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Mandalas - Arte , Cura e Auto-Conheçimento
Paulo Urban

Mandala é um termo sânscrito, que se traduz por
círculo mágico. Mas, na tradição hindu, seu conceito expressa muito mais do que
as palavras que possam defini-lo. O dicionário de Aurélio Buarque de Holanda
aceita o termo, registra-o como substantivo feminino e o explica como imagem do
mundo e instrumento para a meditação. Em seu estado original a palavra é oxítona
de gênero masculino, pronunciada abertamente: man-da-lá. Não somente designa um
mantra, mas o vivifica por ser ela própria o movimento.
Mantras são sons vocálicos, puros ou combinados,
passados dos mestres aos discípulos. Costumam ser verbalizações secretas de
poder, transmitidas como fórmulas rituais particulares, usadas para fins
iniciáticos; mas há mantras de domínio geral, aplicados à coletividade,
especialmente devotados ao despertar psíquico, ou proferidos em prol da paz ou
saúde do planeta.
Quando escritos, os mantras assumem a forma de seu
equivalente gráfico, os iantras, figurações que tendem à simetria geométrica e
se comportam também como raízes gráficas (chamadas mula-iantras) dos diferentes
mantras e demais termos que deles se derivam. Os iantras nada mais são que o
suporte, o arcabouço linear dos mantras. Mas estão muito além do conjunto
correlato de letras que se combinam para criar vocábulos nos idiomas ocidentais,
já que o hinduísmo considera que as palavras têm vida, que toda vogal é extensão
das notas musicais da voz divina. Os mantras, portanto, são a alma dos iantras,
o espírito por detrás da matéria que o Verbo cria e denomina.
Representações mandálicas são sublimes; suas formas
representam a combinação perfeita entre os mantras e seus respectivos iantras.
No tantrismo, prestam-se à meditação; comumente as vemos pintadas ou riscadas no
chão, feitas de sementes ou grãos de areia, usadas para delimitar locais
sagrados, como o altar dos templos, ou áreas destinadas a procedimentos
ritualísticos específicos.
Assim como o fogo, as mandalas têm ainda a
propriedade de nos prender a atenção, de nos convidar à introspecção, à
percepção de seus aspectos, de seu arranjo harmônico, que se distribui num
quatérnio espacial.
Tal como a água, deleitam-nos a ponto de nos fazer
tranqüilos; propiciam à mente que se distancie dos problemas imediatos,
induzindo-a ao exercício da contemplação. Efeito semelhante ocorre quando
observamos peixes num aquário em seu vaivém constante, em sua dança circular que
nos acalma. Mandalas são, portanto, todas as formas que nos permitem penetrar no
jogo das vibrações que constituem o universo. São portas quânticas para outros
níveis de consciência, verdadeiras bases de lançamento de nossas naves
Enterprises, no seio das quais viajamos a lugares onde nenhum homem jamais
esteve.
As mandalas selam o sacramento de nossa união com o
cosmos. São veículos para o religamento de nossa consciência com a fonte
absoluta de onde provimos. Na tradição tibetana, são guias imaginários e
provisórios da alma; orientam-nos em nossa prática meditativa e transmitem o
equilíbrio com que se distribui a essência divina, cuja ubiqüidade jamais
permite que a capturemos em nossas mãos. Concordante é o pensamento do filósofo
medieval Nicolau de Cusa (1400-1464): “Deus é uma esfera cujo centro está por
toda parte, embora suas circunferências não O delimitem em parte
alguma.”
O círculo é o terceiro dos quatro símbolos
fundamentais. Comecemos pelo ponto, virtualidade sem a qual o mundo inteiro não
estaria manifesto; de sua natureza se estende a cruz, segundo elemento, que, ao
girar sobre si mesma, produz o círculo. Este, por ser perfeito, sem começo, meio
ou fim, diz respeito ao mundo divino, ou à imagem de Deus quando quer que O
representemos pelo oroboro (a cobra que morde o próprio rabo), a simbolizar a
vida que, perenemente, se devora e se transforma. Do círculo divino, forma
absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais,
representando a Terra e todas as criaturas.
Ancorado sobre seus quatro lados, o quadrado tende à
estabilidade, contrastando com o dinamismo da roda ou do círculo, que é puro
movimento. Em oposição ao céu, o quadrado designa o plano terreno em que se
manifestam todas as coisas criadas. Altares e templos comumente são
quadrangulares ou retangulares; sob essas formas também se organizavam as
cidades antigas, bem como as fortalezas e os acampamentos militares. No campo
das religiões, observemos a Caaba, de Meca, templo máximo do islamismo. A pedra
cúbica significa a divindade dando fundamento a toda a humanidade, ao mesmo
tempo em que sustenta, feito pilar supremo, a abóbada celeste, outra
representação da morada de Deus. Ademais, em época anterior ao Islã, Meca era
chamada por Umm-al-Qura, ou “Mãe das Cidades” (Corão, 6, 92 e 42,5), sendo
considerada, tal qual o templo apolíneo de Delfos, o Umbigo do Mundo.
