo.
Muitas vezes isso fica muito claro, por exemplo, quando vocês
estão com amigos e dizem algo inconveniente, que talvez fosse melhor não ter
dito. Naquele momento pareceu mais interessante chamar a atenção, aparentar
saber mais que os outros ou ser o primeiro a dizer aquilo, mas, no fundo,
sabíamos que não era a melhor coisa a ser dita. Não era justo.
Justo significa adaptado à situação. Uma maneira de manter a
atenção sobre a nossa vida a cada momento. Sobre como ela é e não como
gostaríamos que fosse. Há, então, um tipo de manipulação interessante. Tentamos
empurrar as pessoas e as coisas para exercer o nosso desejo. Então dizemos: "Ah,
se essa pessoa pudesse fazer assim ou assado, se pudesse ser mais gentil..." mas
se ela não age como desejamos, ficamos enraivecidos. E certamente os outros
estão fazendo o mesmo conosco... O estudo das Quatro Nobres Verdades pode nos
fazer compreender comportamentos de nossa vida cotidiana. Porém, isso é teórico,
uma elaboração mental.
Muitas vezes compreendemos que deveríamos mudar em alguns
aspectos. Nosso caráter, nossa maneira de ser. É muito difícil mudar. É por isso
que a prática budista está baseada na meditação. Sidarta é o exemplo. Há
muitas falsas idéias sobre a meditação. Primeiro, vou lhes dizer o que a
meditação não é. Não é um refúgio para nos apartar dos outros, do mundo. Não é
alcançar um pequeno paraíso com nuvenzinhas e pequenos anjos que pulam por todo
lado. Não é sentar para olhar o próprio umbigo, nem para fazer um estudo
psicológico de si mesmo, nem para ter tempo de cuidar de tudo que deve ser feito
durante o dia. Não é relaxamento. Praticar meditação é estar preparado para
olhar aquilo que está dentro de nós, nossa cólera, medo e frustração.
Tudo o que fechou nosso coração a nós mesmos e aos outros.
Meditar é um longo trabalho, física e moralmente doloroso. Pode ser mesmo
aborrecido, mas é absolutamente necessário. às vezes utilizamos uma comparação:
Não podemos ver através de um copo com água lamacenta, devido às impurezas em
suspensão. Se colocarmos o copo tranqüilamente sobre a mesa, aos poucos as
impurezas vão decantando e a água vai ficando límpida, pura e transparente. Da
mesma forma, nossa mente está constantemente agitada com projetos, desejos,
contentamentos, descontentamentos e recordações. É impressionante nossa primeira
meditação, quando vemos tudo isso em nossa cabeça.
Nos textos clássicos, a mente é comparada a um macaco. O macaco
é muito interessante de ser observado. Ele pega um objeto, olha, larga, pega um
outro, larga... Está sempre em movimento, nunca pára. Pode ser lúdico observá-lo
assim, mas se imaginarmos o macaco conosco durante as 24 horas do dia, seria
muito cansativo. Contudo, nós fazemos a mesma coisa. Nossa mente não repousa. Aí
está a importância da meditação.
É preciso prestar atenção, pois começamos, evidentemente, com a
idéia de nos tornarmos uma pessoa melhor. Vamos deixar de sofrer, vamos estar em
harmonia com as demais pessoas. Começamos logo por nossos desejos. Não são
desejos materiais, são desejos espirituais. Além disso, temos a consciência
tranqüila, pois dizemos: "Ah, que pessoa maravilhosa, que ser espiritual estou
me tornando". Mas a meditação, o zazen, não é isso. É apenas estar lá,
sentado. Mesmo sendo desagradável. Só quando estamos enraizados em nós mesmos é
que podemos formar uma relação apropriada conosco e com os outros. Uma relação
direta, não afetada por nossos sonhos e ilusões. É como uma roda. É necessário
um ponto fixo para que a roda possa girar.
Todas as vias espirituais oferecem um caminho. É preciso fazer
uma escolha e segui-lo com determinação. Não é necessário para isso tornar-se
monge. Não é necessário seguir o ensinamento búdico a ponto de deixar a família,
os bens, mas será necessário abandonar muitas coisas no caminho, para que
possamos avançar mais levemente, sem transportarmos tanto "peso". [...]
VIVENDO BUDHA – Zuymyo Joshin Sensei
"O objetivo principal de todas as tradições espirituais é o
mesmo, isto é, levar compreensão e bem-estar à vida de todos. Mas, ainda que
tenham os mesmos objetivos, cada tradição espiritual tem uma abordagem
característica. [...]
Há quem pense que o budismo é uma religião oriental, um
produto do Oriente, ou de um conjunto de culturas orientais. Quando se associa
budismo com Tibet ou tibetanos, pensa-se que o budismo é tibetano. O
budismo não é uma crença ou tradição numa cultura, ou seja, não é nem
especificamente oriental nem especificamente tibetano. O budismo é mais
do que crença associada a uma cultura. O fundamento do budismo é a
compreensão da natureza básica das coisas e dos fenômenos. Assim, os
ensinamentos budistas tratam da natureza das coisas e da premissa de que
cada indivíduo, sem exceção, tem potencial para experienciar a sanidade total
inerente a todos os seres. Assim, o budismo não é apenas uma crença
levada a sério por certas pessoas ou grupos, mas um acúmulo de conhecimentos e
experiências da natureza e do potencial dos seres.
Os ensinamentos budistas adaptam-se a todos os contextos
culturais, por tratarem simplesmente da natureza fundamental da experiência, e
assim, filosoficamente, o budismo está além de qualquer forma
condicionada. Pode-se também dizer, a verdade absoluta ou suprema está além da
forma condicionada.