Em outros casos, é o círculo que delimita lugares
consagrados ao divino, como, por exemplo, o enigmático templo rochoso de
Stonehenge, construído, entre 2600 e 1700 a.C., a partir de conhecimentos
astronômicos de espantosa precisão. Curiosamente, a palavra inglesa usada para
designar igreja, church, provém do escocês antigo kirk, que, além de templo,
significa círculo.
Na verdade, toda forma circular, quadrangular ou
qualquer outra que insinue a presença de um centro em torno do qual todo um
complexo se organiza pode ser tida como uma forma mandálica. Não foge à regra a
Távola do Rei Arthur, circular e orientada em torno do Graal, símbolo do ideal
comum de integração e transcendência.
Mandalas podem ser consideradas sagradas por tudo
isso. Ao sintetizarem os conceitos de mantra e iantra em todas as suas possíveis
combinações, revelam, por imagens que nunca se repetem, a infinita variedade do
potencial divino. Quando quer que meditemos incursos na harmonia de seus
desenhos, mais prontamente nos alçamos em espiral, projetando-nos em torno do
rabo da serpente e nas asas da espiritualidade.
A tradição alquímica propõe que os filósofos,
mediante a pedra filosofal, ou por meio do elixir da longa vida, atinjam o
fulcro do derradeiro mistério oculto na quadratura do círculo. Metaforicamente,
“quadrar” o círculo é fazer caber no plano humano (o quadrado) toda a dimensão
divina (o círculo).
Muito antes de os alquimistas medievais terem
nascido, os pitagóricos (século 6 a.C.), herdeiros dos ritos órficos, viam na
tetrakys, ou tétrade sagrada, a base de sua doutrina, que faz do 10 um número
perfeito, resulta- do da soma do quatérnio básico (1+2+3+4=10), do qual emana
toda e qualquer forma vivente. “O Universo é número”, dizia Pitágoras, que
valorizava o 4 como alicerce da vida, e o 3 como a própria divindade. De seu
produto (3x4) obtinha-se o número que revelava a totalidade do acerto entre
homens e deuses: 12 é o número do todo.
Carl Gustav Jung viu nas mandalas o melhor dos
exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica psíquica, cuja
essência última resta sempre incapturável. Inspirado na máxima citada de Nicolau
de Cusa, Jung chamou de selbst o centro organizador da psique, espécie de núcleo
atômico psíquico. Traduzido para o inglês por self, o termo encontra em
português expressão que muito melhor o representa, o si mesmo. A rigor, na
psicologia junguiana, tal instância é o ponto central de todo o psiquismo, mas
também sua esfera inteira, que abrange o mundo inconsciente bem como o
consciente. O ego aqui é mero centro funcional de nossa
consciência, a mesma que nos permite dar conta de
nossa individualidade.
Como todo arquétipo, o si mesmo é essencialmente
incognoscível. Dele sabemos apenas empiricamente e por vias indiretas. São
nossos sonhos que nos contam de sua existência; o percebemos, nos mitos e contos
de fada, sempre disfarçado por detrás dos símbolos da totalidade, como o
círculo, a cruz e o quadrado; ou por meio de contrastes que expressem a
coniunctio opositorum, isto é, a união dos opostos que também se complementam,
como é o caso do dia e da noite, do bem e do mal, de yin e yang.
Às vezes, o si mesmo se esconde por detrás de
personagens que dinamicamente se encarregam de desenvolver toda uma trama
dialética, como ocorre com as duplas Fausto e Mefistófeles, Dom Quixote e Sancho
Pança, Peter Pan e o Capitão Gancho, etc. Em outras ocasiões, ele está no
personagem axial desses enredos mágicos, quer na figura de um rei, de um
profeta, ou projetado sobre um avatar ou mesmo num herói qualquer que, enredado
em sua missão lendária, busca vencer obstáculos intransponíveis pelos seres
comuns, mediante o que ele reorganiza e salva o mundo onde vive seu drama.
Através dos séculos, a humanidade sempre se mostrou
mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo. Entre os egípcios há
o conceito Ba como instância além da alma comum, correspondente ao daimon dos
gregos, aspecto que Sócrates admitia aconselhá-lo sempre, em suas horas mais
difíceis. Em sociedades e culturas primitivas, a idéia está incutida ora num
espírito protetor da natureza, ora sobre a imagem de algum animal, ou num sábio
antepassado cuja função, depois de morto, é a de orientar sua tribo.
Segundo Jung, há duas razões principais pelas quais
podemos perder contato com o si mesmo que nos regula e nos tempera, o que
compromete a distribuição homogênea e espontânea da energia anímica por toda a
mandala de um psiquismo saudável.