Toda forma condicionada está sujeita a mudanças, e o que está
sujeito a mudanças não contém verdade absoluta. Não pode haver duas verdades
absolutas, ou, então, não são absolutas. Mas a visão filosófica precisa ser
realizada para que se possa experienciar a verdade absoluta. Quando falamos de
experienciar, não é especulação ou conjectura, mas sim uma postura intelectual
em que se determina que "deve ser assim". Contudo, a experiência fala por si.
Quando procuramos integrar a perspectiva filosófica às práticas específicas do
cotidiano, e com os nossos propósitos íntimos, no contexto da nossa realidade
relativa, associa-se a forma. E, como na prática de toda forma, a tradição
budista pode parecer uma religião ou uma crença.
Cada um de nós, no entanto, deseja ardentemente se libertar do
sofrimento e da dor. Assim, ao nos dedicarmos a qualquer atividade queremos
avançar, libertando-nos cada vez mais do sofrimento. E, enquanto continuamos na
busca, é muito raro sermos bem sucedidos ou nos contentarmos com o que
alcançamos. As vezes nos sentimos bem, mas por trás da satisfação pessoal há uma
sutil insatisfação. Quanto mais sucesso encontramos, maior a insatisfação, menor
a moderação. Por causa de certos hábitos da nossa mente não somos capazes de
estabelecer limites, e dessas insatisfações nos vem mais sofrimento. Isto não é
uma força de expressão, mas vem da experiência e nossas vidas o comprovam".
OS FUNDAMENTOS DO BUDISMO – Jamgon Kongtrul Rimpoche
III
Perguntemos ao mestre Zen Eihei Dogên o que é estudar o budismo
e ele nos dirá:
Estudar o budismo é estudar a si mesmo;
Estudar a si mesmo é esquecer a si mesmo;
Esquecer a si mesmo é estar identificado com todas as
coisas.
Estar identificado com todas as coisas é tornar-se a própria
VERDADE.
O propósito do estudo do budismo não é estudar
budismo, mas estudar a nós mesmos. É impossível estudar a nós mesmos sem
algum ensinamento. Para saber o que é a água, você precisa da ciência, e o
cientista, de um laboratório. No laboratório há vários meios de estudar o que é
a água. Assim torna-se possível saber os elementos que ela contém, quais as
diferentes formas que assume e qual a sua natureza. Contudo, é impossível saber
por esse meio o que é a água em si. Acontece o mesmo conosco. Precisamos de
algumas instruções, mas só pelo estudo do que foi ensinado não é possível saber
o que "eu" sou em mim mesmo. Através do ensino podemos compreender nossa
natureza humana. Porém, os ensinamentos não são nós mesmos: são uma explicação
sobre nós. Portanto, se você se apegar ao ensinamento ou ao mestre, cairá em um
grande erro.
Mente Zen, mente de principiante – Shunryu Suzuki
Por isso Budha aconselhava um exame crítico e experimental dos
seus ensinamentos antes de aceita-los por reverência a ele.
Assim pregava:
"Exatamente como as pessoas verificam a pureza do ouro
queimando-o no fogo ou, cortando-o e o examinando numa pedra de toque, da mesma
forma, ó monges, deveis aceitar minhas palavras depois de submetê-las a um exame
crítico e não por reverencia a mim".
Isso sugere que existem duas formas principais de abordar os
ensinamentos budistas, de acordo com a capacidade do praticante: a forma
inteligente e a forma menos inteligente. A forma inteligente consiste em abordar
os textos sagrados e os comentários com ceticismo e com a mente aberta, além de
submeter o conteúdo desses ensinamentos a um exame, por meio da comparação com
nossa própria experiência e compreensão. Então, à medida que vai crescendo nossa
compreensão, também crescerá nossa convicção no conteúdo dos textos, assim como
nossa admiração pelos ensinamentos do Budha como um todo. Uma pessoa com
essa visão não seguirá um ensinamento ou um texto sagrado simplesmente por ser
ele atribuído a um mestre famoso ou a alguém digno de respeito; mas a validade
do conteúdo do texto será julgada com base na própria compreensão dessa pessoa,
derivada de análise e investigação pessoal.
O princípio budista das Quatro Confianças aplica-se a
essa abordagem inteligente. Elas se expressam como se segue:
Confie na mensagem do mestre, não na pessoa do mestre;
Confie no significado, não apenas nas palavras;
Confie no significado definitivo; não no provisório;
Confie na sua mente de sabedoria, não na sua mente
comum.
Em outras palavras, não deveríamos confiar na fama, no
status nem em nenhum outro atributo do mestre, mas, sim, no que ele
diz. Não deveríamos confiar nas palavras em si, mas no seu significado.
Não deveríamos confiar no significado provisório, mas no significado definitivo;
e, finalmente, não deveríamos confiar na mera compreensão intelectual do
significado, mas, sim, na profunda experiência e conscientização. Essa é a forma
inteligente de enfocar os ensinamentos budistas.
Portanto, à medida que vocês se aproximam da próxima parte
destes ensinamentos, sugiro que procurem reter a atitude de ceticismo aberto de
que acabei de falar.
Transformando a Mente – Dalai Lama
Um conto Zen
Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em
meditação no pátio do templo à luz da Lua – com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante
das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os
sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é
transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos
são usados para defini-lo?".
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo
apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o
dedo que aponta".
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar
que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia", confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois
ninguém mais pode olhar a Lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão:
frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A
Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente
revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro
Princípio".
"Então", o monge perguntou, "Porque os homens precisam que lhes
seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque", completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua
todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de
aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam
na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas,
sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para
embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado
mais do que é necessário".
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então de
súbito, simplesmente apontou para a Lua.

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