O primeiro obstáculo surge sempre que nos vemos
tomados por impulsos instintivos emocionalmente fortes, que nos levam a reagir
visceralmente. Até os animais comportam-se assim, quando, por exemplo, excitados
sexualmente, esquecem-se até da fome, ou descuidam-se de suas defesas, em
detrimento da conduta habitualmente tomada para sua segurança. São inúmeros os
povos indígenas em que situações de perturbação mental, associadas ou não às
doenças físicas, são interpretadas pelos xamãs como um quadro de “perda da alma”
– nada mais, segundo a psicologia analítica, do que o resultado da
unilateralidade do funcionamento psíquico, capaz de condensar demasiada energia
em torno deste ou daquele aspecto num processo neurótico e gerador de
complexos.
O segundo empecilho é propriamente uma condição
oposta à primeira; advém da cristalização excessiva do ego, que adora se prender
ao mundo da realidade objetiva e esquecer-se de todo o resto, dificultando a
percepção dos estímulos inconscientes provenientes do centro psíquico interior.
Claro, precisamos de um ego conscientemente voltado às tarefas habituais da
vida. Mas ele deve ser bem disciplinado e nos levar às realizações pessoais sem
cair no abismo de julgar que só a realidade objetiva possa locupletar as
necessidades da alma. Por essa razão, muitas vezes acordamos ungidos pela bênção
de certos sonhos significativos, cuja função é a de restaurar a receptividade
cotidianamente perdida e restabelecer o diálogo necessário entre a consciência e
o mundo psíquico mais profundo. Sempre que nos privamos prolongadamente desse
intercâmbio entre o ego e o si mesmo, ainda que não o percebamos, adoecemos; e o
surgimento de sintomas neuróticos ou psicóticos, mesmo doenças orgânicas das
mais simples às incuráveis, passa a ser mera questão de tempo.
Jung elegeu a mandala por excelência adequada para
simbolizar o psiquismo; isso porque nas representações mitológicas do si mesmo
está presente, quase sem exceção, a estrutura quaternária como arcabouço nuclear
da alma. Mandalas multiplicam-se pelo mundo. Todos os povos do planeta, de todas
as épocas e lugares, expressam-nas em sua arte, bem como nos enredos de seus
mitos.
No Oriente, elas são usadas para recompor o ego
diante da majestade do eu interior. A contemplação dessas imagens homogêneas,
organizadas em torno de um centro, tende a facilitar, por analogia, a emergência
de processos inconscientes, capazes de permear de paz interior a mente que
deseja vislumbrar a ordem subjacente no cosmos, ou que queira abstrair da
contemplação algum significado para a existência ou para o milagre da
vida.
Nas paisagens de nossos sonhos, nas visões
proféticas, nos contos de fadas, a estrutura mandálica está sempre presente. Há
exemplos por toda a parte. Nossa Via Láctea, galáxia espiralada com dois braços
que se evolvem a partir de um núcleo, é uma assombrosa mandala. O Sistema Solar
é núcleo da mandala que o circunda de planetas; do mesmo modo, elétrons viajam a
960 km/s “presos” a uma esfera mandálica atômica imaginária. Nossos olhos,
globos mandálicos, enxergam o mundo por uma lente mandálica cristalina ovalada,
coberta pela colorida e radiada mandala da íris. A Terra, aparentemente
esférica, é mandala que orbita. O cérebro, composto por dois hemisférios
mandálicos, com partes anterior e posterior, mantém o padrão. O mesmo podemos
dizer do coração humano, palácio da alma descrito em quatro câmaras. Os pássaros
costumam fazer ninhos circulares, e as aranhas tecem mandalas de extraordinário
requinte nos cantos das cavernas.
Mandalas estão abundantemente representadas no
Ocidente principalmente desde a Idade Média. As rosáceas dos vitrais das
catedrais de Chartres e Notre-Dame são mandalas translúcidas, inspiradoras da
paz interior que deve estar presente nos campos religiosos da mente. Aliás,
todas as cruzes, religiosas ou não, incluindo a suástica, são mandalas; a
estrela de Davi com seis pontas idem, reforçando o mistério do cruzamento divino
e humano pelo entrelaçado de seus dois triângulos equiláteros. Os tabuleiros dos
milenares jogos esotéricos (xadrez, go, damas, gamão, etc.) são espaços
mandálicos sobre os quais se reproduz o simulacro da dança da vida. Cartas de
baralho são igualmente mandalas. No tarô, ela acha-se delineada em todos os
arcanos, ressaltada nos maiores, principalmente no Mago, na Justiça, na Roda da
Vida, no Enforcado, na Temperança, na Estrela (onde pela primeira vez surgem
juntos os quatro elementos), no Julgamento e no Mundo. Na abóbada celeste,
projetamos a mandala zodiacal. Nos mitos, as mandalas do destino humano. Um
deles, o de Hermes, conta-nos que em torno de seu caduceu estão duas serpentes
abraçadas, uma com a função de acompanhar as almas em sua viagem ao reino de
Hades, mundo dos mortos; a outra com função psicagógica, a de reconduzir as
almas mortas à luz da vida, quando devem renascer. Mandalas fazem isto:
propiciam iluminação às mentes que diante delas silenciam e, a partir da
pacificação dos indivíduos comuns, proporcionam paz ao mundo, tão carente dessa
dádiva.
Agradeçimentos : 

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